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Porto Alegre, sexta-feira, 14 de setembro de 2018.
Aniversário da cidade de Viamão.

Jornal do Comércio

Cultura

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reportagem cultural

Edição impressa de 14/09/2018. Alterada em 13/09 às 21h54min

A dama do jazz: Ivone Pacheco revolucionou a música boêmia de Porto Alegre

Pianista criou o lendário Clube de Jazz Take Five, reduto do ritmo na capital gaúcha

Pianista criou o lendário Clube de Jazz Take Five, reduto do ritmo na capital gaúcha


EDUARDO SEIDL/DIVULGAÇÃO/JC
Vitor Necchi, especial para o JC
Na casa de Ivone Pacheco, 85 anos, o jazz aparece logo que alguém se aproxima do portão. Não se trata do gênero musical, embora fosse possível cogitar algo assim, pois, no porão do sobrado da rua Dario Pederneiras, no bairro Petrópolis, funciona, há 36 anos, o Take Five Clube de Jazz. A recepção é feita por um simpático e saltitante cachorro de cerca de quatro anos batizado de Jazz. Não poderia haver nome mais certeiro para o animal adotado pela mulher cujo apelido sintetiza um tanto de sua trajetória: Dama do Jazz de Porto Alegre.
A música impregna sua vida desde a infância, quando se aventurava no piano do hotel que pertencia ao pai e onde a família morava. Ela começou a estudar o instrumento cedo, casou aos 27 anos, cuidou da casa e dos filhos, fez faculdade e lecionou no magistério estadual, mas o sentimento de incompletude desordenava o pensamento e a impelia a querer mais.
O Take Five nasceu a partir de uma revolução que Ivone traçou para si mesma. Aos 50 anos, com os filhos já criados, foi viver as possibilidades do jazz. Descobriu a noite e seus palcos, a promessa oferecida por um piano sem dono e o roteiro dos bares e teatros. Mais do que isso, reuniu em torno de si uma gurizada de 20 e poucos anos que a estimulava a tocar e se empolgava com seu jeito de fazer música.
Quando a sala da casa ficou pequena para tanta vibração, teve uma ideia que transformou sua vida e a cena cultural da cidade. Chamou os rapazes da sua turma e pediu que carregassem o piano até o porão. Aí o boca a boca próprio de um tempo em que não havia internet espalhou a novidade. Era abril de 1982, e surgia o Take Five.
"Quando Ivone Pacheco desceu o piano da sala para o porão e abriu sua casa para que instrumentistas, amigos e desconhecidos curtissem com ela a música chamada jazz, teve início uma pequena revolução cultural na capital gaúcha", avalia o jornalista Roger Lerina.
O improviso, tão natural ao mundo do jazz, pautou a organização do novo espaço. Um amigo chamava outro que chegava com mais um que convidava outro. Assim, a rede se formou. Ivone nunca revelava o endereço por uma razão prosaica: queria reunir apenas os músicos mais próximos. Mas a cidade, sempre tão carente de novidades, logo descobriu que algo especial ocorria no porão onde instrumentistas e cantores se encontravam.
O cuidado gerou um mistério: só participava quem conhecia o endereço ou era amigo de alguém que detinha a informação. Nascia mais uma lenda porto-alegrense, e lendas têm vida própria. Se, no início, Ivone queria formar uma pequena roda em torno do piano, em um ano, os amantes do jazz lotavam não apenas o porão, mas o amplo pátio.
Houve madrugadas em que o Take Five atraiu cerca de 300 pessoas. Houve noites que terminaram às 6h. "Ivone Pacheco é uma personagem marcante, histórica mesmo, da vida musical de Porto Alegre", resume o jornalista e crítico musical Juarez Fonseca.
Na trajetória que inventou para si a partir dos seus 50 anos, Ivone tocou escaleta nas ruas e no metrô de Nova Orleans e de Nova Iorque, onde ainda faturou uns trocos que os passantes largavam na caixa do instrumento aberta no chão. O ponto alto das incursões no trem era quando tocava e cantava Garota de Ipanema.
Essa irreverência atenuou quando os 80 anos chegaram exigindo uma reconfiguração da vida da artista. Essa nova fase não teve o ímpeto e a ousadia de quando a professora de música resolveu subverter a previsibilidade da existência e se tornar, além de artista profissional, uma das mais conhecidas personalidades culturais da cidade e do Estado.
O novo ciclo começou sem data certa, nem anúncio. Foi gradual. Talvez nem ela tenha percebido de imediato os lapsos. Um compromisso que se perdeu no emaranhado do dia, uma fisionomia que ficou sem nome ou histórias que se tornaram turvas na memória, que se dissiparam no vão do esquecimento.
No meio da bruma que embaralha lembranças, há algo que costuma se sobressair. Na gélida tarde de 25 de agosto passado, Ivone desceu até o porão. Cada passo nos degraus tinha o amparo de uma das suas cuidadoras e da filha Rosa Maria. A Dama do Jazz sorriu, não se conectou às perguntas da reportagem, sentou à frente do piano e tocou. Não foi uma, nem duas. Interpretou várias músicas sem partitura, sem esforço.
O neurologista que a trata disse para a família que, a cada dois idosos com 80 anos, um desenvolve demência senil. O pêndulo da probabilidade escolheu Ivone. Uma tolice do destino - mal sabia que os feitos dela não cabem mais no porão, mal sabia que há uma legião de parceiros e admiradores a perpetuar o legado da mulher que cravou Porto Alegre no mapa do jazz.
O médico disse que a última coisa que Ivone vai parar de fazer é tocar. Se a memória garante a eternidade, e se a memória é um processo coletivo, a história de Ivone nunca acabará. Essa história, inclusive, tem trilha. Também dispõe de uma intérprete que nunca esquece da música.

