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música

25/03/2020 - 21h42min. Alterada em 31/03 às 14h37min

Dudu Sperb canta para o público na internet para diminuir tristeza da pandemia

Dudu Sperb canta e toca nas redes sociais para aliviar desalento do isolamento social

Dudu Sperb canta e toca nas redes sociais para aliviar desalento do isolamento social


ANDRÉA AVILA/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Atuante nas redes sociais, o cantor porto-alegrense Dudu Sperb utiliza a internet para se aproximar dos seus pares que gostam de música. Confinado em casa, respeitando as orientações das autoridades para evitar ainda mais a disseminação da pandemia do novo coronavírus, ele afirma: "O que nos salva um pouco é estar online e poder trocar com o povo. Tem um monte de gente curtindo, é o que posso fazer para ajudar a aliviar a quarentena das pessoas".
Atuante nas redes sociais, o cantor porto-alegrense Dudu Sperb utiliza a internet para se aproximar dos seus pares que gostam de música. Confinado em casa, respeitando as orientações das autoridades para evitar ainda mais a disseminação da pandemia do novo coronavírus, ele afirma: "O que nos salva um pouco é estar online e poder trocar com o povo. Tem um monte de gente curtindo, é o que posso fazer para ajudar a aliviar a quarentena das pessoas".
Sperb atua como intérprete desde 1988. Nesse período, trabalhou com músicos importantes do cenário musical do Estado, como Cau Karam, Toneco da Costa, Fernando do Ó, Luiz Mauro Filho, Vagner Cunha, Michel Dorfman e Nico Bueno, entre outros, e montou vários shows. Entre eles, Choro bandido, com canções de Chico Buarque; Arrabalero, apresentando tangos e comentando influências da música gaúcha; Coração Sol, cantando a obra de Caetano Veloso; Elis, doce pimenta, uma homenagem à grande Pimentinha, e So in Love, no qual interpreta canções de Cole Porter. Em 2019, lançou o disco Navegante - Dudu Sperb recebe Guinga, seu quinto álbum.
Nesta entrevista, ele conta como intensificou o uso da tecnologia para se aproximar virtualmente do seu público e comenta os desafios deste momento para todos.
JC - Como os artistas fazem para se manter ativos durante esse isolamento social? 
Dudu Sperb - No período de confinamento pelo qual passamos, o espaço e o tempo ficam alterados. O mundo "parou", algo quase sem precedentes para nós. Nesse cenário, as pessoas que estão em quarentena têm mais condições de refletir sobre inúmeras coisas que são prementes — sobre si mesmas, sobre o mundo, sobre modos de viver, sobre como e por que chegamos até aqui deste jeito etc. Elas têm também mais tempo para tentar relaxar e idealizar, projetar, fantasiar, fruir. Através da internet, podemos manter contato e convívio no mundo virtual, então isso de poder estar online e trocar com o povo, de uma certa forma, nos salva um pouco social, psicológica e emocionalmente.
JC - Interagir com o público - mesmo que virtualmente, através da tecnologia - é essencial a todo artista?
Sperb - Uma das formas de troca é a arte. No meu caso, que trabalho com música, a rede torna possível se manter ainda uma conexão com parte do público. Evidentemente que, nesse contexto de reclusão, tive que cancelar shows e não marcar novos compromissos, o que normalmente seria habitual. Porém, eu não só não queria parar completamente, nem me desconectar das pessoas que curtem o meu som, como também desejava cooperar de alguma forma, ajudando-as a passar o tempo e a aliviar seu desalento pela situação aflitiva.
Assim se abriu para mim, naturalmente, uma outra perspectiva, óbvia e, em certa medida, eficaz: gravar em casa, no celular, vídeos cantando e tocando violão e postá-los nas redes sociais. Isso se mostrou de cara muito fecundo e interessante. Nessa correspondência com as pessoas, que, por sinal, começaram a curtir e se sentir gratas por isso e por terem "mais alguma coisa acontecendo no seu dia", várias delas passaram a me fazer pedidos, intensificando essa troca de prazer e desafios.
