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Porto Alegre, sexta-feira, 23 de novembro de 2018.

Jornal do Comércio

Cultura

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reportagem cultural

Edição impressa de 23/11/2018. Alterada em 23/11 às 14h26min

Schlee fala do último livro em entrevista poucas semanas antes de morrer

Um dos grandes nomes da literatura gaúcha, Aldyr Garcia Schlee faleceu aos 84 anos semana passada

Um dos grandes nomes da literatura gaúcha, Aldyr Garcia Schlee faleceu aos 84 anos semana passada


ALEXANDRE SCHLEE GOMES/DIVULGAÇÃO/JC
Paula Sperb, especial para o JC
De pé, no centro da sala iluminada com a luz natural que entrava pela janela do apartamento com vista para a lateral do Theatro Guarany, no Centro de Pelotas, Aldyr Garcia Schlee (1934-2018) segurou, pela primeira vez, um exemplar finalizado do seu livro mais recente. "Mas que volume liiiindooo", disse o escritor, com a voz afetiva característica que destoava dos 1,89 m de altura. "Hahaha! Que barbaridade", riu de alegria. "Deixa eu sentar. Bah! Que boniiitooo que ficou. Nem sinto mais as dores do parto", insistiu, agora na cadeira, com as longas pernas dobradas.
Era manhã de 18 de setembro passado quando Schlee recebeu os primeiros exemplares de O outro lado: noveleta pueblera (Ardotempo, 2018). "Como ficou bom", repetia, ao olhar cada detalhe da capa, da contracapa, da impressão. Uma brisa do canal São Gonçalo, que desemboca na Lagoa Mirim, entrou pela janela e balançou os fios brancos do vasto cabelo cacheado que o escritor mantinha na altura do queixo. Ao seu lado, o editor Alfredo Aquino também comemorava o resultado.
A reportagem do Jornal do Comércio acompanhou o escritor ao longo daquele dia. A entrevista, interrompida para um almoço com sua "confraria" de amigos e para uma sessão de fisioterapia, foi uma das últimas concedidas à imprensa. Os relatos podem ser lidos ao longo desta matéria especial.
Schlee morreu aos 83 anos na noite de 15 de novembro em decorrência de um câncer recém descoberto que afetou seus pulmões e fígado. Há mais de uma década, ele mantinha sob controle um câncer de pele, que não foi a causa de sua morte - ele completaria 84 anos em 22 de novembro.
Em janeiro de 2017, Schlee ficou viúvo. Sua esposa, Marlene Rosenthal Schlee, costumava ser a primeira leitora de suas obras e compartilhava da predileção por artes, cinema, futebol e uma visão humanista da sociedade. Há pouco mais de um ano, portanto, o autor se adaptava à vida sem Marlene, que cultivava cuidadosamente o jardim do sítio da família, em Capão do Leão. Schlee deixa três filhos: Aldyr, Andrey e Sylvia.
Natural de Jaguarão, cidade histórica gaúcha na fronteira com Rio Branco, no Uruguai, Schlee escreveu 15 obras, trabalhou como jornalista, designer, professor, foi criador da camiseta canarinho da seleção brasileira de futebol e até consultor do Itamaraty para o Tratado da Lagoa Mirim, de 1977. O tema da lagoa o interessava justamente porque ela é compartilhada por Brasil e Uruguai, um símbolo da fronteira cultural que tanto marcou sua ficção. "Eu queria fazer a defesa dos interesses uruguaios, que seriam naturalmente prejudicados. Quando fui escolhido para trabalhar no tratado, brinquei que teria um escritório no Itamaraty. Não tive um escritório, mas viajei algumas vezes a Brasília para essa função", contou.
Assim como a ponte Barão de Mauá sobre o Rio Jaguarão une os dois países, e compõe sua paisagem literária, a ficção de Schlee também é uma ponte cultural entre os vizinhos. A fronteira sempre esteve presente na obra do autor que misturava "memórias com mentiras". A seguir, o escritor relembra episódios marcantes de sua vida e fala sobre sua literatura.