Revolução aos 50 anos

Desde cedo, Ivone tocava piano, gaita e escaleta e ouvia discos de jazz, samba e canções francesas

Desde cedo, Ivone tocava piano, gaita e escaleta e ouvia discos de jazz, samba e canções francesas


JACQUELINE JONER/DIVULGAÇÃO/JC
O pai de Ivone Pacheco, Cyrillo, era natural de Santa Maria. Veio para Porto Alegre e trabalhava como garçom do Hotel Presidente, na avenida Salgado Filho, que pertencia a um tio. Acabou se tornando proprietário do estabelecimento, casou com Maria Rosa, e ambos tiveram duas filhas: Ivone, que nasceu em 11 de outubro de 1932, e Yolanda, dois anos mais moça.
Ele comprou outro hotel, o Metrópole, na rua General Andrade Neves, e nele passou a morar com a família em 1936. Ivone logo começou a dedilhar o piano, chamando a atenção dos hóspedes, que sugeriam que ela aprendesse música. Aos oito anos, passou a ter aulas particulares de piano. Aos 12, arriscava harmonias jazzísticas, mas a rígida professora dava uns tapas nas mãos da garota a cada tentativa de improviso. Depois, estudou acordeão e piano com o maestro italiano Ângelo Crivellaro, fundador do Liceu Musical Palestrina.
Em 1947, a família comprou um sobrado recém-construído na rua Dario Pederneiras. No novo endereço, estreava também um piano. Naquele ano, a mãe de Ivone morreu. A residência era afastada do Centro. No entorno, havia basicamente chácaras, então Cyrillo decidiu que voltariam a viver no hotel. Ivone morou no estabelecimento até os 27 anos, quando casou com Flávio, dois anos mais velho. Ambos se mudaram para um apartamento perto do Metrópole. Nos anos 1970, o casal e seus filhos - Santina, Rosa Maria e Flávio - se fixaram na mesma casa de Petrópolis.
Uma intensa vida social movimentava o sobrado. Os Pacheco eram tão festeiros que o marido de Ivone transformou o porão em uma discoteca para os filhos adolescentes, instalando luzes especiais e piso de vinil. Os três tiveram iniciação musical - Flávio na bateria, Santina no violão e Rosa no piano -, mas nenhum prosseguiu na música. "Talvez pensássemos que nunca faríamos igual, e a artista sempre foi ela", reflete Rosa, que costuma cantar no Take Five. "A mãe era maravilhosa interpretando Lupicínio Rodrigues e Piaf", lembra. Sempre teve música na casa. Fosse Ivone tocando piano, gaita e escaleta ou ouvindo discos de jazz, samba, tango, bolero e canções francesas. Entre as preferências estavam Summertime e canções das divas do jazz.
Ivone dedicava-se com afinco e minúcia à família. Era muito falante, participativa e debochada. "Agitava a discoteca dos filhos, animava os churrascos, mas também tinha um lado forte de mãe castradora", comenta Rosa. Ao mesmo tempo em que era intensa no ambiente familiar, se mostrava contida para o mundo: "Dependeu muito da vontade do pai dela e depois do meu pai".
Eles nunca se separaram oficialmente, mas, nos anos 1980, Flávio começou a permanecer mais tempo na fazenda que administrava no município de Triunfo, a 75 quilômetros de Porto Alegre, e que pertenceu ao sogro. "O pai vinha toda semana, almoçava conosco, mas ficava na fazenda, e a mãe tocava a vida dela", conta. "Não houve ruptura, sempre estiveram próximos."
A revolução de Ivone começou aos 50 anos. "Foi aí que se tornou uma artista e descobriu a noite. O marido escolheu ficar na fazenda, e ela resolveu fazer um clube de jazz." Flávio faleceu há 12 anos. Durante o período em que ficou hospitalizado, Ivone o acompanhou, juntamente com a nova mulher dele.

