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Literatura

Notícia da edição impressa de 12/05/2020. Alterada em 12/05 às 09h10min

Com projeto de poesia em vídeo, escritor Dan Porto homenageia Fernando Pessoa

Autor gaúcho criou série de clipoemas intitulada As Pessoas de Fernando

Autor gaúcho criou série de clipoemas intitulada As Pessoas de Fernando


/américo joaquim/divulgação/jc
Daniel Sanes
Se a linguagem escrita é, por óbvio, o "chão" do escritor, não se pode dizer o mesmo da oral. Não são raros os casos de autores tímidos, de pouca intimidade com a palavra falada. No entanto, o impacto das plataformas digitais é uma realidade na vida das pessoas, e os artistas que forem um pouco mais, digamos, desinibidos, podem se beneficiar delas e atingir um público mais amplo.
Se a linguagem escrita é, por óbvio, o "chão" do escritor, não se pode dizer o mesmo da oral. Não são raros os casos de autores tímidos, de pouca intimidade com a palavra falada. No entanto, o impacto das plataformas digitais é uma realidade na vida das pessoas, e os artistas que forem um pouco mais, digamos, desinibidos, podem se beneficiar delas e atingir um público mais amplo.
No caso de Dan Porto, o uso de uma dessas ferramentas foi a forma encontrada para expressar a admiração por um de seus grandes inspiradores. Através da série As Pessoas de Fernando, o autor, um gaúcho de Candelária radicado em Curitiba desde 2017, homenageia Fernando Pessoa. Em vídeo no YouTube, Dan lê fragmentos d'O livro do desassossego, escrito pelo poeta português sob o heterônimo Bernardo Soares, enquanto imagens de desconhecidos transitando no meio da multidão servem como pano de fundo. O projeto é um experimento de transtexto, técnica de criação e expressão em que poemas são misturados e versos, suprimidos ou acrescidos. Assim, Dan recita e costura estrofes, dialogando com Pessoa e até o questionando.
Segundo o escritor, os clipoemas (ou videopoemas), com periodicidade mensal, são produzidos de modo quase artesanal. "É uma pretensão audaciosa da minha parte, já que não sou ator, nem um entendido de audiovisual. No entanto, há o dever como leitor, eu me sinto responsável ante o poeta dado o tanto que ele me dá. É preciso falar de poesia, recitar versos e levar ao maior número possível de telas um texto com a potência de Fernando. Pessoa liberta!", afirma. A proposta é conciliar o conteúdo com leituras presenciais, ainda não programadas. A previsão é de que os vídeos sejam produzidos também em 2021.
Com sete livros publicados, Dan relata que a paixão pela literatura vem desde a infância, quando despertou seu primeiro impulso pela escrita. "Lembro de terminar de ler um livro de Andersen (Hans Christian, dinamarquês autor de clássicos como O patinho feio e A pequena sereia) e pensar: 'Eu quero escrever um livro desses para as crianças'. No entanto, comecei a escrever efetivamente a partir de 2006, sendo o primeiro livro de 2009 (o quase didático Pequeno manual do vestibular)", ressalta.
Não demorou muito para descobrir e se identificar com o poeta lusitano. "Fernando surge muito cedo, ainda no Ensino Fundamental, se bem me lembro, e não vai mais embora. Seus textos, em especial os do próprio, os de Alberto Caeiro (outro heterônimo) e os do Bernardo Soares, dizem o que quero dizer, expressam o que sinto. Assim, se tivesse que ler apenas um autor pelo resto da vida, seria Fernando. Aprendo com ele, me curo nos seus versos, me entendo em seu modo de observar o mundo", argumenta o escritor. "É um dever apresentá-lo às novas gerações, às mídias sociais, ao audiovisual e ao universo do teatro."
Autor do panfleto Homo Poeticus, distribuído nas ruas da capital paranaense e disponível em danporto.blogspot.com, Dan rechaça a possibilidade de, em um mundo acelerado como o de hoje, grandes nomes como Pessoa serem esquecidos pelos mais jovens. "Não creio nisso. Fernando é o propulsor moderno dessa nossa língua, da cultura portuguesa e do País. Os próprios autores portugueses contemporâneos concordam com isso", argumenta ele, que considera a internet uma aliada na disseminação tanto da obra do poeta português quanto da formação de novos leitores.
"Aqui em Curitiba, no ano passado, o diretor Sergio Bertovi produziu uma série de clipoemas/videopoemas/videoartes a partir de poemas dos meus livros Just It, Carménère e Xilema (obras que integram sua trilogia Série poética, de 2015). Neste 2020, os vídeos participaram de diversos festivais e chegaram a ser selecionados. Há festivais e editais específicos para clipoemas. Um dos objetivos de As Pessoas de Fernando é formar público para tais produções, assim como para poesia e teatro. Penso que podemos avançar bastante e alcançar principalmente o público jovem", acredita.
Inicialmente, a série só iria ao ar no próximo ano, mas foi antecipada por causa do novo coronavírus. É a sua forma de contribuição, enquanto artista, para tornar menos sofrido o isolamento social provocado pela pandemia.
"O período atual está mostrando que podemos viver sem muitas das coisas que julgamos, ou nos fazem crer, essenciais. Mas a arte é o que tem nos mantido conectados e sãos. É o fio de sanidade no qual nos agarramos neste momento", afirma Dan. "Espero, sinceramente, que possamos perceber a importância dos conteúdos criativos, artísticos, informativos e científicos que acessamos em quarentena e que nos ajudaram a relaxar, nos divertir, cuidar da saúde, e que, daqui para frente, valorizemos mais os artistas locais, os amigos e colegas que produzem arte."
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