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música

Notícia da edição impressa de 04/06/2020. Alterada em 03/06 às 19h31min

Audições comentadas virtuais devem ultrapassar câmeras e microfones

Olinda Allessandrini e Tiago Halewicz homenageiam Beethoven na estreia de projeto do Instituto Ling

Olinda Allessandrini e Tiago Halewicz homenageiam Beethoven na estreia de projeto do Instituto Ling


MACIEL GOELZER/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Referências incontestáveis em suas linhas de atuação, com ampla experiência, Tiago Halewicz e Olinda Allessandrini têm, há 10 anos, uma parceria na apresentação de cursos presenciais, marcada por muita afinidade entre os dois. Porém 2020 exigiu uma certa adaptação para eles desenvolverem o projeto Audições Comentadas de Música Erudita do Instituto Ling.
Referências incontestáveis em suas linhas de atuação, com ampla experiência, Tiago Halewicz e Olinda Allessandrini têm, há 10 anos, uma parceria na apresentação de cursos presenciais, marcada por muita afinidade entre os dois. Porém 2020 exigiu uma certa adaptação para eles desenvolverem o projeto Audições Comentadas de Música Erudita do Instituto Ling.
Desta vez, as aulas serão totalmente on-line. "Vivemos um tempo de pandemia e temos que nos reinventar!", destaca Olinda. "Esse é um fenômeno global, uma necessidade comum que abarca toda a sociedade, independentemente do lugar do planeta", opina Halewicz.
Na primeira sessão, em homenagem aos 250 anos do nascimento de Ludwig van Beethoven, os pianistas falam sobre processo criativo e biografia do alemão, além de interpretar ao vivo algumas das suas composições emblemáticas. O encontro virtual Universos musicais de Beethoven ocorre hoje, às 16h. As inscrições custam R$ 20,00 e podem ser feitas no site institutoling.org.br. A atividade, com vagas limitadas, tem duração de uma hora.
Segundo os ministrantes, a adaptação para transmissão on-line representa alguns desafios. O primeiro deles, conforme Halewicz, é converter um encontro, até então baseado na interação docentes-plateia, em uma dinâmica quase unilateral: "Sem a troca, algo tão importante para a disseminação do conhecimento". "Um dos maiores desafios é transferirmos através de uma câmera a naturalidade e a espontaneidade que se tem junto ao público. Nas apresentações ao vivo, sempre existe uma troca de energias, e uma câmera é fria e objetiva. Ultrapassar essa distância exige muita imaginação", diz Olinda. 
No segundo ponto, a apropriação eficaz das ferramentas disponíveis é um objetivo a ser aprimorado, articulando discurso, imagens e vídeos. "Nossas aulas sempre conjugaram fala, performance musical, apresentação de textos e vídeos, de uma maneira muito orgânica. Agora que nossa sala de aula é uma tela de computador, uma câmera e um microfone, precisamos organizar tudo de uma maneira mais objetiva e roteirizada, para que tenhamos um discurso claro e muito próximo daquele que estamos acostumados", conta o professor. 
Para a musicista, ainda estão "engatinhando" neste processo de dominação das tecnologias: "Ao vivo, estes diferentes momentos se processam com fluência, a nossa figura está sempre presente, nossa expressividade ao abordar as imagens é mais nítida. Em uma apresentação on-line, temos que planejar muito bem os roteiros, e manter o público atento não só pelo contexto que está sendo tratado, mas cativando também pelo aspecto visual das imagens escolhidas".
No entanto, ela reconhece que dialogar com Tiago Halewicz facilita muito, pois suas ideias convergem e se desenvolvem com fluência - "Nos completamos, e cada encontro é uma alegria!". "Em um encontro virtual, acho que é um diferencial importante. O piano passa a ser uma terceira voz, provocando uma mudança de linguagem. A variação no timbre das vozes, a complementação das ideias e uma linha segura de desenvolvimento da apresentação produzem um resultado que, com certeza, ultrapassa câmeras e microfones", avalia a pianista, confiante.
Já Halewicz enxerga um terceiro obstáculo a ser considerado: encorajar o público a romper as barreiras com os meios digitais. "Com o aprimoramento do acesso às plataformas de videoconferência, tudo tem ficado muito mais fácil. Nas últimas semanas, tenho acompanhado a mudança de comportamento de muitas pessoas até então resistentes à tecnologia. Elas estão aderindo às ferramentas, interagindo pelo chat, abrindo a câmera e o microfone naqueles minutinhos que antecedem a aula e se fazendo presentes. Percebemos um rápido processo de humanização desses meios que chegaram para ficar e marcam uma grande virada de página nas relações humanas."
Formação de plateia para a música erudita
Os professores também enxergam plateia interessada e calorosa para a música erudita, desde que seja motivada a entrar neste mundo. "Sempre discordei daqueles que dizem que o público brasileiro não gosta de música erudita. Os brasileiros gostam e prestigiam esse gênero, o que falta é acesso e iniciativas, principalmente do poder público, para estabelecer uma relação mais próxima", afirma Halewicz.
"O mais importante é tornar a música como sendo um bem a compartilhar", destaca Olinda. Pequenos detalhes sobre a vida e obra dos compositores, segundo ela, podem fazer toda a diferença na escuta musical. "Nas últimas décadas, tem surgido no Brasil e aqui no Estado muitos projetos sociais, encaminhando jovens para o estudo de instrumentos, constituindo pequenas orquestras, e dedicando seu tempo e desenvolvendo seu talento com muita persistência. Estes jovens e suas famílias constituem uma parte do nosso público."
Este tipo de iniciativa, “humanizando” os processos criativos dos músicos mais importantes da história, pode intensificar o interesse por parte do espectador. A pianista narra que os intérpretes de música erudita sabem que precisam "entrar na pele" do compositor, para melhor entender sua linguagem musical. "Mas é muito importante a intertextualidade. O intérprete deve conhecer detalhes da vida do compositor, qual era sua posição em relação à sociedade do período em que viveu, suas ideias filosóficas, qual a situação sócio-política do seu País, e principalmente interessar-se sobre as outras artes durante este período. As manifestações artísticas ao redor da música são uma preciosa fonte de informações. No momento em que o intérprete leva esta música a público, é importante compartilhar alguns destes aspectos." Assim, ocorre uma aproximação maior do público com a obra artístico-musical.
Particularidades da trajetória de Ludwig van Beethoven
Sobre Beethoven, o homenageado da estreia, o docente o considera primordial na formação de qualquer músico: "Sua obra integra um momento particular da história, viveu todas as transformações acarretadas pela Revolução Francesa, pela passagem da humanidade da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. É um reformador da linguagem musical".
Olinda relata que teve contato com o compositor na infância, com pequenas peças como bagatelas, valsas e escocesas: "Com 11 anos, toquei a Sonata nº 1 e, a partir dali, estudei várias sonatas para piano, para violino e piano, violoncelo e piano, trios, o quinteto para sopros, a Fantasia Coral, o Concerto Tríplice e três dos cinco Concertos para piano e orquestra. Sempre fiquei fascinada por este compositor. Sua música é um verdadeiro caleidoscópio, cada obra é estruturada de modo muito inteligente, e me parece incrível que todo esse universo estivesse contido em apenas uma pessoa".
Para ela, sua ousadia e impetuosidade transformaram o mundo da música em sua época, abrindo os caminhos para o romantismo, além de ser um grande exemplo de resiliência, "a qual necessitamos em alto grau nestes tempos de pandemia. Ele enfrentou a surdez antes de completar 30 anos, o sentido mais importante para qualquer músico, e só resistiu graças à música". 