JC - Então, foste desafiado artisticamente, também?
Sperb - Passei a ir atrás de canções que costumava tocar, fui ouvir certas coisas de novo, pesquisar um pouco. Dessa forma, pude continuar praticando a música, inclusive deste outro modo, que, desde muito, é pouco habitual para mim: a performance solo. Ou seja, mantenho, mesmo que diferentemente do que estava planejado, uma ligação com o público e com a minha produção musical — e posso usar isso para ajudar um pouco a diminuir a tristeza que o retiro forçado pode causar nas gentes.
JC - Sentiste dificuldades? Agora mesmo, neste sábado (28), tinhas um show agendado dentro da programação de aniversário do Parangolé, em Porto Alegre. 
Sperb - Sobre a ausência de shows ao vivo, com ingresso pago, é preciso, antes de mais nada, dizer que a vida de músico já é complicada em termos financeiros quando tudo está "dentro da normalidade". Numa situação como a de agora, isso só fica ainda mais precário. Sei que alguns amigos músicos, que são também professores, estão conseguindo dar algumas aulas online. Diminuíram o fluxo de trabalho, mas pelo menos ainda têm algum retorno. Mas, para a maioria, que vive mais de shows e outros tipos de trabalhos presenciais, a coisa está mais difícil.
JC - Qual é a tua perspectiva do retorno da carreira? Tens algum planejamento?
Sperb - Eu, além de cantor, sou funcionário público e só pude me dedicar à música porque tinha uma situação financeira mais estável. Sem essa garantia, pela experiência da minha trajetória, não poderia ter me lançado numa "carreira" artística — pelo menos não aqui, no Rio Grande do Sul.
Essa é uma dura e triste realidade de um País que tem uma das mais ricas culturas musicais do planeta, adorada por gente do mundo todo. Os governantes ainda não acordaram para esse nosso imenso potencial (inclusive econômico). Cancelei show e não tenho perspectivas de retorno a essa atividade; por ora, ninguém tem.
A hora é de união, é de tentar barrar o vírus, de fazer como pudermos a nossa parte. Junto aos concertos, eu estava num processo de gravar minhas composições, algo que venho há muito querendo fazer, e que comecei no final do ano passado. Cheguei a registrar três canções. Assim que for possível, retomarei esse projeto. 
JC - O que estás lendo, assistindo, ouvindo e produzindo durante a quarentena? O que indica para nossos leitores?
Sperb - Em relação a dicas culturais, preciso dizer que eu sou um leitor muito inconstante. Mas li e recomendo demais o livro Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak, líder indígena, pensador, ambientalista e escritor brasileiro. É um livrinho pequeno, mas seu tamanho é inversamente proporcional a sua importância, sua força e às verdades que ele revela.
Há pouco, li um outro livro lindo, também pequeno, que indico. Chama-se A vida pela frente, de Émile Ajar, pseudônimo de Romain Gary, autor francês, nascido na Lituânia. É uma história tocante, muito bela e bem escrita, por vezes mesmo com humor, narrada por um garoto muçulmano criado em Paris por uma senhora judia, sobrevivente de Auschwitz.
O livro que estou lendo atualmente é a biografia da grande ensaísta e intelectual norte-americana Susan Sontag (Sontag- Vida e obra), escrita por Benjamin Moser, autor da também surpreendente biografia de Clarice Lispector.
Não tenho assistido a filmes ou séries, e tenho escutado pouca música nova. A música que tenho experienciado é mais a minha própria. Mas a última descoberta, que me encantou e impressionou muito, foi a cantora de jazz norte-americana Cécile McLorin Salvant. Vale muito a pena conhecer sua obra.
JC - Tens um reconhecido posicionamento político nas redes sociais. Recentemente, cantaste e tocaste Apesar de você, de Chico Buarque, em um vídeo junto a um dos panelaços contra o presidente. É momento do artista se manifestar? Qual tua opinião?
