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Cultura

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CINEMA

Edição impressa de 29/10/2018. Alterada em 29/10 às 12h44min

'A casa que Jack construiu', de Lars von Trier, estreia no Brasil

Matt Dillon interpreta serial killer em A casa que Jack construiu

Matt Dillon interpreta serial killer em A casa que Jack construiu


ZENTROPA/CHRISTIAN GEISNAES/DIVULGAÇÃO/JC
Não é exagero dizer que o cineasta Lars von Trier está entre os mais controversos da atualidade. Ao longo de sua trajetória, o realizador de obras como Os idiotas (1988), Dogville (2003), Anticristo (2009) e Ninfomaníaca (2013) vem chocando parte do público - e da crítica especializada - a cada filme. Para ficar só nos exemplos citados, o diretor já mostrou um grupo de amigos fingindo problemas mentais em público para divertir-se; gravou sem cenário, valorizando a violência que por vezes ocorre em portas ao lado; destacou um bebê caindo da janela por pura negligência; e dedicou-se a uma narrativa recheada de sexo explícito.
Na quinta-feira, o mais novo filme do dinamarquês, A casa que Jack construiu, estreia no Brasil. Com cenas que retratam variadas formas de tortura, a expectativa é de mais polêmica no horizonte.
Expulso de Cannes em 2011 após dizer-se nazista - declaração a qual ele descreveu como piada e pela qual se desculpou -, von Trier voltou ao festival francês neste ano, exibindo seu novo projeto em seleção fora de competição. Relatos da ocasião reforçam que é mais um título do qual é difícil ficar indiferente: cerca de 100 pessoais saíram ainda durante a sessão, enquanto outras aplaudiram a obra ao seu término.
A casa que Jack construiu é a história de um serial killer dos anos 1970. Interpretado por Matt Dillon (de Crash: no limite e Quem vai ficar com Mary?), Jack mata, de preferência mulheres, e faz parte do clã dos assassinos intelectuais, que falam de história da arte com a segurança de professores universitários.
O próprio filme é cheio de referências culturais, como a recorrente cena documental do pianista canadense Glenn Gould interpretando uma peça de Bach. Gould, todos sabem, gostava de entoar as vozes da melodia enquanto as executava ao piano. Tornou-se o próprio ícone da perfeição em matéria de arte, em especial por sua leitura das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach.
Bem, as imagens repetidas de Gould indicam que Jack busca nada menos que a perfeição. É assim com a tal casa que constrói e que dá título ao filme. Num lugar afastado, à beira de um lago, ele compra um terreno, desenha diversas plantas e começa a construção. Interrompe a obra várias vezes e manda demolir o que já havia sido feito porque não se dá por satisfeito. É uma imagem. A construção do mundo perfeito sempre falha. E quem não suporta a imperfeição sofre muito.
Jack define-se como um assassino com transtorno obsessivo-compulsivo, maníaco com limpeza e com a sutileza da morte que inflige às suas vítimas. Estas são mostradas, uma após a outra, com todos os detalhes e com o tempo necessário para que sejam "fruídas". Pois esta é a impressão que fica: a de que o assassino sente intenso prazer em aterrorizar, depois liquidar as vítimas e, claro, partilhar esse gozo com o espectador através de uma suposta cumplicidade sádica.
O impulso da provocação às vezes parece prejudicar a arte de von Trier e levá-lo por caminhos sem saída, tanto do ponto de vista estético como ético. Sua tentativa de compreensão da presença do mal no mundo às vezes resvala para uma complacência com o próprio mal. Talvez revele mesmo, no fundo, admiração pelo perverso. Essa tentação fáustica mal sublimada pode ser um limite para o artista dinamarquês, como já foi para outros.
O roteiro foi escrito pelo próprio diretor, com base em uma ideia de Jenle Hallund, que já havia colaborado com o cineasta em seus dois filmes anteriores. Já o elenco principal do longa-metragem inclui artistas como Uma Thurman, em uma nova parceria com o diretor após Ninfomaníaca; Riley Keough, de Ao cair da noite; Sofie Gråbøl, estrela da televisão dinamarquesa; e o suíço Bruno Ganz, o Hitler de A queda (2004).
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