Ivone Pacheco & convidados

Em 2000, Ivone Pacheco gravou um disco no estúdio Focus, de Marcos Ungaretti. No álbum, ela cantou e tocou piano e concertina. Teve a participação de Ramiro Kersting e Luciano Kersting no trompete.
Músicas:
  • Smoke gets in your eyes
  • Rêve d'amour
  • As time goes by
  • Misty
  • Manhattan
  • Star dust
  • It had to be you
  • El cubanchero
  • Speek low
  • Roses, roses
  • La vie en rose
  • Menilmontant
  • Que reste-t-il de nos amours?
  • Dance avec moi
  • Les feuilles mortes

O piano vai para o porão

Ivone ingressou no curso superior do Liceu Musical Palestrina a partir de uma provocação. A sua irmã, Yolanda, disse que ela não podia só ficar casada, cuidando dos filhos. A Dama do Jazz se formou em 1971. "Foi a primeira virada", observa a filha Rosa. "Antes era a mãezinha dona de casa, que tinha que ter comida no horário certo, manter a casa limpa e organizada."
Yolanda seguiu estimulando Ivone que, com 48 anos, ingressou mediante concurso no magistério estadual. Ao mesmo tempo, ampliava suas possibilidades. A vida artística começou mais tarde - com os filhos crescidos, sentiu-se confortável para assumir: "Agora, vou cuidar de mim".
Em 1981, ela tocava piano no restaurante da colônia de férias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em Tramandaí, no litoral gaúcho. Sua performance fisgou a atenção do músico Marcos Ungaretti, na época com 19 anos, que perguntou onde Ivone costumava se apresentar. "Apenas em casa", respondeu. E foi nesta casa que ele e seus amigos músicos passaram a ir todos os fins de semana para ouvi-la.
Ivone teve a ideia de criar o Take Five e, em duas tardes, transformou o porão do sobrado no mais famoso e secreto clube de jazz de Porto Alegre. A inspiração para o nome veio da música homônima de Dave Brubeck que, conforme Ivone alegava, era a preferida dos amantes do jazz. Há um outro motivo: "take five" é a expressão usada nos Estados Unidos para avisar a plateia que ocorrerá a troca de grupos no palco. Algo como "voltamos em cinco minutos".
Ela não queria nada comercial e pretendia fugir do convencional. Capas de disco, fotografias, pôsteres e quadros revestiram as paredes pintadas de preto. No teto, spots. Além do piano, móveis antigos da casa também foram acomodados no espaço. A primeira edição do Take Five aconteceu em abril de 1982. Participaram cerca de 25 pessoas, mas, em um ano, a fama do clube se espalhou.
Na década de 1980, os encontros ocorriam todos os fins de semana. "Naquele período, eu era anticlube do jazz", admite Rosa. "Se ela queria fazer um clube de jazz, que fizesse. Se ela pirou - para nós, ela tinha pirado -, eu ia fazer as minhas coisas." Hoje, Rosa considera o Take Five um irmão mais novo: "Tenho 57 anos, ele tem 36".
Ivone tratava de todos os detalhes, incluindo a divulgação. O jornalista e crítico musical Juarez Fonseca, que, nos 1980, era editor de Cultura do jornal Zero Hora, conta que um dia chegou à sua mesa uma senhora que não conhecia, pedindo para divulgar uma reunião do clube de jazz dela. "Clube de jazz?", perguntou. "Sim. Sou Ivone Pacheco, pianista, criei um clube de jazz em minha casa e já tem vários músicos e frequentadores. Podes divulgar a próxima reunião? Só peço que não divulgues o endereço." O editor, surpreso, indagou: "Como assim não divulgar o endereço?". E ela apenas reafirmou a lenda: "Quem ler a notícia, saberá a senha".
Havia duas alas no Take Five, dizia Ivone: os coroas, que chegavam cedo para se acomodar nas cadeiras, e os magros, que apareciam mais tarde e se esparramavam em almofadas. Muitos grupos se formaram nesses encontros. Um dos magros era Marcos Ungaretti: "Conheci a Ivone antes do Clube de Jazz. É minha segunda mãe. Ensinou muita coisa para bastante gente através do exemplo dela. Uma pessoa autêntica".
Aos poucos, "essa personalidade única da cena musical de Porto Alegre", conforme define Fonseca, se tornou muito conhecida, apresentando-se desde bares até o Theatro São Pedro. A notoriedade alcançada pelo clube era indissociável de sua criadora, então ela tocou também no Interior e em outros estados. A irmã de Ivone achava que ela precisava conhecer os clubes de jazz de Nova Orleans e planejou uma viagem para lá. Quando entraram no primeiro bar, Ivone exclamou: "Pô, esses caras me copiaram".
Yolanda era figura central na vida da Dama do Jazz, por isso a morte dela em um trágico acidente de carro, em 1985, provocou um grande baque para a irmã. Ivone estava no veículo e se feriu bastante. Depois de recuperada, contava emocionada que descobriu, durante a hospitalização, o quanto era amada. Os magros do clube iam visitá-la e torciam para que se recuperasse logo.
 