Autor de muitas façanhas

Além de premiado escritor, Aldyr Garcia Schlee era jornalista, professor e desenhou a camiseta da seleção brasileira

Além de premiado escritor, Aldyr Garcia Schlee era jornalista, professor e desenhou a camiseta da seleção brasileira


FERNANDO RICARDO/DIVULGAÇÃO/JC
Paula Sperb*

Aldyr Garcia Schlee venceu duas vezes o prêmio Nestlé de Literatura e outras cinco vezes o Açorianos, entre tantos reconhecimentos por sua obra. Atuando como jornalista, recebeu o Prêmio Esso, o principal prêmio jornalístico do Brasil, em 1962. No esporte, outro feito memorável: ele venceu um concurso nacional para escolher a nova camiseta da Seleção Brasileira na década de 1950 - portanto, é o criador da "canarinho".

Todavia, além desses feitos, Schlee logrou uma façanha digna de poucos autores: uma editora foi aberta para publicar exclusivamente seus livros. Ele era o principal nome da Ardotempo, fundada por Alfredo Aquino, que agora já conta com outros autores do catálogo, entre eles a poeta Maria Carpi, patrona da recém-encerrada Feira do Livro de Porto Alegre.

Aquino e Schlee se conheceram 10 anos atrás na Jornada de Literatura de Passo Fundo. O editor soube que Schlee queria publicar Don Frutos, o primeiro romance do autor conhecido por se dedicar a contos. A obra audaciosa, e depois premiada, enfoca os últimos dias do presidente uruguaio General Don Fructuoso Rivera (1784-1854) em Jaguarão.

"As grandes editoras diziam que ele estava fora do circuito, e uma até justificou que ele era 'velho'. Então montamos um plano. Antes, publicaríamos um outro livro inédito e, depois, Don Frutos. Assim surgiu a maravilha que é Limites do impossível: Contos gardelianos. O livro vendeu 400 exemplares na primeira noite e faturamos R$ 12 mil. Paguei os custos da impressão à vista, achava que teria que parcelar, e consegui viabilizar a editora", relembra Aquino.

Don Frutos repetiu o mesmo sucesso e teve a edição esgotada. Neste ano, uma edição de luxo foi lançada. Durante o evento, no Instituto Goethe, um uruguaio trineto de Rivera que vive no Brasil apareceu para cumprimentar Schlee.

Desde a primeira parceria, a Editora Ardotempo republicou todos os livros anteriores do autor nascido em Jaguarão.

A amizade literária migrou para um laço fraternal. "Schlee, quer almoçar amanhã no La Fogatta?", convidava o amigo, à noite, por telefone. Proposta aceita, Aquino acordava de madrugada e saía de Porto Alegre para confraternizar com o amigo e Marlene no restaurante preferido deles, em Rio Branco, no "outro lado" de Jaguarão.

"Esse nosso costume tinha um lado meio de fantasia. Ninguém convida alguém para almoçar a 500 quilômetros de distância. Esse hábito reforçava a mítica do 'outro lado'. A gente passava por dentro de Jaguarão, ele contava a história da família, dos cenários literários, era incrível", conta o editor Alfredo Aquino.

As dores da ditadura

Aldyr Garcia Schlee era um jovem professor de Direito na Universidade Católica de Pelotas e de Português no Colégio Pelotense quando conheceu a prisão pela ditadura militar: foi detido três vezes, expulso da universidade e impedido de defender sua tese de doutorado. Porém, a consequência que mais lhe perturbava era a hostilidade que passou a sofrer em sua cidade natal.

"Tenho um sentimento de frustração muito grande com a minha terra, Jaguarão. Durante um bom tempo fui hostilizado porque fui preso, em Pelotas, e a minha fama negativa, que teria justificado a minha prisão segundo os militares, é que eu era comunista", disse na entrevista realizada em setembro passado, em seu apartamento. A fama era infundada. Ele era, sim, contrário ao regime dos militares. Mas também combatia movimentos que pregavam a luta armada para retomar a democracia.

"Em 1964, no sexto dia do golpe, eu já estava em cana. Respondi inquérito policial-militar solto em boa parte do tempo, mas fiquei preso durante 43 dias. Dei uma aula criticando notoriamente o golpe e mostrando como era um ato que atentava contra a própria Constituição brasileira. Eu lecionava retórica no segundo grau. Ditei um texto aos alunos e pedi que identificassem os sofismas (falácias) que havia e quais tipos, se eram de maioria, confusão, autoridade... Usei vários sofismas, os mesmos que usaram para justificar o golpe", relembrou ele.

