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Porto Alegre, terça-feira, 16 de julho de 2019.
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Edição impressa de 16/07/2019. Alterada em 16/07 às 06h00min

Peça 'História do futuro' revive obra de Antonio Vieira

Caco Coelho conduz História do futuro, adaptada de obra histórica de Antonio Vieira

Caco Coelho conduz História do futuro, adaptada de obra histórica de Antonio Vieira


CLAITON DORNELLES /JC
Igor Natusch
Há 300 anos, era publicada em Lisboa a primeira narrativa utópica da língua portuguesa. Escrito décadas antes pelo padre português Antonio Vieira, mas não publicado até bem depois de sua morte, o livro traduz, em palavras e arte, a ideia de um país do futuro: vislumbrado por profetas, abençoado por Deus e abundante de riquezas naturais, mas consumido até as cinzas por um povo insensível e corrompido. Só após a decadência seria possível rearranjar os escombros e construir um país renovado, efetivamente capaz de liderar a humanidade em uma nova era de harmonia e civilidade.
Há 300 anos, era publicada em Lisboa a primeira narrativa utópica da língua portuguesa. Escrito décadas antes pelo padre português Antonio Vieira, mas não publicado até bem depois de sua morte, o livro traduz, em palavras e arte, a ideia de um país do futuro: vislumbrado por profetas, abençoado por Deus e abundante de riquezas naturais, mas consumido até as cinzas por um povo insensível e corrompido. Só após a decadência seria possível rearranjar os escombros e construir um país renovado, efetivamente capaz de liderar a humanidade em uma nova era de harmonia e civilidade.
De 18 a 21 de julho, nesta quinta-feira até domingo, quem estiver no Teatro do Centro Histórico-Cultural Santa Casa (Independência, 75), às 20h, poderá ver uma interpretação viva e vibrante de tantas expectativas. Adaptada e interpretada por Caco Coelho, a peça História do futuro reverbera a profecia de Vieira em um Brasil que convulsiona na incerteza sobre o amanhã. Os ingressos (R$ 40,00, com meia entrada para estudantes, idosos e classe artística) estão à venda no local.
Com supervisão de direção de Vera Holtz e direção cênica de Eduardo Severino, o espetáculo traz mais uma presença ilustre, ainda que virtual. Em uma aparição audiovisual, o ator Lima Duarte surge como um profeta, que introduz e estimula as palavras e movimentos de Caco em cima do palco.
A aproximação entre Lima e Caco teve ajuda de Vera Holtz, e foi a partir de conversas sobre as raízes da brasilidade que a ideia de levar a obra profética ao palco nasceu. Caco, que estudava os sermões de Antonio Vieira por conta de sua influência sobre a poesia de Fernando Pessoa, não conhecia História do futuro - e foi imediatamente arrebatado pela "espantosa atualidade" da obra.
"Por um lado é deslumbrante como literatura, talvez um dos textos mais bonitos da língua portuguesa; por outro, é um soco no estômago. É um texto com três séculos de idade e que, ao mesmo tempo, parece ter saído do editorial do jornal de domingo", diz, sem disfarçar o assombro.
Fiel às características desenvolvidas em 40 anos de carreira artística, Caco propõe trabalhar a presença cênica em termos de ambientação, com poucos elementos de palco. O único objeto em cena é uma cadeira - futurista, mas retirada diretamente dos anos 1950. Referência a um Brasil que sonhou-se moderno e influente, que enxergou em si mesmo o "país do futuro" exaltado na obra homônima de Stefan Zweig. Um futuro que, simplesmente, não veio.
Diante desse cenário aberto, o texto e o movimento saem realçados. E a presença de Lima Duarte, trazendo profecias em latim, torna-se fundamental. "Ele me perguntou 'Caco, como é que posso te ajudar?'", relembra. "Falamos então sobre a parte das profecias. Eu disse 'grava algo no celular' e ele 'não, pode deixar que eu vou fazer bem feito'. Se preparou durante duas semanas, gravou em estúdio, com a sua equipe, e me mandou um material deslumbrante."
Responsável pela direção cênica de História do futuro, Eduardo Severino explica que sua função é trazer "um olhar de fora", buscando formas de fazer com que a voz e o corpo de Caco Coelho preencham o palco de forma ainda mais significativa. "É um texto maravilhoso e denso, e estamos pensando em momentos para abrilhantá-lo ainda mais, ou dar uma leveza maior. Caco é muito estudioso e muito disciplinado, ele encara muito bem as propostas que trago. Ele está flutuando no texto e no espaço", elogia.
Unindo três séculos de pensar e de projetar o ser brasileiro, História do futuro é, para seu ator e idealizador, também uma forma de manifestar-se sobre o presente do País. "O artista tem um lugar onde estabelecer a sua luta, que é o palco. Cabe ao artista, em um momento como esse, trazer aquela que é a sua coisa mais profunda, que é a arte", reflete Caco.
"Acho que o artista errou nos últimos anos. Deixar chegar a situação ao que se transformou hoje é um erro muito grande. Mas nós, artistas, temos essa condição de perceber os erros, e de ajudar a construir, coletivamente, a percepção do erro. Somos um país imensamente rico, mas estamos pobres humanamente."
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