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Literatura

Notícia da edição impressa de 04/05/2020. Alterada em 03/05 às 19h39min

Poeta Ronald Augusto prefere não romantizar o isolamento

Autor fala sobre poesia, criatividade e leitura em tempos de distanciamento social

Autor fala sobre poesia, criatividade e leitura em tempos de distanciamento social


SIMONE LERSCH/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
O escritor como solitário. Um incompreendido. Isolado, talvez: alguém que anda só em meio às multidões, que senta nos cafés para contemplar uma vida de que tanto fala e à qual, ao mesmo tempo, é incapaz de pertencer?
O escritor como solitário. Um incompreendido. Isolado, talvez: alguém que anda só em meio às multidões, que senta nos cafés para contemplar uma vida de que tanto fala e à qual, ao mesmo tempo, é incapaz de pertencer?
"É uma tremenda bobagem", dispara o poeta gaúcho Ronald Augusto, que recebeu, no ano passado, o Prêmio Minuano de Literatura por Entre uma praia e outra. "Infelizmente, a arte é uma das atividades humanas em que mais se tolera toda sorte de mistificações. Muitos artistas, ingênua ou maliciosamente, ajudam a promover esse tipo de coisa. Prefiro colocar sob suspeição a noção segundo a qual a arte serve como instrumento de transformação do homem e da sociedade."
Não se pense, levando em conta essa resposta, que estamos diante de um autor taciturno, daqueles que usa o mau humor para manter os reles mortais a distância. Esse seria outro batido estereótipo de escritor, afinal de contas. Suas discordâncias são de outra natureza: propõem a reflexão, não o fim do assunto. Ronald Augusto é, na verdade, uma pessoa agradável e solícita - embora não seja, é verdade, muito complacente com romantizações. 
O distanciamento social trazido pelo novo coronavírus, por exemplo, não é uma chance de ouro para novos versos. Segundo ele, pouco ou nada mudou na sua forma de escrever, ou mesmo nas atividades como ensaísta e músico. Isolamento como estímulo à criatividade? Também não é bem por aí. "Ficar em casa não é especialmente inspirador para mim, e, do mesmo modo, antes do confinamento, quando podíamos ir e vir sem preocupação, eu não entendia (e ainda não entendo) essa condição como mais favorável à criação de poemas."
Poesia escondida no cotidiano, nos cantos outrora invisíveis que o recolhimento nos convida a olhar com mais calma? "Do meu ponto de vista, a poesia não se esconde", acredita, unindo simpatia e ênfase. "Essa imagem sugere que o fenômeno poético é um mistério que se fecha sobre si mesmo, e o poeta é essa criatura que tem a chave para libertá-lo. Poesia é e está na linguagem. O conceito de 'poesia do cotidiano' é tão irrelevante quanto, por exemplo, o conceito de 'poesia metafísica'. Cada poeta engendra e suporta uma forma ou voz poética particular. O que interessa é como fazer com que essas singularidades se manifestem na materialidade mesma da linguagem."
Outra ideia com a qual Ronald Augusto não concorda: a de que o claustro pode aproximar o escritor e o leitor, no compartilhamento de uma experiência comum. "Não sei. Acho que essa ideia parece ir ao encontro da romantização do isolamento", discorda. "A questão não é se aproximar do escritor. Eu, como leitor, prefiro me aproximar do texto, enfrentar os dilemas do discurso, da prosa e do verso em sua condição de coisa verbal que produz sentidos e elipses" diz. Bem, mas pelo menos há mais tempo para encarar aquelas obras paradas na estante, certo? Errado. "Sempre sonhamos com mais tempo para finalmente lermos aquela grande obra, assistirmos aquele clássico do cinema. Porém, não há mais tempo. Não temos mais, aliás, nunca tivemos autoridade sobre o tempo do capital", reforça.
Seja como for, Ronald é firme sobre o que talvez seja outra forma de isolamento: as dificuldades que escritores negros enfrentam para obter reconhecimento. "A sala de estar da literatura não é infensa ao racismo estrutural de nossa sociedade", acentua. "O escritor negro é mais um estranho do que um igual. O argumento meio clichê da qualidade literária, por exemplo, tem servido muito mais para manter uma espécie de reserva de mercado para os escritores da branquitude do que para estabelecer algum modelo de julgamento para a diversidade das poéticas que experimentamos."
Antes da indesejada chegada da Covid-19 ao Brasil, Ronald Augusto encaminhava os últimos ajustes para o lançamento de dois livros, um de ensaios e outro de poesia. A pandemia, contudo, pausou esses projetos. De forma remota, o poeta segue com as oficinas e os cursos; às vezes, escreve letras de música. Nada que se aproxime de uma explosão criativa, porém. "A impressão que eu tenho é a de que minha criatividade vem diminuindo. A desconfiança é mais forte. Já não fico satisfeito facilmente nem com os meus, nem com os poemas alheios", revela.
A principal tarefa de Ronald nestes dias, de qualquer modo, é bem outra: cuidar da filha de 11 meses. "Ela sairá da quarentena como bípede", brinca o pai. Levando em conta os muitos trabalhos e as alegrias da paternidade, o poeta traz, aos que buscam uma forma de abreviar (ao menos no plano sensorial) os dias duros de quarentena, uma sugestão quase singela e, ao mesmo tempo, tão direta quanto suas visões sobre literatura e vida. "Um atalho? Tenham filhos."
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