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Reportagem Cultural

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Notícia da edição impressa de 19/10/2018. Alterada em 15/07 às 10h01min

Os caminhos e lugares de João Gilberto na Porto Alegre de 1955

Músico baiano viveu alguns meses na capital gaúcha antes de se consagrar com o ícone da Bossa Nova

Músico baiano viveu alguns meses na capital gaúcha antes de se consagrar com o ícone da Bossa Nova


PATRÍCIA HAUBERT/ARQUIVO/JC
Marcello Campos*
Vou te contar: em 2018, a celebridade mais reclusa do País voltou à pauta, não apenas em melancólicas reportagens sobre a sua interdição por familiares, aos 87 anos. A realidade é que o cantor e violonista que seis décadas atrás revolucionou a música popular brasileira também foi tema de Onde Está Você, João Gilberto?, documentário no qual um diretor franco-suíço refaz os passos percorridos em 2011 por um jornalista alemão em busca do ídolo praticamente inatingível.
Com visitas ao Rio de Janeiro e Diamantina (MG), escalas do jovem artista em sua fase pré-bossa nova, ambas as narrativas acabaram deixando de fora não apenas Salvador e Juazeiro, cidade natal do gênio baiano, mas também Porto Alegre. E sem ela não pode ser: afinal, um certo “Joãozinho” de 20 e poucos anos, cheio de charme, talento, sensibilidade e esquisitices, encontrou milhões de abraços e carinhos sem ter fim durante os meses em que fez da capital gaúcha de 1955 um porto para o seu barquinho quando o coração batia no fundo do peito, quase calado.
Esse amor não é inventado, foi negócio bem bolado. No verão de 1955, um baiano chamado João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, 23 anos e meio, vivia um inferno astral no Rio de Janeiro, onde desembarcara em 1949 para tentar a vida artística. Apesar das passagens por rádios, boates e gravadoras (sua voz a emular Orlando Silva e Lúcio Alves rendera meia-dúzia de discos de 78 rotações), Joãozinho andava “no desvio”: a três anos da bossa nova que ele próprio ajudaria a criar, as portas vinham se fechando devido à falta de perspectivas de carreira, à intensa concorrência e a um comportamento excêntrico – incluindo o uso da maconha.
Coisas que só o coração pode entender. Principalmente o de bonachões como o porto-alegrense Luiz Telles (1915-1984), radicado no Rio e líder do Quitandinha Serenaders, quarteto vocal especialista em canções nacionais e estrangeiras. Preocupado com o declínio emocional e financeiro de João, que conhecera em 1953, ele já o hospedava “de favor” no seu apê em Copacabana e, desfeito o conjunto, convenceu o amigo, 16 anos mais novo, a passar uns tempos com ele na capital gaúcha, onde teria muita calma para pensar e tempo para sonhar.
Que coisa linda, que coisa louca. “Matriculado” por Telles em um dos 180 quartos do Hotel Majestic (cujo prédio daria lugar à Casa de Cultura Mario Quintana em 1990), João iniciou em janeiro de 1955 um exílio de sete ou oito meses – a cronologia é dissonante. “Dessa descida solitária aos seus próprios infernos, que continuaria por Diamantina, Salvador e Juazeiro até a volta para o Rio em 1957, João Gilberto emergiria fortalecido”, resgata o jornalista Ruy Castro em Chega de saudade, o mais completo livro sobre a bossa nova.
O amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais. Enquanto Telles cuidava de sua vida de compositor, representante de sociedades de direito autoral e pesquisador de tesouros enterrados), o “afilhado” praticava o seu violão e convivia com funcionários do hotel, jornalistas, boêmios e outros músicos, deixando um rastro de lembranças sobre um rapaz exigente e meio esquisitão, mas que esbanjava talento, generosidade ao circular sem compromisso pelos lados A e B da pequena metrópole.
Isso é bossa nova, isso é muito natural. Em seu roteiro, o baiano-carioca apresentado como “cantor de rádio do Rio de Janeiro” cantou e tocou em emissoras, restaurantes (Treviso, Farolito), residências grã-finas, boate Cote D’Azur e clubes sociais (Comércio, Leopoldina Juvenil) ou privês, como Clube da Chave, a famosa agremiação etílico-cultural do poeta Ovídio Chaves (1910-1978) em uma cidade cuja noite vivia a transição entre a fase áurea dos cabarés e chegada triunfal das boates na década seguinte.
“Houve uma vez em que eu e uns amigos resolvemos fazer uma vaquinha para tirar o João da dureza. Ele ganhou um maço de notas e, minutos depois, deu tudo a um mendigo, dizendo que o coitado precisava mais do dinheiro”, contou a este repórter o radialista Paulo Deniz (1939-2007), dois anos antes de falecer. Outra figura da turma, o violonista Raul Lima (1924-2015) citava uma noite em que João olhava compenetradíssimo para um pauzinho de fósforo, murmurando pensamentos de que um dia aquele objeto tão singelo havia sido uma árvore.

