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Porto Alegre, segunda-feira, 30 de dezembro de 2019.

Jornal do Comércio

Cultura

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literatura

Edição impressa de 30/12/2019. Alterada em 30/12 às 03h00min

Exílio é o tema de 'O romance da minha vida', do cubano Leonardo Padura

Escritor considera título, lançado originalmente em 2002, o principal de sua obra

Escritor considera título, lançado originalmente em 2002, o principal de sua obra


MARIANA CARLESSO/arquivo/JC
Há muitas razões para pensar que, para Leonardo Padura, escritor cubano de 64 anos, sua obra mais importante seja O homem que amava os cachorros (Boitempo, 2013). Afinal, com ela, ganhou projeção internacional, além de ter sido um desafio gigante executado com maestria.
Há muitas razões para pensar que, para Leonardo Padura, escritor cubano de 64 anos, sua obra mais importante seja O homem que amava os cachorros (Boitempo, 2013). Afinal, com ela, ganhou projeção internacional, além de ter sido um desafio gigante executado com maestria.
Mas, para o autor, seu principal livro não é esse, e sim O romance da minha vida (Boitempo, 328 págs., R$ 54,00), lançado originalmente em 2002, e, agora, editado em português - com tradução de Monica Stahel - pela mesma editora. "Era uma fase boa da minha vida, em que tinha acabado a série policial com o detetive Mario Conde e me sentia aberto para abraçar um projeto completamente diferente, e acabei escolhendo este, uma investigação livre, fictícia, da vida de José Maria Heredia", afirma.
A obra é sobre um autor, nascido em Cuba, que é considerado um dos primeiros poetas românticos da América e também um dos primeiros escritores de seu país a buscar o exílio, por razões políticas. Era membro da maçonaria, pró-independência, e sua produção era marcada pela bandeira da liberdade para a ilha e de um exultante entusiasmo patriótico. Com isso, teve de se mudar para o México, onde acabou morrendo muito jovem.
"Para mim, ele é uma espécie de Lord Byron cubano", conta Padura. Mas, para capturar sua essência, preferiu adotar um estilo ficcional. Nele, logo vão surgindo semelhanças entre o protagonista, o escritor buscado e o próprio autor, como se ali houvesse um jogo de espelhos.
A história começa com o retorno de um exilado, Fernando Terry, que tem como desafio encontrar uma obra perdida de Heredia. A busca pelo manuscrito o leva a conhecer seu pensamento durante os tempos da colônia, uma Cuba que Terry não conhecia. Enquanto isso, sua trajetória vai revelando paralelos, histórias em comum a tantos cubanos, ainda que por razões distintas: o exílio, a busca por um ideal artístico e patriótico, seu lugar no mundo como habitante de uma ilha.
"Creio que ele viveu sabendo que sua vida era como um romance, por isso o comparo a Lord Byron, por isso creio que é um dos nossos primeiros românticos, e tenho uma grande admiração", diz Padura. E acrescenta: "Creio que Heredia, por sua atuação na maçonaria, por ter se engajado na independência, pelo modo como desenvolve seus textos, talvez tenha sido o primeiro cubano a ter real consciência de que era cubano".
Para ele, Heredia também inaugura um destino comum a tantos escritores cubanos - dos quais Padura é uma exceção, pois jamais deixou o bairro em que nasceu e cresceu em Havana - que é o do exílio. "Ele inaugura o exílio político, outros o seguirão, até mais célebres, como José Martí, que virou o grande prócer da independência", comenta. "No século XX, vieram, então, outros tipos de exílio, dos que estavam contra ou simplesmente eram perseguidos pela Revolução aos que buscam vidas melhores. O exílio é uma constante na literatura cubana. Mas o interessante de mergulhar na vida de Heredia é que, naquela época, essa tradição não existia, ele abriu e trilhou sua própria vida, ou seu próprio romance, como ele gostava de dizer."
O romance da minha vida acabou rendendo frutos além das páginas do livro. Um fragmento da obra serviu de inspiração para o filme Regresso a Ítaca, dirigido pelo cineasta francês Laurent Cantet, com roteiro escrito a quatro mãos com Padura. O longa se passa em um terraço em Havana, num fim de tarde em que amigos se reúnem para comemorar o retorno de um deles, depois de um exílio. O encontro dura toda a noite, recheado de lembranças de cada personagem e de suas ilusões e desilusões.
O escritor cubano esteve em Porto Alegre em agosto para lançar o romance A transparência do tempo (Boitempo, 374 págs.), durante o projeto da Secretaria Municipal da Cultura Os livros de nossa vida, em parceria com o Instituto Cervantes. Dois anos antes, foi conferencista do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento.
Reconhecido internacionalmente, Padura destacou-se como jornalista investigativo e, depois, como ensaísta, roteirista e autor de novelas policiais. Pelo conjunto de sua obra, o autor recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias das Letras e o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba.
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