Uma aluna levou o texto para casa e mostrou ao pai - "um baita reacionário, que se fosse vivo teria colocado Bolsonaro em primeiro na eleição, como de fato ocorreu", na opinião de Schlee. O pai, então, delatou o professor aos militares. Na prisão, o texto foi esfregado no rosto do escritor, que reconheceu a letra da aluna.

Cinquenta e quatro anos após a prisão, Schlee ainda sentia dores nas articulações do ombro, braço, costas e mão. "Quando preciso colocar um casaco é mais difícil, sinto a dor no movimento e lembro da prisão", relembrou ele, fazendo o gesto de levar o braço para trás do mesmo jeito que sofria na cadeia. Na fila para o banho de sol diário, os militares torciam o braço do escritor para trás, dobrando sua mão, de maneira que restava a Schlee caminhar na ponta dos pés para evitar uma torção total.

Em outra prisão, foi convocado a prestar depoimento. Um militar avisou o pai de Schlee de que o filho seria detido e devia comparecer ao quartel. O pai levou Schlee ao local e passou a noite inteira estacionado em frente ao quartel dentro do seu Kharman Ghia azul. Ele queria ter certeza que o filho ficaria vivo. "Senti medo. Antes do interrogatório, me deixaram sozinho em uma sala para que eu pudesse escutar as conversas. Eles citaram nomes de pessoas conhecidas na cidade, vereadores e outros professores. 'Os tubarões estão cuidando deles, foram lançados ao mar'. Admito que aquilo era muito assustador", contou.

Em 1965, os militares apreenderam as três cópias da tese em Direito que Schlee defenderia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Sem o material, o escritor não pôde comparecer à banca de avaliação - fato realizado apenas 12 anos depois. A tese tratava sobre "O direito de autodeterminação dos povos" e foi considerada subversiva, mesmo com a anuência do Brasil aos tratados da ONU sobre o tema.

Livros e Coleções de Aldyr Garcia Schlee - ed. Ardotempo (2009 a 2018)


ALFREDO AQUINO/DIVULGAÇÃO/JC
  • Os limites do impossível - Contos Gardelianos (Prêmio Açorianos de Literatura)
  • Don Frutos - Romance (Prêmio Açorianos de Literatura e Prêmio Fato Literário)
  • Contos de verdades (Prêmio Açorianos de Literatura)
  • Contos de futebol (versão em português de Cuentos de fútbol)
  • Contos de sempre (Vencedor da I Bienal de Literatura Brasileira)
  • Uma terra só - Contos (Vencedor da II Bienal de Literatura)
  • O dia em que o Papa foi a Melo - Contos (versão em português de El día em que el Papa fue a Melo)
  • Memórias de o que já não será - Contos
  • Contos da vida difícil (Prêmio Açorianos de Literatura)
  • Os 20 melhores contos de Aldyr Garcia Schlee (Antologia organizada por Marlene Rosenthal Schlee)
  • Linha divisória - Contos
  • Fitas de cinema - Contos
  • Camisa Brasileira - Livro de arte fotográfica (imagens de Gilberto Perin e texto de Aldyr Garcia Schlee)
  • Linguagem de fronteira / Fronteiras de Linguagem (Caixa com seis livros de contos e libreto, com entrevista de Aldyr Garcia Schlee e texto crítico de Regina Ungaretti)
  • As mulheres de Gardel - Libreto (Texto de Luiz-Olyntho Telles da Silva sobre Os limites do impossível
  • O outro lado - Noveleta Pueblera - Novela

Obras póstumas

Por 12 anos, Schlee se dedicou a criar um dicionário com termos da região do Pampa. O trabalho, que está pronto, é fruto de uma intensa pesquisa em material bibliográfico. "É um dicionário estranho porque tem meu estilo de escrever. É exagerado como a minha literatura, mas com um pouco mais cuidado. Eu saberia escrever o dicionário sem travessões. Abrir e fechar parênteses embolota o texto e fica arredondado. Tenho essa visualização dos verbetes", explicou. Denominado Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, o livro será publicado pela Ardotempo.

