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Teatro

Notícia da edição impressa de 10/03/2020. Alterada em 09/03 às 19h20min

Cássia Kis leva a poesia de Manoel de Barros para os palcos

'Meu quintal é maior do que o mundo' estará em cartaz neste final de semana no Theatro São Pedro

'Meu quintal é maior do que o mundo' estará em cartaz neste final de semana no Theatro São Pedro


GAL OPIDO/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
"Eu sabia que estava fazendo uma escolha mais difícil do que Shakespeare." Uma frase forte, em especial vinda de alguém com a história e trajetória de Cássia Kis. Longe de ser um simples exagero, a fala demonstra o profundo e afetuoso respeito que a atriz nutre pelo poeta Manoel de Barros, cujas palavras são a alma de Meu quintal é maior do que o mundo. Uma peça que levou décadas para se concretizar e que dá nova dimensão aos versos de um poeta que nunca deixou de carregar uma criança dentro de si.
"Eu sabia que estava fazendo uma escolha mais difícil do que Shakespeare." Uma frase forte, em especial vinda de alguém com a história e trajetória de Cássia Kis. Longe de ser um simples exagero, a fala demonstra o profundo e afetuoso respeito que a atriz nutre pelo poeta Manoel de Barros, cujas palavras são a alma de Meu quintal é maior do que o mundo. Uma peça que levou décadas para se concretizar e que dá nova dimensão aos versos de um poeta que nunca deixou de carregar uma criança dentro de si.
A direção é de Ulysses Cruz, que dividiu com Cássia a criação do texto para o espetáculo. A peça estará no Theatro São Pedro (Praça Mal. Deodoro, s/nº) na sexta-feira (13) e no sábado (14), às 21h. Ingressos, a partir de R$ 50,00 e com opções de meia-entrada, podem ser adquiridos no site e na bilheteria do teatro.
A dificuldade mencionada pela artista tem mais de um motivo. Amplamente considerado um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Manoel de Barros foi também um amigo de muitos anos da atriz, que conheceu o autor e sua obra no começo dos anos 1990. Desde então, estabeleceu uma intensa correspondência com o escritor mato-grossense, sempre cultivando a ideia de fazer uma peça a partir de sua poesia. Uma meta que demorou a alçar voo, contida pelas dificuldades de agenda da atriz e das pessoas com quem desejava contar no projeto, e que só a partir de 2018 começou a caminhar para a realidade.
O texto de Meu quintal é maior do que o mundo une 18 poemas em prosa, retirados do livro Memórias inventadas. O cenário imita um quintal, evocando a singeleza de grande parte da obra do poeta. Cássia Kis interpreta quatro personagens nos 70 minutos de encenação: um menino de cinco anos, um jovem de 15, um homem na casa dos 40 e um idoso de 85 anos. A trilha sonora é executada ao vivo pelo músico Gilberto Rodrigues, e a iluminação de Nicolas Caratori é outro importante elemento para criar o envolvimento entre palco e plateia.
A reação dos presentes, diz Cássia, reflete o sentimento que surge das palavras ditas em cena. "O público percebe de cara que precisa ficar atento, que não é um jeito de dizer as coisas com o qual esteja acostumado. É difícil você escutar gente tossindo, fazendo barulho. O exercício da atenção é aguçado, e ninguém precisa dizer nada", garante.
Ao final da encenação, a atriz retorna ao palco para uma breve conversa com a plateia, o que aumenta o envolvimento dos presentes com o que acabaram de ver e sentir. "O número de pessoas que volta para assistir é muito grande. Alguns vieram nos dizer que assistiram cinco ou seis vezes. O público quer se envolver mais, quer sentir mais", admira-se.
A postura de Cássia mistura esse carinho pelo poeta com a absoluta seriedade diante do desafio de trazê-lo ao palco. Qualquer improvisação, por exemplo, é rechaçada de forma veemente por ela. "A música (da peça), se quiser, pode improvisar. A luz pode improvisar. Eu não posso. A poesia do Manoel de Barros é ouro puro, como é que eu vou mexer naquilo? Não tenho coragem, ninguém tem coragem de fazer uma coisa dessas", frisa.
Uma quase severidade que desaparece ao falar sobre sua relação com o poeta, que lançou dezenas de livros e faleceu em 2014, aos 97 anos. "Foi um grande amigo, um homem que eu amei muito. A filha dele (Martha Barros) também é como se fosse uma irmã. Quando fui à casa dela dizendo que queria trabalhar na obra de seu pai, que desta vez era para valer e tudo o mais, ela me disse: 'você é a única pessoa a quem dou autorização para isso'", diz, ainda tocada ao lembrar da conversa.
Uma responsabilidade enorme. Ou não - ao menos para a própria artista, que prefere não fazer uso dessa palavra. "Eu não vejo assim", garante, pensativa. "Eu sinto que... Que bom que eu conheci o Manoel, que bom que o mundo me fez chegar na frente dele, e ele na minha frente, que bom que eu pude absorver a obra dele tão de perto. Mergulhar na vida de um autor a partir de sua obra é algo tão fascinante!"
Um mergulho que é, de várias formas, inerente ao teatro - e que tem um sabor de retorno para Cássia Kis, que não subia aos palcos desde O zoológico de vidro (2009). Retornar e, ao mesmo tempo, realizar um antigo sonho dá a Meu quintal é maior do que o mundo um sabor especial, admite a atriz: "O (ator) Antônio Fagundes, que é como se fosse meu irmão, diz o seguinte: o teatro é a pátria do ator. E tenho um outro amigo, que é o Ulysses Cruz, que diz que o teatro é a mãe do autor. Eu concordo com os dois, e me sinto em meio a isso tudo: no reencontro com a minha pátria, no reencontro com a minha mãe".