Ho-ba-la-lá!

Procurou um caminho e seguiu. Ao idealizar o documentário Onde está você, João Gilberto? (2018), o diretor franco-suíço Georges Gachot se limitou a reprisar os passos do jornalista alemão Marc Fischer em sua vã tentativa de encontrar o ídolo no Rio de Janeiro - saga que gerou o livro Ho-ba-la-lá (2011), lançado pouco tempo após o suicídio do autor. "Fischer mencionou Porto Alegre, mas não conheço os detalhes, pois busquei apenas as pessoas que ele encontrou", admite Gachot. "Só estive na cidade em 2012, para um show de Maria Bethânia."
Tim-tim por tim-tim, o exílio temporário não se limitou às horas de ensaio e reflexão no Majestic ou às solas gastas na noite. Luiz Telles o apresentara, no Rio, ao advogado gaúcho Alberto Fernandes, que, ao reencontrar João em Porto Alegre, o levou à casa da mãe, Maria Adelaide Regina Fernandes (1908-1994), no bairro Cidade Baixa. Eventual colunista de imprensa, "Dona Boneca Regina" fazia de seu lar um entra e sai de gente ligada à cultura, a começar pela família: casada com um crítico de arte, ela era também prima da esposa do jornalista Nilo Ruschel, cujo irmão Alberto integrara o Quitandinha Serenaders.
Fundamental é mesmo o amor. Distante dos pais Dona Patu e Seu Juveniano e dos cinco irmãos desde que deixara a Bahia, Joãozinho desenvolveu com Dona Boneca uma relação maternal que veio para ficar por toda a vida. Até uma festa-surpresa ele ganhou de sua "família gaúcha", na noite de 10 de junho, com direito a bolo pelos 24 anos. O homem que entraria para o folclore do showbizz por girar a maçaneta para pouquíssima gente era recebido com portas, braços e bolsos escancarados: minimalista não só em sua arte, ele também contava com os amigos para aliviar pindaíbas ou adquirir um violão melhor.
E como se procurassem um trevo naquele jardim, a sua voz e o seu violão ainda encontraram em uma das peças da casa 136 da rua Sofia Veloso uma ótima acústica para aperfeiçoar algo em gestação e que dali a três anos colocaria definitivamente a música brasileira no mapa-múndi. "João era um amor de pessoa e aparecia com frequência, tocando na cozinha por várias horas", relembra Malu Pederneiras, neta da anfitriã e que se tornou cantora, incluindo o CD Acaso (2008). Adolescente na época, ela viveu nesse endereço até 1971, já casada com o músico Geraldo Flach (1945-2011).
Até sorrir, até chorar, Dona Boneca também era prima de Dalva, cujo marido, o professor do Instituto de Artes e compositor erudito Armando Albuquerque (1901-1986), logo passaria a ter a campainha tocada por João para trocas de impressões sonoras nas tardes de sábado. O agora centenário piano alemão Zeitter & Winkelmann que testemunhou esses encontros continua na casa 607 da rua Lopo Gonçalves, no mesmo bairro, agora ocupada pelo caçula Alberto, 67 anos. "Eu e minhas duas irmãs não podíamos entrar na sala quando havia visitas", explica o representante comercial, diante do instrumento do pai, que em 1985 lançou o LP Mosso (RBS/Som Livre).
"Um vinha de Caymmi, o outro rebatia com Debussy. Um ensinava um truque no violão, o outro dava aulas informais de harmonia", afirma o músico e jornalista Arthur de Faria. Esse intercâmbio teria exercido influência direta na bossa nova? Para o pianista e professor Celso Loureiro Chaves, discípulo de Armando, a resposta é curta: "Não". Já Ruy Castro abre o leque: "Quem sabe? A cabeça dele já estava a mil, mas a batida nasceu mesmo em Diamantina, embora a cidade nada tivesse com isso. Se João Gilberto estivesse na Lua, seria a mesma coisa".
Quanta gente por aí, que fala e não diz nada... Muito já se disse do impacto pessoal e musical daquele forasteiro nos meses em que se tornou um dos 400 mil habitantes da Porto Alegre de 1955. Não faltam relatos, por exemplo, a sugerir que muitos boêmios aderiram ao sotaque arrastado e às intrincadas elucubrações filosóficas de João. Exagero? Talvez. Exceto por uma apresentação na Rádio Gaúcha e, apesar do convívio com jornalistas como Cândido Norberto, até onde se sabe a sua presença não motivou mais que uma notinha no Última Hora de 17 de abril sobre uma apresentação no Clube do Comércio.
Podem mesmo imaginar, espalhar o que melhor lhes parecer. O fato é que, no início do segundo semestre, o sinal de alerta acendeu para Telles ao ver o seu protegido já marcado na paleta por lendas como a de que deixava cascas de bergamota sob a cama do quarto no Majestic para atrair a companhia das formigas. Hora de bater em retirada, antes que tudo virasse um samba de uma nota só. Detalhe: ao ser procurado por este jornalista em 2004, o próprio João mandou um recado por sua empresária: "Lamento que essas histórias sejam mentiras".

