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literatura

Notícia da edição impressa de 26/03/2020. Alterada em 26/03 às 09h11min

Em tempos de coronavírus, escritora Marô Barbieri indica leitura de Italo Calvino

Patrona da última Feira do Livro sugere um mergulho na literatura delicada e filosófica do italiano

Patrona da última Feira do Livro sugere um mergulho na literatura delicada e filosófica do italiano


LUIZA PRADO/JC
Igor Natusch
Uma cidade cujos moradores se recusam a tocar o solo. Para não fazê-lo (ou, ao menos, para fazê-lo apenas quando estritamente necessário), ergueram seus edifícios sobre longos e finos pilares, de forma que o solo abaixo deles segue praticamente inviolado. Os viajantes, intrigados diante dos motivos para tão inusitado engenho, se veem confrontados com três hipóteses:
Uma cidade cujos moradores se recusam a tocar o solo. Para não fazê-lo (ou, ao menos, para fazê-lo apenas quando estritamente necessário), ergueram seus edifícios sobre longos e finos pilares, de forma que o solo abaixo deles segue praticamente inviolado. Os viajantes, intrigados diante dos motivos para tão inusitado engenho, se veem confrontados com três hipóteses:
"Que odeiam a terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contato; que a amam da forma que era antes de existirem e, com binóculos e telescópios apontados para baixo, não se cansam de examiná-la, folha por folha, pedra por pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a própria ausência."
Imaginar um lugar onde as pessoas vivem sem colocar os pés no mundo lá fora não deixa de ser provocador, em tempos nos quais precisamos ficar em casa para interromper a propagação do novo coronavírus. E a escritora Marô Barbieri, patrona da mais recente edição da Feira do Livro de Porto Alegre, resolveu sugerir aos leitores e leitoras do Jornal do Comércio um mergulho na obra de Italo Calvino, considerado um dos principais nomes da literatura do século XX.
O fictício povoado de Bauci é apenas um dos vários que surgem nas páginas de As cidades invisíveis (1972), um dos mais elogiados livros do italiano. Nele, o escritor imagina um diálogo entre Marco Polo e Kublai Khan, no qual são mencionadas inúmeras cidades visitadas pelo primeiro - cada uma delas um espelho (ou metáfora) para diferentes aspectos da existência e da subjetividade de cada um de nós.
"(Calvino) imagina cidades cujas características nos levam a refletir um pouco sobre a condição humana e o modo como as pessoas se expressam dentro da sociedade", explica ela, sem esconder a admiração. "São situações insólitas e, ao mesmo tempo, nessa simplicidade de linguagem do Calvino, a gente encontra uma profundidade de pensamento que também estimula o nosso próprio pensar".
Além da viagem pelas cidades de Calvino, Marô sugere outras três obras que, em sua visão, são fundamentais para absorver a linguagem simples e, ao mesmo tempo, profundamente poética do italiano: O barão nas árvores (1957), Marcovaldo ou as estações na cidade (1963) e Os amores difíceis (1970). E deixa claro que, passando boa parte dos dias entre paredes, estimular nossa imaginação com as delicadas e filosóficas narrativas de Calvino é um bom modo de projetar nossa mente para além da angústia dos dias.
"Os escritores têm muita coisa a nos dizer, e nos dizem das mais diferentes formas. Os estilos, estruturas, modos de narrar são muito diferentes de um autor para outro - e quem trabalha especificamente com isso, quem escreve também, sempre encontra exemplos nos quais gostaria de se espelhar", acentua Marô. "Aliás, ninguém é um bom escritor se não for um bom leitor. É preciso saber o que foi feito antes da gente para compreender que vamos entrar em um universo que não é novo, mas que já foi explorado tantas vezes."