Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quinta-feira, 02 de abril de 2020.
Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil.

Jornal do Comércio

Porto Alegre, quinta-feira, 02 de abril de 2020.

Panorama

CORRIGIR

Música

Edição impressa de 02/04/2020. Alterada em 02/04 às 08h46min

Unindo tradição e brasilidade, gaúcha Jamile ganha terreno na cena jazz dos EUA

Cantora, que lançou o disco 'If you could see me now', já se apresentou com grandes nomes do estilo

Cantora, que lançou o disco 'If you could see me now', já se apresentou com grandes nomes do estilo


JAMES TREADWELL/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Se cada álbum é uma fotografia do momento do artista, If you could see me now, CD de estreia da cantora Jamile Staevie Ayres, é uma seta que aponta para cima. A voz da cantora gaúcha, que mora nos Estados Unidos desde 2017, vem conquistando destaque na cena jazzística local, tocando com nomes emblemáticos do estilo e fazendo show de lançamento no lendário clube Birdland, de Nova York. Em seu primeiro disco independente, Jamile transita com confiança entre suas origens brasileiras e a típica sonoridade do jazz made in USA, em um trabalho que cristaliza um instante de uma jornada que, ao que parece, vai bem longe.
Se cada álbum é uma fotografia do momento do artista, If you could see me now, CD de estreia da cantora Jamile Staevie Ayres, é uma seta que aponta para cima. A voz da cantora gaúcha, que mora nos Estados Unidos desde 2017, vem conquistando destaque na cena jazzística local, tocando com nomes emblemáticos do estilo e fazendo show de lançamento no lendário clube Birdland, de Nova York. Em seu primeiro disco independente, Jamile transita com confiança entre suas origens brasileiras e a típica sonoridade do jazz made in USA, em um trabalho que cristaliza um instante de uma jornada que, ao que parece, vai bem longe.
"A gente leva nossas experiências e vivências para onde quer que vá, e elas vão se acumulando na gente e refletem no que a gente faz. (Nesse primeiro disco) eu quis colocar quem eu sou, esse momento da minha vida, e vislumbrar o que eu quero ser mais adiante, no meu futuro. Na verdade, quem eu era naquele momento, não é? Porque, na verdade, já mudou, já sou outra pessoa", reflete.
O envolvimento de Jamile com a música começou muito cedo. Natural de Cachoeira do Sul, ela cantava na escola desde os quatro anos, e chegou a tocar em bandas amadoras de rock antes de descobrir sua paixão definitiva. Foi na voz inigualável de Aretha Franklin que Jamile encontrou a trilha para o jazz. "Eu tentava imitar o que ela cantava e comecei a aprender algumas técnicas. Uma coisa empírica mesmo, de ouvido. Eu gostava de soul e gospel, mas a Aretha teve toda uma fase de cantar jazz. Ouvi umas músicas diferentes e fiquei: 'o que é isso? Standard jazz?'. A partir daí, fui indo pro lado do jazz e nunca mais voltei", conta, rindo.
Depois de cursar a faculdade de Música na Ufrgs, Jamile rumou para os Estados Unidos em 2017, para fazer mestrado em Jazz na City College de Nova York. Foi ao final do curso que decidiu mergulhar de cabeça no desafio de fazer seu primeiro CD. "Na verdade, nem estou cantando jazz há tanto tempo assim. Estou correndo atrás, estudando e me esforçando para fazer uma coisa legítima", diz.
Se encara o seu próprio momento artístico com humildade, Jamile demonstra em If you could see me now uma confiança de quem não pede licença. Com uma banda irrepreensível, a voz ao mesmo tempo firme e cheia de nuances da cantora sente-se claramente à vontade para brilhar. Em meio às sonoridades típicas do formato norte-americano do jazz, há espaço para toques de brasilidade - não apenas nas faixas Luiza (de Tom Jobim e um dueto com o pianista Ray Gallon) e O pato, mas também em Jobim, escrita pelo produtor e pianista Antonio Ciacca em homenagem ao lendário compositor brasileiro.
A produção do disco foi bem rápida: as gravações começaram em julho do ano passado, e em novembro o CD já estava sendo distribuído, a tempo para o show de lançamento. "Foi tudo muito, muito rápido. Eu não recomendo (produzir um álbum assim)", acentua ela, dando uma risada.
Um dos principais destaques do álbum é Nobody else but you, na qual Jamile divide atenções com o experiente baixista Jay Leonhardt. "Ele é uma lenda viva, um poço de experiência. Tudo que ele toca é uma fundação, uma base perfeita, e fico muito à vontade para flutuar acima dela", afirma. Mas talvez o principal momento de brilho em If you could see me now esteja no groove dançante de In the land of oo-bla-dee, que conta com participação do saxofonista Steve Wilson. "É uma música escrita por uma mulher maravilhosa (Mary Lou Williams), com uma melodia incrível e uma letra sensacional. É uma das músicas que descobri na época da gravação e pensava: 'eu preciso cantar essa'", relembra, deixando claro o entusiasmo.
A trajetória ascendente de Jamile acaba sofrendo uma espécie de pausa, na medida em que o mundo inteiro prende a respiração diante do novo coronavírus. Vale lembrar que Nova York, cidade onde ela reside, é a mais afetada pela Covid-19 nos Estados Unidos. "Eu estava numa fase ótima, com muitas apresentações na cidade e muitos planos de tocar em outros países. Agora, eu não sei. Não tem sido fácil, mas há uma lição aí", diz, esperançosa.
E talvez esse aprendizado diga respeito ao papel da arte, em especial da música, na hora de trazer riqueza de espírito para os que se isolam diante da pandemia. "Mesmo em casa, os artistas continuam fazendo entretenimento para as pessoas, muitas vezes de graça. Porque não é só um trabalho, é uma missão. Eu vejo a música como algo que cura, e a gente sempre teve esse papel."
CORRIGIR