Endereços de João na Capital gaúcha

  • Hotel Majestic (Rua dos Andradas, 736) - Um dos tradicionais hotéis do Centro, o Hotel Majestic (1933-1980) teve em "Joãozinho" praticamente um inquilino durante vários meses de 1955. Nesse período, ele fez de um dos 180 quartos do edifício um espaço para praticar violão, refletir sobre a vida e conquistar a simpatia dos funcionários, compensando com charme, talento as eventuais esquisitices. Desde 1990, o local abriga a Casa de Cultura Mario Quintana, em homenagem ao poeta que também viveu ali.
  • Casa de Dona Boneca Regina (rua Sofia Veloso, 136) - Levado por um amigo ao sobrado no cotovelo da pequena rua do bairro Cidade Baixa, o futuro cofundador da bossa nova encontrou uma "família adotiva", mas também uma cozinha de ótima acústica para a prática de seus acordes. Já famoso, retornaria ao local em 1960, de violão a tiracolo, para apresentar a primeira esposa, Astrud Gilberto. O imóvel, que preserva a fachada e parte de seu interior, emoldura desde 2011 um pequeno prédio de apartamentos.
  • Sobrado de Armando Albuquerque (rua Lopo Gonçalves, 607) - Diversas foram as tardes de sábado em que o compositor, pianista e professor Armando Albuquerque recebeu o jovem baiano em sua casa de dois andares, próxima à Travessa dos Venezianos (também na Cidade Baixa), para longas trocas de figurinhas sobre música. Cinco anos após deixar a cidade, João voltaria a tocar a campainha. O piano que testemunhou os encontros continua na sala, preservado por um filho do maestro.
  • Clube da Chave (rua Castro Alves, 618) - Em um período de transição entre a fase áurea dos cabarés e a chegada das boates que tomariam conta da cena noturna da capital gaúcha, João cantou e tocou em restaurantes, casas grã-finas, clubes sociais e privês. Um deles foi o Clube da Chave, o célebre ponto de encontro etílico-cultural fundado em 1953 por Ovídio Chaves (ao lado), um dos reis da noite na época. A agremiação mudaria de endereço outras duas vezes, até pedir a conta no final da década de 1950.
     

