Porto Alegre, segunda-feira, 15 de junho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
segunda-feira, 15 de junho de 2020.
Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

CORRIGIR

Música

Notícia da edição impressa de 15/06/2020. Alterada em 14/06 às 20h48min

A nova vida holográfica de João Maldonado

Músico utiliza o período de isolamento para retomar o estudo de piano

Músico utiliza o período de isolamento para retomar o estudo de piano


ROBERTA AMARAL/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
A presença da pandemia nas ruas brasileiras nos obriga a ficar em casa o máximo de tempo possível. O mesmo, é claro, se deu com artistas de todos os tipos, e com a arte como um todo - algo que, na experiência do músico e compositor João Maldonado, também trouxe o retorno a um tipo diferente de recolhimento e cuidado. "Criei um plano para mim e voltei para a minha base, que é estudar piano. É o meu aconchego. Chamo isso de voltar para casa", reflete, em conversa virtual com o Jornal do Comércio.
A presença da pandemia nas ruas brasileiras nos obriga a ficar em casa o máximo de tempo possível. O mesmo, é claro, se deu com artistas de todos os tipos, e com a arte como um todo - algo que, na experiência do músico e compositor João Maldonado, também trouxe o retorno a um tipo diferente de recolhimento e cuidado. "Criei um plano para mim e voltei para a minha base, que é estudar piano. É o meu aconchego. Chamo isso de voltar para casa", reflete, em conversa virtual com o Jornal do Comércio.
O piano, de fato, está com Maldonado desde o começo. Foi por meio dele que teve as primeiras aulas de música, ainda na infância. É com ele que, na atualidade, toca para frente sua carreira jazzística - que teve como desdobramento, no final do ano passado, o lançamento do CD Beauty. E é no instrumento que o músico reencontra um pedaço significativo da sua história, como um alicerce fundamental em tempos de incerteza sobre o futuro.
"Peguei todos os livros antigos e amarelados de piano clássico, estabeleci uma disciplina de exercícios eruditos", explica. "Peças de Bach, Chopin, Beethoven, Ravel, Debussy, Haydn... De forma tranquila, parando a leitura (das partituras) para entender bem. E isso tem me ajudado muito, inclusive porque tenho colocado em pauta para os meus alunos, trocando com eles também um pouco do que eu próprio estou estudando."
Troca é, de fato, uma palavra fundamental nos dias que vivemos. E, mesmo com os palcos temporariamente em silêncio, as manifestações artísticas têm proposto trocas que, em um futuro que se espera próximo, poderão abrir as portas para um novo momento. "É a arte que está nos ajudando a enfrentar o isolamento. Aliás, a arte e a ciência talvez sejam as duas coisas mais fundamentais neste momento, (quando a gente pensa) na saúde da sociedade", aponta.
A trajetória de João Maldonado sofreu uma guinada considerável a partir da chegada do novo coronavírus, com uma série de shows cancelados e projetos de curadoria interrompidos. Mas as possibilidades do universo on-line (essa "nova vida holográfica", como descreve o pianista) estão ajudando a preencher parte dessa lacuna. Nos últimos dias, o músico apresentou-se na série Isolamento acústico, proposta pela gravadora Loop Discos, além de aparições nos projetos Jazz at home e Mistura fina - Música para fugir do trânsito - neste último, faria um show em abril, que acabou substituído por um recital de 40 minutos, transmitido on-line. Tudo isso, é claro, mantendo a rotina de composição, já pensando no jazz que está por vir.
O jazz, aliás, é um retorno para casa na vida de João Maldonado. Era nessa trilha que ele seguia antes de 1988, quando entrou no TNT, banda lendária do rock gaúcho. E foi para ela que voltou quando, após algum tempo no Chile e em colaborações com músicos como o bluesman Solon Fishbone, decidiu "entrar de cabeça" na própria história. Na última década, essa tem sido a sua caminhada - e é nesse caminho que ele pretende seguir, acreditando, sinceramente, que o pavor do novo coronavírus é uma chance para repensar nossos rumos individuais e coletivos.
"De todos os shows que estão fazendo (nas redes sociais), assisti o da Ivete Sangalo, na sala de sua casa, com o filho, botando uma música pré-gravada e cantando. Achei maravilhoso. Tentei ver o Lulu Santos, mas não consegui: achei muito plastificado, muito perfeito, um estúdio inteiro trabalhando para ele. O (pianista de jazz norte-americano) Chick Corea eu assisti 34 dias seguidos, ele fez uma série de vídeos com aulas e dicas para estudar", enumera Maldonado. "Nesse sentido, todos nós - os 'artistas pequenos' - temos uma amplitude enorme, entramos nessa nova vida holográfica da mesma forma e nas mesmas condições de qualquer outro. Um artista não muito conhecido em Porto Alegre, como eu, com um disco de jazz, pôde ser escutado em diferentes partes do mundo e ter 25 mil views em uma só música. O isolamento abriu essa holografia nova, onde todo mundo está se refazendo."
Um refazer que passa, como ele próprio frisa, pela disposição em aprender e trocar aprendizados. "A verdadeira união está começando agora", opina, esperançoso. "Até então ninguém estava unido de verdade, todo mundo queria o seu, e agora mudou o jogo. As pessoas querem escutar música boa, querem ver um sketch teatral que possa fazer pensar ou rir bastante. Vamos precisar rever nossas formas de relação, nossos grupinhos, para descobrirmos, juntos, como colocar na roda o que as pessoas buscam. A gente tem que aprender, humildemente, a utilizar essas novas ferramentas para monetizar o que a gente tem para dar ao público. E quem já está fazendo isso também tem que ensinar. Essa é a graça do jogo."
Comentários