Sperb - O sonho, a reflexão e a troca têm sido, desde sempre, parte fundamental da condição e do sentido da arte e, por consequência, do trabalho dos artistas. Agora, mais do que nunca, é preciso refletir. Refletir é pensar, é representar, é expressar, é reverberar. Também é preciso trocar, tanto no sentido de permuta, de reciprocidade, de mútua transferência, como de transformação.
E é absolutamente necessário sonhar; sonhar com aquilo a que almejamos é seguir de alguma forma no rumo de sua concretização. Às vezes alguém pergunta: a arte pode nos salvar? Eu diria que a arte não só é uma das nossas salvações, é também uma condição humana. Desde os primórdios, ela faz parte da vida humana; começamos a nos comunicar através dela, há milhares de anos, nas primeiras formas de escrita, nos primeiros registros, que foram as pinturas rupestres. E mesmo a música participou desses primórdios da troca entre as pessoas, como comprovam as flautas de osso que também datam dessa era arcaica da humanidade.
Sem sonho, troca e reflexão não somos nada, não temos sentido como vida pensante e sensível. Não conseguiríamos nem ao menos evoluir cientificamente. Einstein teria dito: "A imaginação é mais importante do que o conhecimento". Porque o precede. Foi preciso primeiro imaginar, ter o desejo, sonhar que o ser humano pudesse voar para, em seguida, e só assim, trocar com outros esse sonho e as descobertas feitas a partir das reflexões que ele suscitou para que se pudesse chegar ao avião.
Essa cadeia de sonhos, pensamentos, ações e encontros resultou, finalmente, em algo que, não por acaso, chamamos de "invenção". Não seremos nada sem inventar, imaginar, simbolizar, significar, manifestar, reflexionar, interpretar e trocar. Disso faz parte o instinto mais primitivo, o de se fazer entender, inclusive para poder sobreviver. Tudo o que foi "inventado" trilhou de certa forma esse caminho da arte humana. E o artista é isso, um inventor e um agente de revelações.
JC – Concretamente, como expressar, representar essas “revelações”? Como auxiliar na reflexão?
Sperb - Atualmente precisamos de muitas manifestações (e não apenas dos artistas) por conta da dura vida no Brasil e no mundo. O que não quer dizer que a nossa expressão artística deva ser sempre política no sentido de ser crítica a um governo — ou “engajada”, como se diz. Neste momento em que, por conta do coronavírus, enfrentamos outra grande crise, e em que eu canto para as pessoas pela web (Facebbok e Instagram), além de todos os possíveis significados, de toda a riqueza que possam conter as canções e que a minha performance possa ajudar a revelar (inclusive as possivelmente "políticas"), quero, junto com isso, levar conforto, alegria e beleza.
Mas creio que, mais do que a enorme adversidade trazida por esta doença que enfrentamos agora, esse episódio tem o poder de nos apontar o quão frágil e equivocada é a organização humana na Terra. O quanto o capitalismo é um sistema já morto, inadequado, que não deu certo e precisa ser superado, pois ele faz vítimas incessantemente. O quanto precisamos mudar o mundo — urgentemente.
Esse momento nos mostra quão fugazes e vulneráveis nós somos e que só podemos sobreviver se estivermos em sintonia, juntos, cuidando de toda a natureza, de todas as pessoas e animais. As absurdas concentrações de riqueza de uma ínfima minoria, ladeada pela miséria que assola a maior parte da humanidade, não é mais possível — adoecemos.
Outros vírus, ou pragas, ou meteoros virão, cedo ou tarde. Outras ameaças. E o que de fato se abre agora é uma possibilidade de revermos e planejarmos a humanidade que queremos ser. Nesse sentido, a arte tem o poder de nos salvar também quando consegue atingir o cerne do pensamento e dos sentimentos das pessoas, desestabilizando suas convicções, muitas vezes baseadas apenas em preconceitos ou lugares comuns, fazendo-as rever suas crenças, seus modos de ver, sentir e viver o mundo. Acolher o outro, a ideia do outro e suas diferenças é o que acontece quando fruímos uma obra de arte, quando respeitamos toda forma de vida e construímos universos mais equilibrados e justos.