Chega de saudade

Da janela vê-se o Corcovado. Precisando voltar para o Rio, Telles não queria deixar João em Porto Alegre, mas também achava cedo para devolvê-lo à Cidade Maravilhosa, temor que se confirmaria em um mês, com o pupilo perdido de novo. Convencido a procurar a irmã Dadainha, moradora de Diamantina (MG) desde o casamento com um engenheiro, Joãozinho teve mais oito meses para reorganizar as ideias em um lugar ainda mais tranquilo que Porto Alegre - e com um banheiro de acústica tão boa quanto a da cozinha de Dona Boneca.
Lá na curva o trem apita. Se João evoluía em voz e violão, também persistiam as esquisitices, motivando o casal a levar o hóspede para Juazeiro (BA), em junho de 1956. Nos dois meses de visita aos pais, as suas novidades sonoras não agradaram nem mesmo a Seu Juveniano, músico amador e incapaz de assimilar o minimalismo do baião Bim, Bom - lado B do 78 rpm de Chega de saudade, em 1958. Joãozinho estaria lelé? Na dúvida, o primo e médico Dewilson ficou encarregado de acompanhá-lo a Salvador para exames psiquiátricos.
No final, não deu em nada. De volta a Juazeiro e depois a Diamantina para um beijo na mana, logo veio o reencontro com o Rio, na companhia do amigo baiano Jorge Amintas Cravo, o “Cravinho”, crítico musical. O caminho a partir dali, com antigos e novos personagens e endereços, nem sempre seria fácil ou feliz. Mas, como a gota de orvalho numa pétala de flor, que brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor, em breve João Gilberto estaria pronto para o mundo.
Até o apagar da velha chama, os amigos porto-alegrenses recebiam quilométricos telefonemas de João Gilberto. Alberto Fernandes, o único sobrevivente da turma, reside aos 91 anos em um apartamento na rua Duque de Caxias, no Centro Histórico. Luiz Telles chegou a viajar como convidado VIP na primeira turnê do artista pelos palcos de Portugal, em 1984, falecendo meses depois. E com Dona Boneca a relação se manteve próxima, inclusive como acompanhante em aviões, táxis, aeroportos, hotéis, camarins e restaurantes Brasil afora.
"Ou então ela ia ao Rio apenas para ficar mais perto dele, em seu apart-hotel", relata o jornalista baiano Paulo César de Araújo no livro de crônicas O réu e o rei (2014). O último capítulo dessa cumplicidade foi testemunhado pelo autor, que, em julho de 1993, embarcou com "mãe e filho" num doce balanço a caminho de Salvador e esteve com a velhinha de sotaque gaúcho em um shopping, na compra de barbeador e sapatos para um Joãozinho já sessentão. O mundo sorrindo se enche de graça e fica mais lindo por causa do amor.
 

