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Literatura

Alterada em 31/05 às 19h51min

Samir Machado de Machado reflete sobre os livros que estão por vir

Escritor fala sobre o desafio de manter a criatividade em meio à pandemia

Escritor fala sobre o desafio de manter a criatividade em meio à pandemia


TADEU VILANI/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
"O escritor asmático deve manter o distanciamento social."
"O escritor asmático deve manter o distanciamento social."
Um posicionamento prudente em tempos de pandemia, sem dúvida. E que, no caso de Samir Machado de Machado, tem mais nuances do que a simples (embora justificada) preocupação com a saúde. O autor gaúcho, que tem respeitado com afinco as recomendações das autoridades de saúde, admite a dificuldade de manter a criatividade em meio a tudo o que está acontecendo do lado de fora - talvez porque os ecos se façam ouvir claramente do lado de dentro, em casa e no pensamento. O que não quer dizer, é claro, que não tenha algumas aventuras para oferecer.
"Se fosse só a pandemia, já seria difícil. Mas também é preciso lidar com o despreparo e o desprezo do governo em salvar vidas, ou me dar conta que, por sofrer de bronquite asmática, pertenço aos grupos de risco cujas vidas o governo e seus apoiadores consideram descartáveis", explica o autor de Homens elegantes (2016). "A gente acaba perdendo um pouco do senso de propósito nisso tudo, e acabo me sentindo um pouco como os violinistas do Titanic, para o qual só restava mesmo tocar violino. Mas, como fã de longa data de filmes-catástrofe, e sendo fatalista desde criança, minha única preocupação é ficar tranquilo quanto às incertezas do futuro próximo."
Um isolamento que, longe de idealizações criativas, reconhece a si mesmo em seu sentido mais básico: preservar a saúde. E uma situação que, embora não seja novidade, traz a Samir algumas conotações novas - e pouco agradáveis. "Nunca fui muito sociável, mas estava aprendendo a gostar das pessoas nos últimos anos, e, agora, sinto falta de poder frequentar os cafés do meu bairro, o Bom Fim, onde eu costumava reencontrar amigos e colegas. Além, é claro, do próprio campus da universidade, onde estou fazendo meu mestrado. Aula virtual alguma substitui a convivência pessoal com professores e colegas", lamenta.
A chegada do novo coronavírus ao Brasil acabou coincidindo com o lançamento do livro coletivo Corpos secos, que Samir Machado de Machado divide com Luisa Geisler, Marcelo Ferroni e Natalia Borges Polesso. A coincidência, por um lado, é infeliz, já que prejudicou bastante a programação de lançamento. Por outro, deu à obra conotações inesperadas. Trata-se de um livro de zumbis ambientado no Brasil, no qual pessoas infectadas por uma epidemia disparada por agrotóxicos perdem a atividade cerebral, mas seguem sedentas de sangue.
Não é preciso um enorme esforço de abstração para entender que nosso país é, mais do que o cenário, uma das inspirações de Corpos secos. Teria o quarteto de escritores realizado, mesmo sem querer, algum tipo de profecia? "O livro foi planejado em 2018, e o texto ficou pronto no começo de 2019. Mas também não era necessário um grande exercício de futurologia para prever que um país governado por Jair Bolsonaro estaria fadado à tragédia. Qualquer um com bom senso já podia perceber isso", defende. "Infelizmente, o nosso apocalipse de mortos-vivos, que nasceu como metáfora de um temor por um futuro próximo, acabou sendo atropelado pela própria realidade, que se encarregou de fazer dele quase real demais."
Enquanto a pandemia não vai embora, e mesmo com as dificuldades de concentração em tempos tão duros, a literatura segue em frente. No momento, Samir dá os últimos retoques em uma nova aventura histórica com Erico Borges, o protagonista de Homens elegantes, que deve ser publicada no ano que vem. "Se chamará Homens cordiais, e será um romance de batalha ambientado na invasão de Portugal no século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos. É minha homenagem pessoal a Alexandre Dumas, Bernard Cornwell e Rafael Sabatini, meus autores favoritos de capa e espada", explica.
Um livro que promete, digamos, aliviar um pouco o ambiente depois das inquietantes conotações de Corpos secos. "As únicas coisas que imagino que um escritor seja capaz de oferecer em situações como a que vivemos são reflexão e catarse", pondera Samir. "É por isso que escrevo romances históricos de aventura. A parte histórica ajuda a colocar as coisas em perspectiva, quando entendemos de onde viemos e para onde provavelmente vamos. E a parte de aventura é para poder criar vilões detestáveis e formas criativas de matá-los no final."
E o que Samir Machado de Machado sugere aos aventureiros leitores do Jornal do Comércio, para que se distraiam enquanto as sagas pós-pandemia não chegam? "De leituras recentes que fiz, recomendo Ainda que a terra se abra, de Rodrigo Tavares, e Cancún, de Miguel del Castillo. Mas também pode ser o momento de pôr em dia livrões de mais de 400 páginas, e nesse sentido, recomendo Duna, de Frank Herbert, e os quadrinhos completos de Bone, de Jeff Smith."
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