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artes visuais

- Publicada em 19h25min, 28/04/2020.

Leonardo da Vinci: em uma mente, o universo

Autorretrato do artista italiano, falecido em 2 de maio de 1519

Autorretrato do artista italiano, falecido em 2 de maio de 1519


ROYAL LIBRARY OF TURIN/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Há pouco mais de uma década, a cidade italiana de Florença começou a trazer à tona suspeitas que fazem o mundo da arte prender a respiração. Uma equipe liderada pelo especialista em análise de arte Maurizio Seracini diz ser possível recuperar o mural A Batalha de Anghiari, uma das mais festejadas obras de Leonardo da Vinci entre seus contemporâneos e considerada perdida há mais de quatro séculos.
Há pouco mais de uma década, a cidade italiana de Florença começou a trazer à tona suspeitas que fazem o mundo da arte prender a respiração. Uma equipe liderada pelo especialista em análise de arte Maurizio Seracini diz ser possível recuperar o mural A Batalha de Anghiari, uma das mais festejadas obras de Leonardo da Vinci entre seus contemporâneos e considerada perdida há mais de quatro séculos.
Segundo eles, a obra, encomendada para embelezar um dos salões da prefeitura, está escondida atrás de afrescos de Giorgio Vasari, que concluiu a decoração da sala cerca de 50 anos depois da morte de Da Vinci. Vasari, um ardente e notório admirador do ícone renascentista, não teria tido coragem de pintar suas obras por cima das de seu mestre: conforme Seracini, foi criada uma parede falsa, centímetros à frente da original, de forma que a nova pintura não apagasse a antiga.
O mistério segue, porém, e não deve ser desfeito tão cedo. Embora tenha obtido evidências empolgantes (como partículas de tinta semelhantes às de obras sabidamente pintadas por Da Vinci), a abordagem de Seracini foi muito criticada, por colocar em risco a integridade dos afrescos de Vasari, e a investigação está interrompida desde 2012, sem previsão de retomada. Uma situação que, ao seu modo, espelha a relação do mundo com Leonardo da Vinci, falecido no dia 2 de maio de 1519. Afinal, tratam-se mesmo de uma vida e uma obra envoltas em várias dúvidas, inúmeros assombros e empolgantes redescobertas.
Para começar, a própria figura de Da Vinci é pouco nítida, esfumaçada como os ambientes de algumas de suas obras mais exaltadas. Sabe-se muito sobre seu trabalho, sua imaginação sem limites e a cronologia de suas realizações. Mas datas quase nada revelam sobre as pessoas, e o próprio artista pouco deixou registrado de sua vida pessoal, de modo que historiadores precisam juntar os pedaços de inúmeras fontes externas para construir um retrato, mesmo que incompleto.
Além disso, não deixa de ser curioso - embora compreensível, dadas as circunstâncias - que um criador tão celebrado quanto Leonardo da Vinci tenha um número relativamente pequeno de obras preservadas. Se excluirmos da conta os cadernos de notas do mestre, restam, hoje, menos de uma dezena de pinturas ou desenhos cuja autoria esteja acima de dúvida; as demais (mesmo obras-primas lendárias e amplamente reconhecidas pelos críticos, como São João Batista e Dama com Arminho) podem, teoricamente, incluir contribuições, contemporâneas ou posteriores, de outros artistas. Algumas imagens outrora festejadas existem, hoje, apenas em reproduções de aprendizes, descrições de pessoas que viveram à época ou em anotações do próprio Da Vinci - como é o caso da citada Batalha de Anghiari, que pode ou não estar em uma parede atrás de outra parede em Florença.
O que restou, de qualquer modo, é objeto de um dos mais sólidos consensos em torno de uma figura histórica de que se tenha notícia. Não há virtualmente ninguém, no passado ou na atualidade, que questione a genialidade de Da Vinci, e sua imensa fama em vida o deixa bem longe do estereótipo do artista amargurado e ignorado por seus pares. Seus cadernos (de onde saíram O Homem Vitruviano e o famoso autorretrato do pintor) trazem um ser humano extremamente curioso e perspicaz, capaz de pensar de forma profunda sobre os mais diferentes aspectos do conhecimento; não é à toa que ganhou de historiadores a alcunha de "gênio universal" e virou símbolo do arejar de ideias que marcou o Renascimento. Paradoxalmente, os registros apontam, também, um grande procrastinador, que deixou inúmeras obras pela metade e contava com o esforço de aprendizes para concluir outras tantas.
Pintada em uma parede fina e exposta a umidade, a Santa Ceia começou a se esfarelar poucos anos depois de concluída; embora pouco da pintura original reste na prática, é uma das imagens mais icônicas da arte ocidental. Sinônimo de Leonardo da Vinci, a Mona Lisa também esteve ameaçada: foi roubada do Louvre em 1911 e só recuperada dois anos depois, além de sofrer ataques que vão de jatos de tinta a pedras e até navalhadas. Salvator Mundi, redescoberta no começo deste século e vendida por US$ 450 milhões em um leilão de 2017, também traz suas controvérsias. Especialistas criticam o processo de restauração, que teria sido feito para deixar a pintura "mais parecida" com um típico Da Vinci, e dizem que pode tratar-se da obra de um aprendiz, cuja importância foi inflada por pessoas interessadas em lucro.
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