Um barquinho na cidade baixa

Só privilegiados têm ouvido igual ao de quem assistiu o artista de violão apoiado na perna direita sobre uma cadeira na Leopoldina Juvenil em 11 de junho de 1960. "O som da voz bonita de João Gilberto encantou uma plateia animada no clube elegante do Moinhos de Vento", registrou o Última Hora.
A viagem também serviu para rever amigos e apresentá-los à cantora baiana Astrud Gilberto, com quem João se casara um ano antes. A visita a Dona Boneca, no estilo "um cantinho e um violão" não ficaria registrada só na memória da família: um pequeno gravador de fita-rolo faria a sua parte durante 15 minutos, tal como uma Rolleyflex sonora a revelar a sua enorme gratidão na sala de estar de um sobrado na Sofia Veloso, cujo formato de "L" liga a Rua da República à Lima e Silva.
>> VÍDEO: Jornalista mostra rara gravação de com João Gilberto
O áudio tem improvisos e conversas. Quem acionou a tecla REC capturou cinco bossas em voz e violão: Samba do avião (Tom Jobim); Morena Boca de Ouro (Ary Barroso); Canta canta mais (Tom e Vinicius de Moraes); Outra vez (Tom); e Acalanto (Dorival Caymmi) - a primeira e a terceira jamais gravadas por ele. Tudo culmina em uma canção de ninar avisando à pequena plateia que já é hora de dormir. Eis um "pocket show" de João Gilberto na Cidade Baixa.
Protegido por Dona Boneca, o material só seria veiculado integralmente em 1968, na Rádio Cultura de Porto Alegre, quando o jornalista Vanderlei Cunha o colocou para rodar em seu programa Domingo & Arte. Hoje, aos 70 anos, o veterano mantém em seu acervo uma cópia, já que o paradeiro da fita original é desconhecido desde a morte de sua guardiã. E ele a compartilha, gentil a ponto de pedir desculpas por acender um cigarro durante a audição.
João também revisitaria Armando Albuquerque. Um desses reencontros foi testemunhado pelo adolescente Celso Marques, vizinho da rua Lopo Gonçalves e hoje um monge zen-budista de 74 anos: "João estava com Astrud e falava 'pelos cotovelos' sobre música, João Donato, poesia etc., muito diferente da imagem introspectiva que se tem dele. Lembro que ele vestia um pulôver igualzinho ao da capa de Chega de Saudade e, assim que a porta se abriu, foi direto afagar um gato da casa".