Um palco para todos

Instalado no porão de um casarão, Clube de Jazz Take Five surgiu em 1982

Instalado no porão de um casarão, Clube de Jazz Take Five surgiu em 1982


EDUARDO SEIDL /DIVULGAÇÃO/JC
Amadores, profissionais, iniciantes, experientes - todos tinham e têm vez no Take Five. "A humildade é uma das coisas mais incríveis que ela transmite. Nunca vi a Ivone desmerecer outro músico", conta Marcos Ungaretti. E por mais que fosse um clube de jazz, o palco era versátil e acolhia músicos de outras vertentes, entre eles os regionalistas Renato Borghetti e Elton Saldanha.
O clube ficou tão conhecido que se formava fila na calçada. Isso incomodou Ivone, que resolveu dar um tempo. Recomeçou nos anos 1990 com edições mensais. Nos anos 2000, a frequência se reduziu para três ou quatro encontros anuais. É neste ritmo que Rosa e seus irmãos mantêm a programação, mobilizando o público por meio de um grupo no Facebook.
Nas noitadas do Take Five, que chegaram a reunir até 300 pessoas no pátio, nunca houve problemas graves. Ivone estabeleceu algumas regras. Não gostava de álcool, portanto, oferecia apenas os sucos Tanjal e Lanjal. Não queria droga e cigarro, embora circulassem baseados no pátio. Por fim, exigia silêncio durante as apresentações. Com o tempo, músicos e convidados que desejavam beber relativizaram a lei seca imposta pela anfitriã e passaram a levar suas próprias bebidas.
Um dos músicos que se apresentam no Take Five é o maestro e pianista Renato Borba. Ele conheceu Ivone enquanto tocava em um shopping de Porto Alegre, em 2001. "Um dia, apareceu uma senhora de cabelos coloridos e uma alegria estampada no sorriso. Pediu que eu tocasse Summertime, uma das suas canções prediletas", lembra. Quando Borba terminou a peça, Ivone retornou e disse que também era pianista. Então, sem saber que falava com a Dama do Jazz, ofereceu o piano. "Arrebatou aplausos calorosos de todos que se calaram para ouvi-la", recorda.
Ivone convidou Borba para ir ao Take Five, mas, recém-chegado a Porto Alegre, ele não tinha ideia do que se tratava. Passados alguns anos, reencontrou Ivone na saída de um bar: "Você não é o pianista que tocava no shopping?". Disse que ele não poderia faltar à próxima reunião do Clube de Jazz, pois queria apresentá-lo aos seus amigos. Ele rumou ao endereço escrito em um pedaço de papel e, assim que desceu a rampa que dá acesso ao porão, ouviu os acordes do piano. Passou pela fogueira que ardia no pátio, entrou no espaço e descobriu Ivone abrindo a noitada. Quando assumiu o piano, estava sozinho. De repente, apareceu alguém na bateria, depois um baixista se juntou, mais um saxofonista e pronto: estava armado mais um encontro típico do Take Five.
Além de aproximar músicos, Ivone e seu clube apresentaram o jazz para mais de uma geração. "Sou testemunha e fruto do pioneirismo desse sarau: na primeira metade de uma década dividida entre os choques de modernidade trazidos pelo som punk e new wave e os ecos campeiros que chegavam com a explosão dos festivais nativistas, descobri, naquele clube semissecreto, a riqueza específica da cultura jazzística", lembra o jornalista Roger Lerina.
As últimas edições que Ivone organizou pessoalmente eram alusivas a datas especiais. Em abril, a festa de aniversário do clube. Nos meses de frio, a noite da fogueira, mantendo uma tradição iniciada pelo marido, que trazia da fazenda a lenha que queimava no pátio para os filhos e seus amigos. Em outubro, aniversário da Dama do Jazz. E, por fim, a festa de encerramento do ano, próximo do Natal.
Nos anos 2000, Rosa e seus irmãos passaram a ajudar na organização. Aos poucos, Ivone foi se desligando dos bastidores para se tornar apenas atração. Assim que começa a ouvir o movimento, se agita e pede para descer. Ninguém a segura. Quando aparece na escada, todos batem palmas. Senta em sua poltrona, e as pessoas vão beijá-la e fotografar. A Dama do Jazz sempre é a primeira a se apresentar, e se ficar até o final, a última.