Outra obra, que ainda necessita de autorização da família, terá contos baseados no argentino Jorge Luís Borges. Schlee já tinha ideia sobre o título, que deveria ter o termo "espelho", uma referência ao "duplo" presente na obra borgeana. "Até o momento, são seis contos prontos e mais o texto em que ele relata o encontro com o Borges em Jaguarão", explica Aquino. Além disso, Contos do impossível, inspirado na família conturbada de Carlos Gardel em Taquarembó, no Uruguai, será lançado ainda neste ano pela Ediciones de La Banda Oriental, de Montevidéu.

'Grande mentira recheada de verdades'

Schlee em Pelotas, com seu editor, recebendo exemplar do novo livro

Schlee em Pelotas, com seu editor, recebendo exemplar do novo livro


PAULA SPERB/DIVULGAÇÃO/JC
Quando agradecia a alguém, Schlee espontaneamente soltava "gracias". "Só a minha neta tinha reparado nisso, ela me perguntou 'vô, por que tu não diz obrigado?'", contou à repórter após deixar o restaurante Madre Mia!, no Centro de Pelotas, onde almoçou com amigos e não renegou o doce de creme de baunilha com framboesa. "Pior que não posso comer a sobremesa", brincou. Entre um compromisso e outro, o autor conversou com a reportagem sobre sua vida e o último livro O outro lado: Noveleta Pueblera. Abaixo, alguns trechos:
JC Viver - Depois de 15 livros publicados, como é lançar uma obra?
Aldyr Schlee - No início, naturalmente, tinha outra significação. Era o início de uma carreira. Eu esperava com muita ansiedade. Não era um produto de uma atividade profissional permanente. Os primeiros publiquei concorrendo a prêmios e tive a sorte de ganhar os prêmios. Em Pelotas, onde moro, ou Jaguarão, onde nasci, o lançamento fica prejudicado pela obrigação que os amigos sentem de comparecer (risos). O lançamento de livros no Uruguai tem outro cerimonial. No Uruguai, a editora convoca seus leitores para um encontro com o escritor. Nesse encontro, um representante da editora faz uma apresentação com rasgados elogios e daí eu me defendo (risos). Eles fazem em um auditório grande - El día em que el Papa fue a Melo foi lançado no Palácio do Peñarol diante de 500 pessoas, até circo se apresenta lá. É um número que só vi em Bienal de Literatura.
JC - Como foi redigir Don Frutos? Por que escrever sobre Rivera em Jaguarão?
Schlee - É um assunto literário que surge no meu mundo, não podia abdicar, tinha que aproveitar. Posteriormente surgiram documentos, um amigo uruguaio me ajudou, juntou muitos documentos. Mas as informações eram rasas, estavam localizadas na memória jaguarense. Nessas conversas com meu amigo veio um livro com as cartas de Rivera para Dona Bernardina. Ele era pré-silábico. Para decifrar foi um horror. Publiquei só uma carta real do Rivera. Inventei algumas dentro desse modelo da correspondência dele, reconstruí a linguagem escrita dele. Foram elementos tirados das memórias e lembranças sustentadas por documentos verdadeiros ou falsos. Foi um trabalho brabo. A questão do extermínio dos charruas - inventei os sonhos, os pesadelos do Rivera com os índios que ele traiu. Cada episódio tem essas conotações, das memórias e imaginação. Levei um tempão. De sete a 10 anos. É uma grande mentira recheada de verdades.
JC - Como surgem os personagens de O outro lado: Noveleta Pueblera?
Schlee - Eles aparecem em outro livro, nos contos Marita e Dinheiro velho. A Marita é dessas tantas jovenzinhas do campo, com todos os problemas de criação que podem existir. Ela é deixada aos cuidados de uma madrinha. Ela conversa com um poço d'água em busca da mãe. Ela fala com o poço. No outro conto, o Jacinto achou um dinheiro. Ele tem uma criação tão pobre depois de ter perdido o pai, que não tem noção do valor do dinheiro e também não sabe como usar o dinheiro. É um miserável. Há um encontro entre ele e ela. Ele se oferece para ajudar a puxar a pipa de água. Ela fica esperando que ele reapareça. Quando ele volta, não sabe que ela foi estuprada e quer fugir. Ela sobe na garupa com ele. Jacinto larga a moça com um curandeira, que tratou de seus ferimentos no passado. Está com "deslumbre", a velha diz em espanhol, para falar que ela está encantada.
JC - E como o diabo entra na história?
Schlee - O diabo estava na mulher que Jacinto se sentiu apaixonado no trem, quando acha o dinheiro na estação. Ela era a mulher do diabo - o demônio a vendia barato em cada estação que chegasse, inclusive em Jaguarão. O diabo está arrancado praticamente da história. Não há nada de novo. Não pode ter nada de novo, é a minha orientação. O diabo não pode acrescentar nada.

