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Cinema

Notícia da edição impressa de 06/05/2020. Alterada em 05/05 às 19h34min

As incompletudes do gênio Orson Welles

Realizador de obras seminais como Cidadão Kane, ator, escritor, diretor e produtor norte-americano Orson Welles nasceu há exatos 105 anos

Realizador de obras seminais como Cidadão Kane, ator, escritor, diretor e produtor norte-americano Orson Welles nasceu há exatos 105 anos


GREGG TOLAND/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
A trajetória artística de Orson Welles é tão singular que seu filme mais recente foi lançado mais de três décadas depois de sua morte. O outro lado do vento começou a ser rodado em 1970, mas enfrentou todo tipo de problema, incluindo trocas repentinas de atores, longas sequências nunca utilizadas e o desaparecimento de boa parte do dinheiro para as rodagens, supostamente desviado por um dos produtores.
A trajetória artística de Orson Welles é tão singular que seu filme mais recente foi lançado mais de três décadas depois de sua morte. O outro lado do vento começou a ser rodado em 1970, mas enfrentou todo tipo de problema, incluindo trocas repentinas de atores, longas sequências nunca utilizadas e o desaparecimento de boa parte do dinheiro para as rodagens, supostamente desviado por um dos produtores.
Sua linguagem experimental era vista como empecilho por investidores, e Welles (nascido há exatos 105 anos, no dia 6 de maio de 1915) passou anos editando o filme em casa, nos intervalos de outras produções. Com a morte do realizador, em 1985, a situação se complicou ainda mais, em uma longa disputa entre sua filha Beatrice e Oja Kodar, companheira de Orson Welles durante duas décadas, pelos direitos do material.
A história foi longa, mas o final é feliz. Distribuído pela Netflix em 2018, O outro lado do vento recebeu inúmeros elogios da crítica e é considerado (mais) uma das grandes obras do diretor. Uma figura que, antes de conquistar o cinema, já havia deixado marcas no teatro e no rádio, virando sinônimo de uma criatividade quase incontrolável.
Um gênio tão inquieto que deixou uma série de projetos para trás, na medida em que sua imaginação fervilhante - e suas necessidades financeiras - apontava para outras realizações. Nem todas, é verdade, resultaram em histórias bem-sucedidas: Don Quixote, que Orson Welles rodou de 1957 a 1972 e em cuja edição trabalhou esporadicamente até sua morte, foi transformado em Don Quijote de Orson Welles (1992), editado por Jesús Franco e um fracasso quase unânime de crítica. O projeto É tudo verdade, voltado à realidade da América Latina, só existe em um documentário lançado em 1993, e outras obras - como The deep (1966-69) e The dreamers (1980-82, ambos sem título em português) - foram abandonados em uma etapa tão inicial que qualquer finalização é praticamente impossível.
Felizmente, as obras concluídas de Orson Welles são mais que suficientes para garantir um lugar entre os principais cineastas da história. Ele é lembrado, antes de tudo, pela impactante estreia com o seminal Cidadão Kane (1941), presença quase obrigatória nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Mas não são poucas as outras pérolas em sua filmografia, como A marca da maldade (1958), Othelo (1951), Falstaff: o toque da meia-noite (1965) e Soberba (1942).
A fama, porém, chegou bem antes do seu rumoroso contrato com o estúdio RKO, em 1939. Na verdade, Welles já era uma estrela tão grande que pediu (e levou) um contrato que dava a ele liberdade artística quase total - algo então fora da realidade mesmo para diretores experientes, que dirá para um estreante. Dá para dizer, inclusive, que o jovem nascido em Kenosha, no Wisconsin, era famoso desde a infância: a primeira aparição na imprensa, em 1926, no jornal local The Capital Times, trazia a manchete: "Cartunista, ator, poeta - e só tem dez anos".
Elogios rasgados que, é claro, não se perderam nos tempos de garoto. Ator e diretor que trabalhou muitos anos com Welles, Norman Lloyd descreveu o colega como "o maior talento de direção que o teatro norte-americano já teve". O sucesso de sua companhia Mercury Theatre passou dos palcos para o rádio, com direito à histórica encenação de Guerra dos mundos, em 1938: o recurso de imitar um boletim jornalístico deu tão certo que muitos ouvintes entraram em desespero, acreditando que uma invasão alienígena estava de fato ocorrendo. Em maio de 1938, pouco mais de um ano antes de assinar o contrato que o conduziu ao cinema, Orson Welles foi capa da revista Time, em conexão com o imenso sucesso da peça Heartbreak house - e o realizador mal tinha completado 23 anos.
A figura do grande gênio sempre traz suas complexidades, e Welles teve várias delas. Sua notória postura centralizadora dificultou o avanço de muitas produções, além de gerar dívidas que levaram décadas para serem quitadas - isso quando chegaram a ser pagas.
Sua vida pessoal também foi movimentada (com direito a um casamento de alguns anos com a estrela Rita Hayworth), e não é à toa que a briga entre a filha Beatrice (de cuja mãe, Paola Mori, o cineasta nunca chegou a se separar) e a companheira Oja Kodar criou tantos problemas póstumos para o legado artístico do realizador. Ainda assim, a obra de Orson Welles se ergue bem acima das polêmicas, pouco visíveis em comparação com uma criação tão significativa.

Alguns dos principais filmes do cineasta

Cidadão Kane (1941) - A estreia de Orson Welles no cinema foi revolucionária: com técnicas inusitadas de câmera, roteiro e edição, a investigação em torno do recém-falecido magnata Charles Foster Kane é um dos filmes mais elogiados da história.
Soberba (1942) - Marcada por vidas frustradas, cobiça e apego a aparências, a saga da riquíssima família Amberson é uma parábola sobre as transformações dos Estados Unidos no final do século XIX.
O estranho (1946) - Apesar de descartada pelo próprio diretor, essa história sobre um detetive à caça de um oficial nazista foi seu maior sucesso de bilheteria, e demonstra a força da assinatura de Welles em um formato mais convencional.
A dama de Shangai (1947) - Pouco elogiada à época, a película foi reconhecida mais tarde como um clássico do cinema noir, em uma história de homicídio que influenciou tudo que seria feito depois no gênero.
Othello (1951) - Mais do que mera transposição do clássico de Shakespeare para a telona, a trágica história do herói militar mouro se transforma em uma profunda observação sobre os caminhos que levam um grande homem à ruína. 
Falstaff: o toque da meia-noite (1965) - A intensa relação entre o príncipe Hal e o decadente Sir John Falstaff se transforma quando o herdeiro ascende ao trono. Além de uma apaixonada releitura de Shakespeare, é um tratado sobre o que há de belo e de sombrio na amizade.
O outro lado do vento (2018) - Lançada 33 anos após a morte de Welles, a montagem honra seu espírito criativo e experimental. Semiautobiográfico, o filme retrata um diretor que exibe, em seu aniversário, uma versão incompleta de seu novo e problemático projeto.
 
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