Ivone Pacheco se reencontra com a música

Nos últimos anos, a rotina de Ivone Pacheco foi se adaptando às circunstâncias de sua idade avançada e condição de saúde mais fragilizada. Conta com o auxílio permanente das cuidadoras Rosa, Maria e Iná. A profissional escalada para o dia cuida basicamente da higiene e da alimentação. A acompanhante da noite precisa se manter alerta, pois Ivone às vezes acorda e quer cantar, preparar alguma viagem ou saber da família e dos namorados. O despertar durante as horas infinitas da madrugada é povoado pela música e pela família, pelos afetos reais e imaginários.
O jazz segue aceso em sua vida. Todos os dias toca o piano elétrico instalado na sala. Há um repertório previamente listado para orientar as cuidadoras, que indicam os títulos. Às vezes Ivone não reconhece, então passa para o próximo, e assim segue o sarau privado. Também há ocasiões em que decide ir ao porão, alegando que tem festa. Sempre é atendida. Lá estando, toca o seu piano.
Assim aconteceu no dia em que recebeu a reportagem. Surgiu vestida com um casaco e manta padronagem onça e boina. Desceu a escada acompanhada pela filha Rosa e por uma cuidadora. As perguntas da entrevista pouco sentido fizeram para ela. Depois de permanecer alguns minutos na poltrona instalada ao lado do piano, decidiu se apresentar.
"Toca La Cumparsita, mãe", falou Rosa, e Ivone começou a martelar as teclas com seus dedos repletos de anéis. Enquanto o tango se espalhava pelo porão, a filha pingava cera derretida nos candelabros de bronze presos ao piano para fixar as velas que ajudariam a compor o cenário do jeito que a Dama do Jazz aprecia.
"Toca agora Summertime." Rosa lembra que a mãe improvisava esse clássico de Gershwin durante quase 10 minutos. O baterista não sabia quando ela voltaria, mas acompanhava. Agora, ela executou apenas a melodia básica em não mais do que dois minutos. Mesmo assim, se mostrou decidida, iluminada pelas trêmulas chamas.
"Rêve d'Amour, mãe." Naquele momento, Ivone se agigantou. "Agora, La vie en rose." A cada peça, ela emergia do universo particular, das veredas difusas nas quais se perde, para, enfim, reencontrar-se no piano, expandir-se no porão que é seu, no porão que é palco, que é reino, que é Take Five.
 
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