A camiseta canarinho

Um dos esboços originais da camisa Canarinho de 1953

Um dos esboços originais da camisa Canarinho de 1953


fotos MUSEU DOS DIREITOS HUMANOS DO MERCOSUL/DIVULGAÇÃO/JC
Possivelmente o símbolo nacional não oficial mais reconhecido no mundo (para muitos, mais que a bandeira do País), a camiseta da seleção brasileira de futebol é uma criação de Aldyr Garcia Schlee, antes de o garoto com então 19 anos se tornar um escritor premiado. A história da "amarelinha" começa com o fatídico maracanaço - maracanazo combinaria mais com o universo fronteiriço do escritor.
Em 1950, o Uruguai venceu a Copa do Mundo, derrotando o Brasil por 2 a 1 no Maracanã, no Rio de Janeiro. Aos 15 anos, Schlee acompanhou a transmissão do jogo a distância. Mas, diferentemente dos brasileiros, o menino fronteiriço vibrou com o resultado favorável à seleção celeste.
O desfecho, porém, foi traumático para o Brasil. O forte abalo da derrota em casa levou a uma mudança no uniforme da seleção brasileira. Nunca mais o time deveria usar a vestimenta branca, que ficou gravada na memória do futebol nacional como a representação do fracasso.
Para a Copa do Mundo seguinte, o Brasil precisava surgir renovado. Por isso, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, lançou um concurso para escolher o novo uniforme. Schlee desenhou a camiseta amarela com detalhes verdes e bermuda azul. Venceu o concurso diante de outras duzentas camisetas inscritas.
Mesmo torcendo para o Uruguai - lá o seu time do coração é o Nacional, aqui é o Xavante (Brasil de Pelotas) -, Schlee tinha muito carinho pela camiseta que criou, reconhecida mundialmente. Nos últimos tempos, porém, estava descontente com o significado que foi atribuído à camiseta.
Em 2016, disse considerar um contrassenso que ela fosse usada em manifestações contra a corrupção política, por representar a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), entidade envolvida em um grande escândalo de corrupção da Fifa. Recentemente, lamentava que o uniforme estivesse ligado a eleitores de Jair Bolsonaro (PSL), então candidato a presidente e que costuma elogiar a ditadura militar, regime que prendeu o escritor por considerá-lo "subversivo".
A camiseta "canarinho" e a paixão de Schlee pelo futebol receberam uma homenagem à altura no dia seguinte a sua morte. Na sexta-feira, 16 de novembro, Brasil e Uruguai se enfrentaram em um amistoso. O local da partida foi o Emirates Stadium, em Londres, cidade considerada o berço do futebol moderno. Lá, os jogadores fizeram um minuto de silêncio em homenagem ao criador do uniforme. No seu enterro, uma bandeira do Uruguai e do Brasil de Pelotas foram colocadas em cima do seu caixão.
O autor, entretanto, não gostava apenas de assistir futebol. No seu sítio em Capão do Leão, a cerca de 30 quilômetros de Pelotas, um gramado servia de campo para partidas com os filhos e netos. Na casa do sítio, Schlee guardava um segredo: um mapa do mundo pintado e considerado sempre como inacabado foi feito, curiosamente, no verso do tabuleiro de um jogo de futebol de botão. "No verso da pintura tem um campo completo, com as traves, com a redinha da goleira. No outro lado tem o 'mundo'", revelou o amigo e editor Aquino.
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