Porto Alegre, quarta-feira, 17 de junho de 2020.

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Música

Notícia da edição impressa de 17/06/2020. Alterada em 16/06 às 19h00min

Projeto bel_medula, de Isabel Nogueira, prepara novo disco

Compositora deve lançar 'Semente' no final de julho

Compositora deve lançar 'Semente' no final de julho


ELIZABETH THIEL/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
A chegada do novo coronavírus criou uma barreira terrível para quem vive da música. Afinal, shows se tornaram inviáveis, e mesmo uma junção de músicos para um ensaio virou uma epopeia quase proibitiva.
A chegada do novo coronavírus criou uma barreira terrível para quem vive da música. Afinal, shows se tornaram inviáveis, e mesmo uma junção de músicos para um ensaio virou uma epopeia quase proibitiva.
Mas a música é uma experiência feita de construir pontes - e, no caso de Isabel Nogueira, o disco Semente, de seu projeto bel_medula (com lançamento previsto para o final de julho), será, de fato, a união de diferentes mundos. Em mais de um sentido. "É um trabalho que foi gestado no coletivo e que, agora, mostra como esse coletivo continua refletindo na gente. É uma presença ressignificada, mesmo que não no espaço físico", diz a compositora e musicóloga, em conversa com o Jornal do Comércio.
Ela certamente tem motivos para afirmar tal coisa. Semente sempre foi planejado para ser a parte final de uma trilogia, iniciada com os álbuns Pele/Osso, disponibilizados de forma unificada em novembro do ano passado. As composições foram testadas e aprimoradas no palco, enquanto a bel_medula fazia apresentações para promover os dois discos já lançados, e acabou sendo natural que fosse igualmente gravado como uma banda, com todos os instrumentos tocando ao mesmo tempo no estúdio. As gravações aconteceram em fevereiro, semanas antes da pandemia chegar ao Estado - uma visita indesejável que não só derrubou a agenda de shows prevista para depois do lançamento, como interrompeu a produção antes do planejado.
Foi a hora de jogar com as ferramentas que a tecnologia traz, inserindo um pouco de distanciamento físico na equação. "Faltavam duas guitarras, que o João Pedro Cé conseguiu gravar em casa. O saxofone, o Luciano (Zanatta, que também é marido da compositora) gravou em casa, e a voz, eu consegui terminar de gravar em casa também", enumera. "É interessante, porque tu vais repensando o processo. Eu tenho computador, interface de áudio, microfone... O que acontece é que, talvez, aquele ambiente do estúdio, aquele isolamento acústico que tu pensavas ser essencial para uma gravação de voz em um álbum, acaba não sendo tão essencial assim."
Um processo criativo e de descoberta que, no caso de Isabel Nogueira, não se interrompe com a nova realidade entre paredes. Pelo contrário: de certa forma, a disposição experimental que norteia o trabalho da artista ganha ainda mais fôlego. Em abril, ela engajou-se no projeto #30dias30beats, criado em 2019 pelo DJ paraibano Daniel Jesi e que desafia mentes criativas a associar música e imagem, uma postagem por dia. O material produzido está disponível nas redes sociais de Isabel e deve virar playlist em breve.
"Em certo sentido, foi uma trabalheira, porque não sei fazer vídeo. Mas também foi muito bacana. O Luciano fazia os vídeos dele (pelo projeto Desendance), eu fazia os meus, e fomos trocando ideias", relembra.
Durante a produção desse material, houve muita conversa com produtores de todo o Brasil, igualmente engajados no desafio. E é claro que a profunda indefinição que envolve a cultura brasileira foi assunto o tempo todo. "Há toda uma discussão entre produtores no sentido de não lançar (músicas), que talvez o pessoal esteja lançando demais e que a escuta não esteja tão atenta. Mas, ao mesmo tempo, há essa necessidade de conversar com o momento atual - mesmo porque há coisas que não vão mais fazer sentido, ou vão fazer um sentido muito diferente no pós-pandemia. É tudo muito novo, e me parece que fica menos angustiante se conversarmos entre nós, entendermos que essa angústia não é individual."
Além de Semente e das faixas de #30dias30beats, Isabel Nogueira deve seguir lançando os clipes preparados para as canções de Pele/Osso. Um desses vídeos, Silêncio lugar, foi produzido depois da chegada da pandemia, já em dias de isolamento - o que, é claro, deu novas conotações à canção. As aulas no Instituto de Artes da Ufrgs, onde Isabel leciona, ainda não foram retomadas, mas ela segue orientando no ambiente virtual. Tudo em casa - e o lar, agora tão próximo, vai trazendo também novos estímulos e experimentações.
"Para mim, eram muito importantes as gravações de campo. Eu gostava de sair e gravar sons, pessoas, a movimentação no Centro de Porto Alegre. Bom, isso por enquanto não tem mais, mas vamos percebendo outros sons que aparecem. Em um dos vídeos do #30dias30beats, fiz um dueto de piano, máquina de lavar e chaleira", exemplifica. "Vejo meus filhos tendo aula, eu mesma falando com meus alunos, e a casa se transforma (nessas ocasiões). Não acho que vamos suprir a presença anterior, mas essa situação toda nos dá essa chance de educar os sentidos, se permitir perceber essa casa de outro jeito."
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