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Porto Alegre, segunda-feira, 10 de junho de 2019.
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Jornal do Comércio

Cultura

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música

Edição impressa de 10/06/2019. Alterada em 09/06 às 22h37min

Alice Caymmi lança Electra, seu quarto álbum da carreira

Cantora aparece com cabelos raspados na capa de novo lançamento

Cantora aparece com cabelos raspados na capa de novo lançamento


GUSTAVO ZYLBERSZTAJN/DIVULGAÇÃO/JC
Aos 29 anos, Alice Caymmi nasce de novo. Na capa de Electra, seu quarto álbum, ela surgiu de cabeça raspada à máquina 2: "Uma coisa meio recém-nascido". A postura segura lhe distancia da menina lourinha que apareceu no final dos anos 2000 cantando na Lapa. A mudança foi aos poucos, traduzida em seu fazer artístico, nos discos: Alice Caymmi (2012), pleno das referências marítimas que inspiraram o avô, Dorival; Rainha dos raios (2014), em que assumiu forte personalidade teatral; e Alice (2018), um mergulho fundo no universo pop.
Mas a transformação de agora é "um corte". E, para encará-lo, Alice precisou se escorar na persona do título do novo CD. Em vez do mito grego, que induz o irmão a assassinar a mãe para vingar a morte do pai, a cantora empunha a faca - com que aparece na imagem - para matar dores internas que não queria mais levar em sua caminhada. Desejava deixar o peso do sobrenome para tentar ser quem é. "Me transformei como indivíduo independente, e superei questões. Em vez de negar, quis tratar desses assuntos. Parti da minha crise para falar da crise ética e moral do mundo. O disco trata de violência", diz.
Foi, aliás, usando essa palavra que Alice rebateu críticas de sua tia Nana Caymmi. Em março, Nana declarou em entrevista: "Tinha muita esperança de que ela fosse para o meu caminho. Achei que Alice ia dar mel, mas não deu". A sobrinha, por sua vez, usou as redes para dizer que passou por "rejeição e violência" e não pedia a aprovação de ninguém. A brutalidade não vinha só da família: "Foram 10 anos tendo que responder como é ser neta do Caymmi".
Os versos que agora canta, com propriedade, pareciam entalados na garganta (o disco foi gravado em apenas dois dias): "Pouco importa se tudo hoje em dia/ se baseia na diplomacia" (Diplomacia, de Maysa); ou "medo, alimento dos covardes" (Areia fina, de Lucas Vasconcellos). "Palavras são instrumentos de cura. Estou falando sobre existência, perdão, vida e morte. As pessoas te decepcionam de maneira sem volta. Sofri essa morte da decepção, voltei e renasci."
Com a mesma dramaticidade de seu canto, Alice mete o dedo na ferida até sangrar e critica a sociedade de aparências: "As pessoas estão superficiais, nesse lugar de autoajuda, de ser fofinho, sempre agradável. Se você é o tempo inteiro correto, passa por tudo e não erra, quem é você? Todo mundo se expõe nas redes mas, ao mesmo tempo, nada é verdadeiro". 
Talvez por sentir falta dessa verdade, a artista afirma compreender Nana. "A tristeza fica. Mas é preciso perdoar. Não dá para fingir que não há uma trajetória. Pouco se sabe do que ela passou, sua luta como mulher, cantora e mãe", observa. "Ela é assim, não tem filtro. É de outra geração, não iria pegar um celular e fazer um tuíte. Tia Nana e Tio Dori são para o lado da vovó Stella. Eu e meu pai (Danilo) somos como meu avô, que pensava muito antes de falar."
Desde pequena, Alice foi vidraça. No tempo de escola, o sobrenome ilustre, o físico fora dos padrões e a personalidade excêntrica da menina que ouvia ópera, música francesa e assistia ao seriado Babar, o rei dos elefantes em vez de Xuxa provocavam piadas.
Ela chegou a fazer vestibular para Direito, mas a aventura acadêmica durou dois semestres. O teatro veio em seguida (formou-se na PUC) e construiu muito de sua personalidade artística. O que se verá nos shows do disco, sob direção de Paulo Borges e figurino de Alexandre Herchcovitch, não foge a essa linguagem teatral. "Música para mim é música, moda e comportamento", diz ela, que tem como referências Björk ("artista completa") e Caetano ("só faz o que quer"), e anda estudando teatro japonês como butô e kabuki. "Não tenho espaço para pudor, ainda mais no palco. É entrega total. Tenho uma superpreocupação estética, mas não com a minha beleza como mulher."
Até porque Alice nem quer ser enquadrada na binaridade de gênero. Diz que gosta do "é menino ou menina?" que a cabeça raspada traz. "Curto a silhueta menos definida, que pensem sobre a figura por trás da voz. Por isso sempre tive uma questão com bandeiras: elas definem. Não vou virar uma hashtag", critica ela, que prefere não declarar sua opção sexual. "Luto pelo direito de todo mundo ser o que quiser."
Alice é dramática, mas tem senso de humor e gargalhada solta, ama a atriz Vera Holtz e o cineasta Lars von Trier. Às vésperas de completar 30 anos, deixou empresário, assumiu a própria carreira e tem certeza de que vai fazer cada vez menos concessões na vida: "Se não for para desafinar o coro dos contentes em vários momentos, não sei o que eu estou fazendo aqui".
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