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Música

Notícia da edição impressa de 11/05/2020. Alterada em 10/05 às 18h12min

Cantor e compositor Bebeto Alves se despede dos discos

Ao lançar 'Pela ultima vez' e 'Salvo', cantor une as duas pontas de uma carreira de quatro décadas

Ao lançar 'Pela ultima vez' e 'Salvo', cantor une as duas pontas de uma carreira de quatro décadas


/SIMONE SCHLINDWEIN/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
"Eu não estou desistindo. Eu estou me negando a fazer."
"Eu não estou desistindo. Eu estou me negando a fazer."
A frase pode parecer pesada, talvez até amarga. Mas não se deixe enganar pela falta de contexto: por meio dela, Bebeto Alves busca deixar claro que sua despedida dos discos é um gesto que o fortalece, ao invés de enfraquecê-lo. E que une as duas pontas de quatro décadas: acompanhando Pela última vez, derradeiro trabalho do projeto Ohblackbagual, fica disponível também o álbum Salvo, tirado de gravações anteriores ao primeiro disco oficial, de 1981, que o próprio Bebeto nem lembrava mais que existiam. Um fim que é também um começo, em mais de um sentido. Os dois lançamentos são da ProdutoOficial.
A decisão de não lançar mais álbuns envolve "vários vetores", segundo o próprio. O principal deles é um sentimento de inadequação artística diante das necessidades imediatistas e superficiais do mundo digital. "Acho que a minha proposta não encaixa nessa linguagem, que exige rapidez e ausência de reflexão. Sei que é assim, porque eu mesmo me comporto assim quando entro nessa linguagem, passo voando, não me detenho nas coisas. Não estou sendo crítico, dizendo que é ruim. Mas é diferente de tanta coisa que eu vivi, e não sei se quero interagir com isso", pondera.
Mas não é apenas isso, claro. A negação, que Bebeto sempre faz questão de frisar, também é deixar para trás os muitos compromissos envolvidos em manter uma carreira discográfica. E uma conciliação com a ideia de envelhecer. "Acho que qualquer artista que tenha uma trajetória longa vai passar por momentos em que seus trabalhos significam alguma coisa, dentro de um contexto coletivo. E acho que, na medida em que você começa a envelhecer, você não serve mais para esse tipo de coisa", diz, com franqueza. "É um diálogo interno no qual a gente acaba se pondo. Eu não quero mais exigir de mim mesmo manter essa frequência, em todos os sentidos da palavra."
Esse negar-se envolve também uma consciência do que foi feito - afinal, encerrar um capítulo passa por já ter dito o que se desejava dizer. Em Pela última vez, Bebeto Alves volta à milonga, em uma reafirmação enfática de si próprio e de sua trajetória. "(No processo de composição) me referi ao disco de 1981 (autointitulado) e me referi ao primeiro disco do Ohblackbagual (Blackbagualnegovéio, de 2004) para dizer que a milonga não é um gênero gauchesco, mas um gênero da música popular brasileira. A milonga é como o samba, o baião, o xote. É assim que a trato desde os anos 1980, e, agora, digo a mesma coisa, com mais experiência e maturidade."
E por que dizer de novo? "As pessoas esquecem", afirma. "Já tivemos esse momento de ruptura, de dar passos na descoberta de uma identidade do Rio Grande do Sul dentro da música brasileira, e esse processo foi solapado, atrasado em muitos anos. E achei que tinha que reafirmar, uma vez mais, que é possível fazer coisas de forma diferente, e que ninguém pode negar isso, nenhum movimento cultural conservador pode querer impedir", acentua.
Diz de novo, e diz bem dito. No trabalho - gravado ao lado dos velhos companheiros Marcelo Corsetti (guitarra e violão), Luke Faro (bateria) e Rodrigo Rheinheimer (baixo) - há espaço para Milonga, composta pelo carioca Rodrigo Maranhão, e para Nego de Alah, que fala da Revolta dos Malês, ocorrida na Bahia em 1835. E há também um outro diálogo com Salvo - surgido de uma velha fita cassete, em posse do engenheiro de som Marcos Abreu, e com 10 músicas até então inéditas. A primeira canção de Pela última vez, chamada João Madrugada, também é uma gravação antiga, ao lado do músico Raul Ellwanger; a baixa qualidade do áudio remete ao passado, realçando a explosão rumo ao presente com a faixa seguinte, Outras verdades.
"Essas coisas são maravilhosas, não é? Criar essas relações, esses sentidos entre as músicas", fala Bebeto, pensativo. "Mas ninguém dá mais a mínima para isso aqui", complementa em seguida, segurando uma cópia do último disco. Não está triste, ao contrário: dá risadas, vendo graça no que deixa para trás.
A negação de Bebeto Alves faz questão de ser um passo à frente, não um ponto final. Afinal, deixar de fazer discos não tem nada a ver com deixar de criar. Ele anda muito conectado ao audiovisual: no projeto Stop 19, musicou poemas e transformou em vídeo obras do parceiro Tadeu Vilani, e planeja uma exposição virtual ao lado de Antonio Augusto Bueno, chamada Plano de voo - um intermezzo entre O voo da pedra, ensaio visual que ocupou boa parte do ano passado, e o vindouro Linha de voo, que aguarda o mundo pós-coronavírus para ter a chance de emergir. "Quando cesso esse diálogo com uma trajetória minha, abro outra perspectiva, que é de liberdade. É dessa história de 20 e tantos discos que quero me desvencilhar. Não vou deixar de criar."
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