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Porto Alegre, quinta-feira, 08 de agosto de 2019.

Jornal do Comércio

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Edição impressa de 08/08/2019. Alterada em 08/08 às 03h00min

Aos 90 anos, Nathalia Timberg se divide entre o teatro e a televisão

Atriz Nathalia Timberg está no ar como Gladys na novela A dona do pedaço

Atriz Nathalia Timberg está no ar como Gladys na novela A dona do pedaço


/JOÃO MIGUEL JR/TV GLOBO/DIVULGAÇÃO/JC
"No dia que eu parar, é porque morri e esqueci de cair." A frase de Nathalia Timberg faz todo o sentido para alguém que dedicou a vida à profissão: "Só me sinto feliz trabalhando". Aos 90 anos, completados na segunda-feira desta semana, a atriz concilia a peça Através da Iris, em cartaz no Rio de Janeiro, com a novela A dona do pedaço.
"No dia que eu parar, é porque morri e esqueci de cair." A frase de Nathalia Timberg faz todo o sentido para alguém que dedicou a vida à profissão: "Só me sinto feliz trabalhando". Aos 90 anos, completados na segunda-feira desta semana, a atriz concilia a peça Através da Iris, em cartaz no Rio de Janeiro, com a novela A dona do pedaço.
Há dias em que emenda set e palco. Ainda tem fôlego para a série de comemorações pelo aniversário, que começaram com as filmagens de um documentário sobre sua vida. Mas Nathalia troca qualquer badalação pelo estudo. A determinação profissional fez com que deixasse em segundo plano a vida pessoal. Viúva do escritor Sylvan
Paezzo, com quem foi casada por 15 anos, decidiu não ter filhos e não se arrepende, conforme declarou em entrevista concedida à Agência O Globo.
Sua trajetória, que começou aos seis anos no filme O grito da mocidade, foi e segue dedicada à formação. Reflexo de uma prioridade familiar. De origem judia, filha de pai holandês (joalheiro) e mãe belga (dona de casa), ela conta que eles valorizavam muito os estudos dos rebentos (além dela, havia Antoniete, a mais velha, e Felipe, o caçula, já falecidos). "Judeus foram obrigados a emigrar muito, e o saber é algo que se pode levar junto", afirma a carioca.
Sonhava em ser médica, mas formou-se em Belas Artes, influenciada pelo gosto do pai pela pintura. No palco, encontrou sua vocação. Pela atuação em A dama da madrugada, no Teatro Universitário, ganhou bolsa do governo francês para estudar Artes Cênicas em Paris.
De volta, aos 25 anos, estreou profissionalmente em Senhora dos afogados, dirigida por Bibi Ferreira. Viveu a primeira grande personagem na TV, a freira Maria Helena, em O direito de nascer (1964), na Tupi. "Não parou mais. É a atriz que mais trabalhou neste País", afirma Cacau Hygino, autor da fotobiografia Nathalia Timberg: Momentos (2014).
Quando a senhora olha para trás, gosta do que vê?
Nathalia Timberg - Acho que não errei meu caminho. Mas não me atenho muito à Nathalia, não é meu assunto preferido. Tem um poema emblemático do Fernando Pessoa que diz: "Aconteceu-me do alto do infinito. Esta vida". Minha vida me aconteceu. Tenho tanta coisa para problematizar dos meus personagens que não sobra tempo para mim. Olho a Nathalia de vez em quando, para ver se está fazendo tudo direito, puxo minha orelha, mas vou em frente.
O que a fez escolher o teatro?
Nathalia - É uma das atividades que vão mais longe na análise do ser humano, que é infinita. Perceber o mundo de maneira diferente da minha ótica, o mergulho em outras vidas e universos. Tenho necessidade de perceber o homem no mundo.
Sempre estudiosa, como a senhora enxerga a formação dos atores hoje?
Nathalia - O principal não é onde se busca a formação, mas o que se quer. Quer trabalhar o desenvolvimento de expressão artística ou procura um meio de exibição? Só levo em conta quem busca formação. Eu tinha uma tessitura forte já no Teatro Universitário, me via às voltas com personagens além da minha capacidade de resolvê-los, e isso me fez procurar um amadurecimento antes de iniciar a profissão. Queria estar preparada para enfrentar em vez de recorrer a truques.
Por isso cursar Artes Cênicas em Paris, aos 18 anos?
Nathalia - De todas as artes, o ator tem o instrumento mais complexo: ele mesmo. Para enfrentar o que uma dramaturgia propõe, é preciso estar num nível de desenvolvimento além do precário. Na verdade, sempre vai continuar precário, porque não tem fim, o nosso horizonte caminha conosco, vai se dar até meu último dia. Não podemos nunca parar de abrir o leque. Quando se estabelecerá limites para o desenvolvimento de uma pessoa? Espero que minha lucidez me acompanhe ainda por um tempo.
É verdade que teve gastrite quando interpretou a vilã Constância Eugênia, em O dono do mundo (1991)?
Nathalia - Vibramos com energia positiva ou negativa. Quando se vive figuras tão negativas, aquilo se acumula em algum lugar. Claro que, para fazer Nero, não vai matar a sua mãe, mas é preciso assumir estados desagradáveis. Tive turning points com personagens, e é preciso ir lá no desconforto. Se não, você mentiu a vida toda, não é um intérprete, quer apenas fazer enquanto está gostosinho.
Como lidou com a repercussão negativa, por parte do público conservador, do casal que interpretou com Fernanda Montenegro em Babilônia (2015)?
Nathalia - Causa espécie a disparidade entre o discurso e o comportamento das pessoas, e isso foi estranho nesse trabalho. No lançamento da novela, fui abordada pela imprensa. Respondi: "Não acha que essa situação deveria estar absorvida pela sociedade como uma realidade?". Eles diziam "acho", mas continuavam colocando um foco de escândalo naquilo, contribuindo para esse olhar.
Como enxerga o atual momento político do País?
Nathalia - Obscuro. Há tempos se faz tábua rasa da formação do brasileiro, e cada intervenção nos projetos sociais é para pior. No momento em que se abandona a cultura humanística, pretende-se que o ser humano não tenha condição de raciocínio e discernimento. Estamos postulando uma ignorância especializada. Como um povo sem formação terá condição de escolher seus dirigentes?
São mais de 100 trabalhos em TV, teatro e cinema. A dedicação ao ofício fez com que abdicasse da vida pessoal?
Nathalia - Não abdiquei, porque minha vida pessoal é o trabalho. Quando não estou trabalhando, estou desenvolvendo as condições de fazer frente ao que tanto gosto. As pessoas dizem muito "eu sou assim". Eu não sei como é que eu sou.
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