Porto Alegre, terça-feira, 18 de fevereiro de 2020.

Jornal do Comércio

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Cinema

Notícia da edição impressa de 13/02/2020. Alterada em 12/02 às 23h30min

Baseado em fatos reais, 'O preço da verdade - Dark waters' entra em cartaz

Mark Rufallo interpreta advogado que move um processo contra empresa responsável por poluir um rio

Mark Rufallo interpreta advogado que move um processo contra empresa responsável por poluir um rio


/PARIS FILMES/DIVULGAÇÃO/JC
Frederico Engel
O preço da verdade - Dark waters é uma das histórias mais fortes de 2019, que chega agora ao Brasil e que merecia ser retratada como uma produção audiovisual. O filme é protagonizado por Mark Ruffalo, contando com a direção de Todd Haynes.
O preço da verdade - Dark waters é uma das histórias mais fortes de 2019, que chega agora ao Brasil e que merecia ser retratada como uma produção audiovisual. O filme é protagonizado por Mark Ruffalo, contando com a direção de Todd Haynes.
Baseado no artigo O advogado que virou o pior pesadelo da DuPont (tradução livre de The lawyer who became DuPont's worst nightmare), de Nathaniel Rich e publicado pela revista do The New York Times, a história mostra o impacto que a empresa química DuPont causou em uma comunidade da Virgínia Ocidental com o despejo de produtos químicos em um rio, ameaçando a vida humana.
O longa é também produzido por Ruffalo, e talvez esse seja o principal motivo para ele protagonizar a obra como o advogado Robert Billot. É ótimo poder ver a força do ator em cena, algo que não é comum para alguém que é mais notabilizado pelos papéis coadjuvantes - que lhe renderam indicações ao Oscar pelas atuações em Minhas mães e meu pai (2011), Foxcatcher - Uma história que chocou o mundo (2015) e Spotlight - Segredos revelados (2016). Em O preço da verdade - Dark waters, Ruffalo internaliza muitos sentimentos e os expressa nas sutilezas do personagem, que dedica anos da vida e da carreira para encontrar a solução do caso, ficando comprometido mental e fisicamente.
A obra se constrói com elementos de um instigante thriller de denúncia, com aspecto sombrio e sem vida, também expressado e fortalecido pela escolha da música Country roads em certo momento do longa, além da coloração azulada, que passa uma percepção de que algo está morto. A trilha é outra técnica que potencializa tal ambientação, sendo utilizada de forma pontual e bem executada, ampliando a tensão e o drama.
A história é muito bem desenvolvida, mas tem um momento conflitante quando o advogado explica o caso para sua mulher; a montagem é bem realizada, mas a história fica muito expositiva nesse trecho em pouco espaço de tempo, tendo informações repetidas em um momento final da obra. O maior problema é quando Billot explica para personagens que já sabem sobre o que está falando do que se trata, algo de certa forma compreensível para a produção, que está apresentando ao público o tema, e pelo fato de o protagonista tentar passar a ideia de que tem conhecimento do caso para um dos culpados. O filme pode apresentar alguns temas complexos de serem compreendidos pelo público brasileiro, que não é tão familiarizado com a justiça norte-americana, mas isso é superado pela narrativa atrativa.
Quanto mais Billot entra no caso, mais sujeira vai se revelando. E é nesses momentos que a personagem de Anne Hathaway ganha importância, tendo três cenas muito fortes, fora outros momentos espalhados pelo filme, em que ela sai de seu papel de mãe e esposa, voltando a ser a advogada que era antes de se tornar dona de casa. Anne é um nome que poderia ter sido considerado para a temporada das premiações. Tanto ela quanto Tim Robbins têm falas marcantes, que só ressaltam a capacidade de atuação de ambos.
É interessante o destaque, em doses menores, do drama do fazendeiro Wilbur Tennant (Bill Camp), que se torna uma persona non grata em sua comunidade. O drama dele até poderia ser mais abordado, mostrando mais sobre o lado de sua família e como ela é afetada. Isso seria possível caso o longa tivesse mais tempo de tela do que as duas horas existentes, com uma história com potencial para uma minissérie. Outro problema a ser destacado é justamente sua duração, que acaba deixando a meia hora final mais acelerada do que a história pedia.
Trata-se de uma fórmula conhecida? Sim, mas O preço da verdade - Dark waters sabe fazer uso disso para envolver a audiência. Conta também com certas semelhanças estruturais ao filme britânico Segredos oficiais, um excelente longa lançado em 2019 no Brasil.
Esse é o tipo de história em que o cinema tem papel fundamental, por apresentar ao público uma situação verídica, que faz refletir até onde vai a ganância. Filmes que tratam da temática sobre obsessão são interessantes, mas, quando baseados em fatos reais, podem se tornar ainda mais assustadores.