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Cinema

22/03/2020 - 20h11min. Alterada em 22/03 às 20h11min

Os muitos cinemas de Akira Kurosawa

Autor de obras seminais como Trono manchado de Sangue, diretor completa 110 anos de nascimento

Autor de obras seminais como Trono manchado de Sangue, diretor completa 110 anos de nascimento


SALA REDENÇÃO/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Em 1923, boa parte do Japão foi atingida por um devastador terremoto. Com epicentro na região de Kanto, o abalo provocou grande destruição na capital Tóquio. E teve efeitos duradouros na personalidade de Akira Kurosawa, então um menino de 13 anos. Seu irmão mais velho, Heibo, levou o jovem para uma área elevada da cidade, onde era possível ter uma visão ampla da destruição. Diante dos edifícios destruídos e corpos espalhados pelo chão, Akira quis desviar o olhar, mas Heibo o impediu: segundo ele, o irmão mais novo precisava ser mais forte que o medo, encarando-o de frente.
Em 1923, boa parte do Japão foi atingida por um devastador terremoto. Com epicentro na região de Kanto, o abalo provocou grande destruição na capital Tóquio. E teve efeitos duradouros na personalidade de Akira Kurosawa, então um menino de 13 anos. Seu irmão mais velho, Heibo, levou o jovem para uma área elevada da cidade, onde era possível ter uma visão ampla da destruição. Diante dos edifícios destruídos e corpos espalhados pelo chão, Akira quis desviar o olhar, mas Heibo o impediu: segundo ele, o irmão mais novo precisava ser mais forte que o medo, encarando-o de frente.
A história, contada por Akira Kurosawa em seu livro de memórias, tem muito a ver com a abordagem que o futuro cineasta adotaria em sua obra. Nascido há exatos 110 anos, no dia 23 de março de 1910, o gênio japonês desenvolveu uma obra dinâmica e ousada, na qual os acontecimentos trágicos – causados ou não pela ação do homem – são uma constante que define personalidades, sociedades e trajetórias de vida. Algo que não afasta (na verdade, aproxima) da tela a grandeza humana, o conteúdo existencial e a poesia.
O contato de Kurosawa com a arte foi encorajado desde a infância: seu pai, instrutor de educação física, era uma pessoa aberta à cultura ocidental, encorajando os filhos a assistirem filmes e peças teatrais. A primeira inclinação do jovem Akira foi a pintura, mas logo seu entusiasmo passou para outro tipo de tela: em 1935, começou a atuar como assistente de direção para os estúdios Toho, acumulando depois a função de roteirista. Sua estreia na direção foi em 1943, com Sanshiro sugata – lançado em DVD no Brasil em 2013 com o nome A saga do judô.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os filmes de Kurosawa foram perdendo o tom propagandístico inicial, imposto pelo regime japonês, e ganhando uma personalidade cada vez mais singular. É possível dizer que O anjo embriagado (1948) é a sua primeira grande obra, e a primeira a definir elementos que seriam centrais em sua filmografia, como o personagem que enfrenta as circunstâncias em nome de gestos de grandeza – no caso, o doutor que enfrenta a Yakuza para curar pacientes com tuberculose. A película marca também o começo da longa e produtiva parceria com o ator Toshiro Mifune, que participaria de 17 filmes de Kurosawa.
Mas foi a partir de Rashomon (1950) que Kurosawa virou uma figura de renome internacional. O filme, no estilo jidaigeki (espécie de drama de ação baseado na vida dos samurais), traz um enredo cheio de visões subjetivas e contraditórias sobre um mesmo incidente trágico, e não chegou a ser um grande sucesso comercial em seu país de origem. No exterior, porém, a obra foi aclamada: ganhou o Leão de Ouro no festival de Veneza de 1951 e um prêmio honorário no Oscar do ano seguinte.
A influência de Kurosawa vai muito além desta primeira obra seminal. Os sete samurais (1954) é outro clássico do cinema mundial, escolhido como o melhor filme em língua não inglesa da história em uma lista da BBC em 2018. O filme gerou uma adaptação hollywoodiana já em 1960, Sete homens e um destino, faroeste com Steve McQuenn. Até a mesmo a Pixar, em 1998, usou o longa do diretor japonês como inspiração para a animação Vida de inseto.
O Japão antigo foi cenário de vários filmes seminais de Kurosawa, como Kagemusha (1980), Trono manchado de sangue (1957) e Ran (1985) – os dois últimos, aliás, fazem referência direta a Shakespeare, com enredos inspirados em Hamlet e Rei Lear, respectivamente. Conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Dersu Uzala (1975), e desafiou o próprio formato cinematográfico com Sonhos (1990), dividido em histórias curtas e com fortes elementos de realismo fantástico.
A saúde de Akira Kurosawa deteriorou-se a partir de 1995, quando fraturou a base da espinha em uma queda. Desde então, ele passou a usar uma cadeira de rodas, o que o impediu de dirigir filmes nos últimos anos de vida. O realizador japonês, que criou obras inesquecíveis e colocou seu país no cenário internacional do cinema, faleceu em 6 de setembro de 1998, após sofrer um ataque cardíaco na cama em que passou confinado durante os últimos meses de vida.
Colaborou Frederico Engel

Dez filmes fundamentais do diretor japonês

Rashomon (1950) - No Japão feudal, quatro testemunhas narram, de formas distintas, um crime trágico envolvendo um samurai.

Ikiru (1952) - Um dos filmes mais humanos de Kurosawa, sobre um burocrata que descobre um câncer no estômago. 

Os sete samurais (1954) - Um vilarejo acossado por bandidos contrata sete ronins (samurais sem mestre) para enfrentar a ameaça. 

Trono manchado de sangue (1957) - Um guerreiro assassina seu rei e se vê mergulhado em uma sangrenta luta pelo trono.

Yojimbo (1961) - Em um vilarejo onde a vida pouco vale, dois reis do crime tentam garantir os serviços de um recém-chegado ronin.

Céu e inferno (1963) - Um empresário tem o filho raptado e precisa enfrentar os sequestradores, que pedem uma fortuna como resgate.

Dersu Uzala (1975) - No ambiente inóspito da Sibéria, um explorador russo e um caçador ermitão desenvolvem uma profunda amizade.

Kagemusha - A sombra do samurai (1980) - Um criminoso sem fama assume como sósia de um senhor feudal e se torna um poderoso líder.

Ran - Os senhores da guerra (1985) - Um velho senhor da guerra decide abdicar em favor de seus três filhos, o que gera uma sangrenta disputa familiar.

Sonhos (1990) - Baseados em sonhos do próprio Kurosawa, oito segmentos abordam temas como maturidade, morte e espiritualidade.