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Porto Alegre, terça-feira, 09 de julho de 2019.
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Jornal do Comércio

Cultura

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cinema

Edição impressa de 09/07/2019. Alterada em 09/07 às 03h00min

Documentário de Marcelo Gomes chega às salas e plataformas nesta quinta-feira

'Estou me guardando para quando o Carnaval chegar' mostra o ritmo acelerado das fábricas de jeans

'Estou me guardando para quando o Carnaval chegar' mostra o ritmo acelerado das fábricas de jeans


BEATRIZ MASSON/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline da Silva
Em um rincão do Agreste pernambucano, Toritama vive em torno de um chamado ouro azul. Cerca de 20% da produção nacional de blue jeans sai das confecções daquele município, e praticamente todos os habitantes vivem em função de tecidos, agulhas, linhas, máquinas, tesouras, jatos de tinta, estiletes, ferros de passar... O documentário Estou me guardando para quando o Carnaval chegar mostra o ritmo acelerado das fábricas de fundo de quintal durante meses a fio, com operários trabalhando de 12 a 18 horas por dia. Porém, quando o Carnaval se aproxima, os moradores juntam as economias ou vendem pertences para se divertirem nas praias.
Em um rincão do Agreste pernambucano, Toritama vive em torno de um chamado ouro azul. Cerca de 20% da produção nacional de blue jeans sai das confecções daquele município, e praticamente todos os habitantes vivem em função de tecidos, agulhas, linhas, máquinas, tesouras, jatos de tinta, estiletes, ferros de passar... O documentário Estou me guardando para quando o Carnaval chegar mostra o ritmo acelerado das fábricas de fundo de quintal durante meses a fio, com operários trabalhando de 12 a 18 horas por dia. Porém, quando o Carnaval se aproxima, os moradores juntam as economias ou vendem pertences para se divertirem nas praias.
Assim que o diretor Marcelo Gomes (de Cinema, aspirinas e urubus; Viajo porque preciso, volto porque te amo; Era uma vez eu; Verônica e Joaquim) soube dessa história curiosa, resolveu retornar à cidade que tinha visitado com o pai, em viagens de trabalho para o governo, há quatro décadas. As idas durante um ano e meio para a região resultam neste que é seu primeiro documentário em longa-metragem da carreira e tem estreia nesta quinta-feira nos cinemas e nas plataformas de streaming.
O cineasta veio à Capital para participar do encerramento do Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (Frapa), na sexta-feira passada, na Cinemateca Capitólio. Após a sessão de pré-estreia, participou de uma conversa sobre a produção com o público que lotou a sala. Também estava presente o produtor Ernesto Soto. Gomes nasceu e cresceu em Recife, e sempre quis filmar no Agreste. "Quando cheguei lá, deu um curto-circuito na minha cabeça. Em Toritama, a produção é imensa. As condições de trabalho são terríveis, mas eles estão extremamente felizes por serem autônomos. Gosto de fazer filmes sobre coisas que não entendo, para dividir minhas incertezas", contou. Então, o diretor deixou que o processo e os personagens lhe conduzissem, sem se preocupar, em um primeiro momento, com o tipo de documentário que faria.
Na terceira viagem à cidade, o filme começou a se desenhar, para encontrar o fio da narrativa, o recorte daquele local: o seu mote era essa falácia de ser autônomo. "Os moradores são orgulhosos de serem donos do seu próprio tempo." Foi quando ele também decidiu que precisava se colocar na construção narrativa, fazendo um paralelo do que observava atualmente com suas lembranças de 40 anos atrás. O cineasta fez uma opção que não é mais tão comum no documentário contemporâneo: a narração com voz off. Em certo momento do roteiro, ele conclui: "Meu pai era um fiscal de tributos. Hoje, sou um fiscal do tempo alheio. Quando a gente filma, está capturando o tempo de alguém".
Para Gomes, a nova fase do neoliberalismo estimula a autonomia, de trabalhar muito para ganhar mais e consumir até talvez o que não precise. "Esse cenário tem toda uma complexidade, porque é uma industrialização esdrúxula. O filme tem críticas, mas sutilezas. Queria deixar a ideia dos moradores sobre o trabalho contaminar o filme. E, ao mesmo tempo, é contraditório o que mostra, porque a maioria do País crê que, no Nordeste, todos vivem do Bolsa Família", provocou.
Conforme o cineasta, a realidade que está na tela não parece tão feia quanto é: "Toritama é um caos, com muita poluição urbana, um lugar árido, com pouca água". Canário, por exemplo, o único guardador de rebanhos que restou no local, anda léguas conduzindo os bodes para encontrar pasto para se alimentarem.
Abordar o fato do êxodo do Carnaval, quando ela se transforma em uma cidade-fantasma, também foi difícil. "Quando as pessoas não conseguem ir, se escondem dentro de casa durante todo o período, para não mostrar aos outros que não puderam sair. Percebemos que viajar era uma questão de status."
O diretor destacou outro aspecto interessante que lhe seduziu para filmar no local: "O jeans foi um símbolo da contracultura. Mas uma calça jeans é uma peça complexa, são necessárias 32 pessoas para fazer uma calça completa, tem bolsos, zíper, botão, decoração". E, finalizando, fez outra comparação triste: "Há 30 anos, Toritama tinha duas bibliotecas, um teatro e duas bandas de música. Hoje, não tem mais nada de lazer na cidade".
Estou me guardando para quando o Carnaval chegar foi selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim deste ano e foi premiado pelo júri oficial, pela ABD-SP (Associação Brasileira de Documentaristas) e pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos) no Festival É Tudo Verdade 2019.
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