Dois shows antológicos

Céu tão azul, ilhas do Sul. Depois do recital de 1960 no Leopoldina Juvenil, João Gilberto só voltaria a se apresentar em Porto Alegre em outras duas noites antológicas: 18 de outubro de 1996, no Auditório Araújo Vianna, e 23 de novembro de 2001, no Teatro do Sesi. Ambos entrariam para a história cultural de uma cidade que dorme tarde e, se for preciso, é capaz de madrugar para garantir a rara chance de ver e ouvir de perto o filho adotivo e mito universal da música.
No primeiro desses dois shows, uma longa fila se formou para a retirada individual de até dois tickets gratuitos (cortesia da prefeitura, que desembolsara R$ 50 mil e apelos saudosistas para convencer João) de um lote de 1,6 mil que se esgotaria em uma hora, motivando um protesto desafinado de mil vozes sem ingresso na avenida Osvaldo Aranha. Diante de 3 mil catatônicos ouvintes, João compensaria os 70 minutos de atraso com uma exibição à altura das manchetes sobre "o espetáculo do ano".
O mau tempo e as dúvidas de João sobre a qualidade sonora da casa quase o haviam feito levar o barquinho de volta para casa, contribuindo para a tensão no camarim - um dos organizadores observou que o músico lavava repetidamente as mãos após cumprimentar o pessoal. Uma vez em cena, porém, foi luxo só: três dezenas de clássicos, incluindo uma versão de Chove lá fora (Tito Madi) em versão surround com os pingos que caíam sobre a lona do recém coberto auditório.
Aos poucos, o João nervoso das quatro primeiras músicas deu lugar a um astro mais solto e interativo a citar lugares e personagens da Porto Alegre boêmia de 1955 e atender a pedidos da plateia no bis (Carinhoso, Retrato em branco e preto), em duas horas de puro encantamento. "Entre uma música e outra, ele falou de antigos amigos locais, como os músicos do Conjunto Melódico Norberto Baldauf", relembra o jornalista Daniel Deiro, hoje assessor diplomático do Ministério das Relações Exteriores na China.
Quase tão memorável seria a noite de João no Teatro do Sesi em 2001, atrasado "apenas" 40 minutos. Com um prêmio Grammy pelo CD João, Voz e Violão (lançado no ano anterior), ele mesclou bossa nova, velha guarda e até um improviso instrumental para o Hino Brasileiro, além de um afago no público com Gauchinha bem-querer (outra de Tito Madi) e de duas pratas da casa: Prenda minha (domínio público) e Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues).
O motorista reservado para ele acabaria recompensado com um envelope na chegada ao aeroporto Salgado Filho. "Só abra quando chegar em casa", ouviu Seu Milton, sem imaginar o conteúdo - uma gorjeta de quase R$ 1 mil. Em 2005, ao refazer o mesmo trajeto com Bebel Gilberto, mandou um abraço a João ao notar que ela falava com o pai pelo celular. De pronto, o telefone trocou de mãos para um animado bate-papo com o músico.
Um terceiro show chegou a ser marcado para 25 de novembro de 2011, novamente no Teatro do Sesi, aproveitando o gancho dos 80 anos de João Gilberto. Mas um atestado de gripe, a falta de patrocínio e a baixa procura por ingressos impediriam que cariocas, paulistas, brasilienses e gaúchos voltassem a dizer "chega de saudade". Otávio Terceiro, braço-direito do artista, resumiria para o Jornal do Comércio: "Ele não faz espetáculo que não esteja 100%".

Discografia inicial

Chega de saudade
Chega de saudade
REPRODUÇÃO/JC
  • 1959 - Chega de saudade: estreia musical de João Gilberto. Lançado em março de 1959, foi mantido em catálogo por 31 anos consecutivos, até 1990. A faixa-título é de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
  • 1959 - Orfeu do Carnaval: aqui, João Gilberto canta sambas e canções da trilha sonora do filme homônimo. São quatro faixas: A felicidade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes); Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antonio Maria); O nosso amor (Tom Jobim e Vinicius de Moraes); e Frevo (Tom Jobim).
  • 1960 - O amor, o sorriso e a flor: com direção musical e arranjos de Tom Jobim, o disco contém Samba de uma nota só (Tom Jobim e Newton Mendonça); Se é tarde, me perdoa (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli); e Doralice (Dorival Caymmi e Antônio Almeida).
  • 1961 - João Gilberto: lançado pela Odeon, tem clássicos como O barquinho (Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli), Saudade da Bahia (Dorival Caymmi) e Insensatez (Tom Jobim e Vinicius de Moraes).
*Marcelo Campos é formado em Jornalismo e Publicidade e Propaganda (ambas pela Pucrs) e Artes Plásticas (Ufrgs). Tem quatro livros já publicados, incluindo a biografia de Lupicínio rodrigues e do Conjunto Melódico Norberto Baldauf. Há mais de uma década, dedica-se ao resgate de fatos, lugares e personagens porto-alegrenses.
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Comentários
Ronaldo Lubianca 23/10/2018 18h26min
Maravilhosa matéria e deliciosa leitura,por mais jornalismo de cultura,com conteúdo e qualidade. Realmente uma jóia de texto .
Dilma guimaraes 23/10/2018 11h45min
Que sensibilidade de texto,que maravilha de materia,em tempos parcos,isto é uma luz no fim do túnel.Parabéns.
Marcelo Villas BÔas 19/10/2018 10h16min
Que materia deliciosa do Marcello Campos. Uma mistura de reportagem com literatura, estilo tão adequado ao autor. Parabéns e obrigado por essa leitura deliciosa.