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Porto Alegre, quinta-feira, 21 de março de 2019.
Dia contra a Discriminação Racial.

Jornal do Comércio

Cultura

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CINEMA

21/03/2019 - 09h13min. Alterada em 21/03 às 16h15min

Brasileiro lança documentário de resgate da ancestralidade africana

Sobre grafite em Angola, 'As cores da serpente' tem direção de Juca Badaró e produção de Renata Matos

Sobre grafite em Angola, 'As cores da serpente' tem direção de Juca Badaró e produção de Renata Matos


SALVADOR FILMES/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline da Silva
A data de 21 de março foi estabelecida pela ONU como Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, como referência ao Massacre de Sharpeville, em 1960, que resultou na morte de 69 pessoas pelo regime racista da África do Sul. Nesta quinta-feira, entra em cartaz em diferentes capitais brasileiras o documentário As cores da serpente, rodado na Angola e dirigido por um brasileiro, Juca Badaró. “A data foi uma feliz coincidência, que nos deixou muito satisfeitos. Temos uma enorme dívida com a nossa ancestralidade africana. Até hoje não superamos a escravidão”, comenta o cineasta.
As cores da serpente é um registro afetivo sobre a história do Coletivo Murais da Leba, a maior intervenção de grafite da África na estrada histórica com cerca de 20 quilômetros. Os realizadores do filme procuram promover com a obra a compreensão das motivações dos 27 artistas visuais participantes. Em Porto Alegre, o título está em cartaz no Espaço Itaú de Cinema, no shopping Bourbon Country (Túlio de Rose, 80), com sessões diárias, às 20h.
Assista ao trailer da produção nacional, que contou com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual/Ancine:
A Serra da Leba, entre a província de Huila e Namibe, tem um histórico de 30 anos de guerra. Buscando se relacionar com sua tradição e ancestralidade, um grupo de grafiteiros angolanos quer pintar os mais de seis mil metros quadrados dos paredões. O feito foi realizado entre agosto e novembro de 2015. No ano passado, os grafiteiros baianos Annie Ganzala, Ananda Santana e Eder Muniz participaram de uma nova pintura no mural, por meio do projeto África e a Diáspora – Novas Conexões.
A rodovia começou a ser construída pelos portugueses no final do século XIX e só foi concluída às vésperas da independência de Angola, em 1974. Tornou-se um dos mais conhecidos pontos turísticos do país. Leia a seguir a entrevista com o diretor:
JC – Na sinopse, As cores da serpente é definido como um “documentário poético”. O que significa essa caracterização?
Juca Badaró – Inicialmente, quando pensamos em realizar o documentário, tínhamos o desejo de, antes de tudo, ser um registro daquele acontecimento: a maior intervenção de grafite a céu aberto do continente africano. Mas não queríamos um registro frio, jornalístico, meramente documental. Pensávamos que era necessário se aproximar daquilo que motivava aqueles artistas e daquilo que eles queriam representar nos Murais da Leba. Para isso, alguns grafiteiros tiveram câmeras em suas mãos e puderam colaborar também com o processo do filme. Antes de filmar de fato, participei de encontros com eles, discutimos que abordagem era melhor e como colocaríamos isso tudo na tela. Utilizamos quase todas as entrevistas em off (ou seja, os entrevistados não aparecem, apenas ouvimos sua voz) para que o público sentisse a narrativa junto com a potência visual das imagens. Caracterizar como poético, nesse sentido, é ser documental, mas também explorar a força das imagens dos grafites, da própria beleza natural da Serra da Leba e da luz de Angola.
JC – Como foi o processo de escolha do título do documentário, que se traduz em uma designação perfeita?
Badaró – A Serra da Leba é chamada pelos seus moradores de serpente. Em um final de tarde, depois de um exaustivo dia de gravação, enquanto descíamos a serra, vi da janela do carro os paredões pintados que a serpenteavam. O sol batia nas paredes, enchendo tudo de muitas cores. Naquele instante pensei numa serpente colorida, cravada nas rochas. O título veio nesse momento.
JC – Como encontraste António “Thó” Simões? Ele é fundamental ao longa-metragem, como uma espécie de fio condutor?
Badaró – Conheci o artista Thó Simões, diretor artístico do Coletivo Murais da Leba e um dos principais personagens do filme, através da produtora brasileira Renata Matos, que produziu o filme comigo. Ela nos apresentou para que o Thó nos mostrasse o projeto de pintura dos Murais da Leba.
JC – Qual o papel da trilha sonora no documentário, que se apresenta forte e marcante? Qual era a sensação a ser passada ao espectador?
Badaró – Sim, a maior parte da trilha utilizada foi gravada em Angola, por artistas angolanos. Algumas são registros de cânticos e ladainhas dos próprios povos que vivem no entorno da Serra da Leba. Isso ajuda a criar o clima que necessitávamos para o filme.
JC – Qual a aproximação de cenários entre Angola e Brasil?
Badaró – Temos uma enorme dívida com a nossa ancestralidade africana, porque durante muito tempo, em nossa história, a negamos e a perseguimos por conta do racismo. Isso deixou marcas profundas em nossa sociedade. Até hoje não superamos a escravidão e ela ecoa nas desigualdades sociais, na perseguição do povo negro, na intolerância religiosa, nos ataques ao povo de santo e na morte de meninos pretos nas favelas. As cores da serpente é também um filme sobre a importância de cultuar e respeitar nossa ancestralidade.
JC – A sequência de abertura do documentário, retratando um ritual étnico local, funciona como um prólogo para a obra?
Badaró – O prólogo do documentário é um registro de um ritual chamado de “ekwende-efico”, liturgia de iniciação e entrada das meninas na vida adulta. Não se trata de um ritual religioso, mas um ritual tradicional da etnia dos Mucubais, que são povos que vivem na Serra da Leba, no Sul de Angola. A busca pela própria ancestralidade e o desejo de compreender quem eles são motivaram os artistas a pintar, nos Murais da Leba, figuras que evocam os povos originários de Angola. Em muitos paredões, eles foram representados. Por isso, a ideia de homenageá-los no início do filme.
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