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Porto Alegre, quarta-feira, 06 de novembro de 2019.

Jornal do Comércio

Cultura

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Cinema

Edição impressa de 06/11/2019. Alterada em 06/11 às 03h00min

Buscando vaga no Oscar, 'A vida invisível' é sensível, profundo e impactante

Filme de Karim Aïnouz, que superou 'Bacurau' na disputa pela vaga, entra em cartaz no dia 21

Filme de Karim Aïnouz, que superou 'Bacurau' na disputa pela vaga, entra em cartaz no dia 21


BRUNO MACHADO/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
A escolha do representante brasileiro para disputar a categoria de melhor filme internacional no Oscar 2020 foi acirrada. Aclamado pela crítica e às vésperas de uma bem-sucedida trajetória nos cinemas, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, era considerado favorito, mas acabou superado por A vida invisível, de Karim Aïnouz. A decisão ampliou as atenções em torno do drama, com estreia nos cinemas brasileiros marcada para 21 de novembro.
A escolha do representante brasileiro para disputar a categoria de melhor filme internacional no Oscar 2020 foi acirrada. Aclamado pela crítica e às vésperas de uma bem-sucedida trajetória nos cinemas, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, era considerado favorito, mas acabou superado por A vida invisível, de Karim Aïnouz. A decisão ampliou as atenções em torno do drama, com estreia nos cinemas brasileiros marcada para 21 de novembro.
A conclusão do time de especialistas pode causar estranhamento em quem tenha se encantado com o faroeste distópico estrelado por Sônia Braga, mas muda de figura quando se assiste o escolhido pelos especialistas. Baseada no romance de Martha Batalha, A vida invisível é uma obra que engrandece a produção atual do cinema brasileiro, com qualidades que se sustentam muito além de uma eventual "cara de Oscar", que ninguém sabe direito como definir.
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A sequência de abertura mostra as irmãs Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte) descendo um morro do Rio de Janeiro para fugir da chuva, gritando uma para a outra enquanto tentam não se perder em meio à vegetação densa. A cena introduz, em um equilíbrio de força, tensão e sutileza, o drama que vai se desenrolar durante todo o filme: o esforço de duas mulheres para superar um mundo que insiste em forçar sobre elas o apagamento, a submissão e a separação.
O golpe decisivo na vida das duas surge quando Guida fica grávida do namorado e é rejeitada pelo pai, que passa a impor uma barreira de silêncio em torno dela. A partir desse evento, o longa passa a ser a história de mulheres que, mesmo distantes, influenciam uma à outra na vida que constroem no decorrer do anos, sempre lutando de todas as formas para alcançar o reencontro.
As atrizes principais trazem interpretações fortes e consistentes, que realçam as diferenças entre as duas mulheres. A Guida decidida e vigorosa de Julia Stockler é espelho e, ao mesmo tempo, complemento da Eurídice talentosa, sonhadora e introvertida proposta por Carol Duarte. Mesmo diferentes, ambas são resistentes, cada uma a seu modo. A construção das tramas paralelas reforça essa ideia de coesão em universos opostos, com cortes de cena às vezes abruptos e surpreendentes, além de uma fotografia apurada e cuidadosa. Tudo desembocando na poderosa e emotiva parte final, na qual Fernanda Montenegro domina cenas e olhares como a versão mais velha de Eurídice.
Um dos pontos fortes da narrativa de Karim Aïnouz está na construção do ambiente machista das décadas de 1940 e 1950. A lente não é bondosa com os homens em cena, mas nunca apela para a caricatura. Manuel (António Fonseca) é um patriarca severo e que, ao mesmo tempo, mostra-se desajeitado em suas tentativas esporádicas de afeto e cuidado familiar, enquanto Antenor (Gregório Duvivier) é um marido que ama a esposa, mas a sufoca o tempo todo para que encaixe no desconfortável molde de uma típica boa família carioca.
Os muros que afastam as protagonistas de seus sonhos e reaproximações estão no ambiente familiar: são os homens de quem se supõe amor e cumplicidade, e que agem exatamente do jeito que se esperava que agissem à época, talvez do jeito que se espere deles ainda hoje. Não há maldade explícita: há, isso sim, um mundo que sufoca e hostiliza a experiência feminina, simbolizado em homens movidos pela própria urgência em cumprir à risca seus papéis na sociedade. Os antagonistas podem ser nossos pais e irmãos; Guida e Eurídice, nossas mães, irmãs, amigas, esposas.
Em A vida invisível, o mundo é onipresente e inescapável. Guida busca respiro nos sambas de fim de semana, Eurídice tenta a transcendência nas notas do piano, mas a realidade está sempre lá. As reviravoltas têm, por vezes, um tom de folhetim, sem nunca perder o toque poético, realçado na constante presença da voz de Eurídice, lendo as cartas enviadas por Guida - cartas que, na verdade, nunca chegavam de fato em suas mãos.
Estamos diante, possivelmente, do mais sólido longa brasileiro a buscar vaga no Oscar em muitos anos. Não é à toa que venceu a mostra Um certo olhar, em Cannes, e não é por caridade que foi escolhido para, quem sabe, representar o País em Hollywood. Sensível, profundo e impactante, A vida invisível é cinema de primeira qualidade, que merece as mesmas filas e aplausos que Bacurau trouxe aos cinemas do Brasil.
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