"Villa-Lobos - este ilustre desconhecido!"

HEITOR VILLA-LOBOS, CRÉDITO UAB DIVULGAÇÃO.
Apesar de reverenciado como o maior compositor brasileiro, tem sua obra pouco divulgada
UAB/DIVULGAÇÃO/JC
O segundo encontro do projeto Audições Comentadas de Música Erudita será no dia 16 de julho, às 16h, sobre Villa-Lobos. A participação segue o mesmo modelo da primeira edição.
"Sem dúvida, esse compositor é fundamental para a compreensão da alma brasileira. Escolher Villa-Lobos neste momento de isolamento social vai ao encontro da tendência que surge nesse cenário, de olhar para dentro, de investigar o nosso entorno e buscar acolhimento para que, quando tudo isso acabar, possamos alçar novos voos", comenta o professor Tiago Halewicz.
Para Olinda Allessandrini, Villa-Lobos é um ilustre desconhecido: "Todos já ouviram falar nele, no mundo todo, ele é reverenciado como o maior compositor brasileiro, mas, na verdade, sua música ainda é muito desconhecida!".
Por isso, decidiram trazer esta figura genial e polêmica para o projeto do Instituto Ling. "Um dos motivos desta escolha é o imenso repertório para piano. Desenvolvido ao longo de décadas, a trajetória de Villa-Lobos pelo piano é um testemunho das inúmeras facetas de sua música, e é possível percorrer sua juventude, suas aventuras pelo sertão e pela selva, seu sucesso em Paris e New York, seu empenho na implantação do ensino da música nas escolas de todo o País, sua personalidade vulcânica, enfim, temos um rico universo musical em Villa-Lobos que deve ser mais divulgado. Ele foi a alma musical do Modernismo brasileiro, abrindo novos horizontes e novas possibilidades em composição", resgata a intérprete.
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