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Reportagem Cultural

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Notícia da edição impressa de 24/08/2018. Alterada em 12/07 às 15h35min

São Borja: a cidade gaúcha protagonista na história política do Brasil

Pórtico emoldurado por fotos de Getúlio Vargas e João Goulart e cortado pela avenida Leonel Brizola

Pórtico emoldurado por fotos de Getúlio Vargas e João Goulart e cortado pela avenida Leonel Brizola


PATRIC ARANDA/DIVULGAÇÃO/JC
Rafael Vigna, de São Borja,especial para o JC
"Bem-vindo a São Borja, terra dos presidentes." A frase, escrita em letras garrafais, recebe os viajantes que chegam à cidade da Fronteira-Oeste do Rio Grande do Sul pelas BRs 287, 285 e 472. Emoldurada por painéis de Getúlio Vargas e João Goulart, cortada ao meio pela avenida Leonel Brizola, a inscrição também indica que, a partir do acesso ao município, todos os caminhos conduzirão os visitantes de olhar mais atento a uma jornada por períodos de efervescência política, moldados pelo protagonismo exercido por dois são-borjenses ilustres.
Adiante do pórtico principal emerge o município de 60 mil habitantes, semelhante a tantos outros, mas que se distingue dos demais pelo orgulho que seus moradores sentem ao rememorar a própria história. E não é para menos. São Borja é a terra natal de dois presidentes da República - por essa razão, foi colocada em definitivo no mapa político do País há pelo menos 90 anos. A importância política da cidade aumentou ainda mais com a adoção de São Borja pelo ex-governador gaúcho Leonel Brizola, casado com uma das irmãs de Jango, Neuza Goulart.
A partir do centro do município, as lembranças dos antigos políticos são preservadas em museus, monumentos e espaços públicos. São Borja abriga um museu dedicado a Getúlio Vargas - curiosamente, na mesma avenida em que funciona, também, o museu de Jango. Enquanto os restos mortais deste último estão no Cemitério Jardim da Paz, para Getúlio existe um mausoléu desenhado por Oscar Niemeyer. Há, ainda, bustos e outros locais de visitação, como a histórica Fazenda do Itu, na qual Vargas buscava refúgio longe das futricas do poder.
Nesta sexta-feira, data em que se completam exatos 64 anos da morte de Getúlio Vargas, ainda paira sobre o município - localizado a 586 km da Capital - uma mística capaz de atrair lideranças políticas de diversas correntes ideológicas.
Atualmente, os restos mortais de Brizola se unem aos de Getúlio e Jango como vetores de peregrinações anuais aos mausoléus das famílias Vargas e Goulart. O calendário de homenagens e celebrações aos três líderes que repousam em solo são-borjense é demarcado pelos dias 24 de agosto (morte de Getúlio, em 1954), 6 de dezembro (morte de Jango, em 1976) e 21 de junho (morte de Brizola, em 2004).
Boa parte desta história ganha sobrevida no cotidiano são-borjense - está inscrita nos museus, no inventário do patrimônio cultural da cidade, na nomenclatura de prédios públicos, nos logradouros, nas escolas, hospitais, bibliotecas e monumentos de São Borja.
Outra parcela significativa, entretanto, permanece escondida nos roteiros não oficiais e encontra em pessoas - que tomaram para si o papel de guardiões informais da época - uma via natural de preservação.

A lendária fazenda do Itu

Busto de Getúlio Vargas em frente à sede da propriedade, a 60 quilômetros 
de São Borja
Busto de Getúlio Vargas em frente à sede da propriedade, a 60 quilômetros de São Borja
PATRIC ARANDA/DIVULGAÇÃO/JC
Deposto em 1945, Getúlio Vargas se exilou na Fazenda do Itu, imensa propriedade rural da região. A fazenda da família frequentou o noticiário nacional ao longo de toda década de 1930. Lá, sempre que possível, o então presidente brasileiro passava Natais, feriados e se afastava - pelo menos, fisicamente - dos turbilhões do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
Já naquela época, a Itu possuía uma pista para pousos e decolagens de aviões. Durante os anos de afastamento do cenário político, uma das poucas aeronaves que aterrissaram ali trazia o então repórter dos Diários Associados Samuel Wainer - era o Carnaval de 1947. A visita inusitada resultou na célebre entrevista Voltarei nos braços do povo, largamente divulgada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.
O episódio recolocaria Vargas no páreo pela sucessão presidencial de Eurico Dutra e contribuiria com a sua eleição em 1950. Esta é apenas uma das histórias que tiveram a Itu como testemunha.
A fazenda, a 60 km de São Borja, pertence ao município de Itaqui. Nos fundos da sede, Alceu Nicola, o atual proprietário, indica para a reportagem a área onde ficava a pista de avião e dá início a uma tour que repete incansavelmente. A figura imponente do senhor de barbas brancas não esconde a hospitalidade, o zelo e o amor que nutre pela propriedade adquirida em 1996.
Aos 77 anos, o empresário e sócio-fundador do Grupo Nicola - uma rede de revenda de automóveis e motocicletas com negócios em 90 municípios gaúchos - chama para si a responsabilidade de preservar as lendas da Itu.
Dos 11 mil hectares, Nicola manteve apenas 27. "Não gosto da lida no campo, gosto de pescar, andar a cavalo e utilizar a fazenda nos fins de semana", comenta o empresário.
Mesmo sendo uma propriedade privada, a Itu recebe em média 1,5 mil visitantes anualmente. São turistas, turmas de escolas, universitários e historiadores interessados em desvendar os mistérios da Itu. A única reforma que Nicola fez tinha o objetivo de transformar o antigo estábulo em quartos para hóspedes - mesmo assim, não costuma alugá-los para turistas.
A hospitalidade e o interesse em repassar a história da Itu é tamanho que Nicola já cedeu o próprio quarto, antes utilizado por Vargas, a um grupo de historiadores paranaenses que queriam dormir na cama do "dr. Getúlio".
Os quartos foram nomeados com placas que remetem aos feitos de Getúlio Vargas. Há o cômodo CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), o Petrobras, o CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) de 1943 e o menor deles - ironicamente - batizado de Salário-Mínimo.
Os cômodos da casa foram mantidos, antes mesmo da propriedade ser tombada, em 2012. A mobília não é original, mas foi adquirida no Uruguai e na Argentina para reproduzir com fidelidade a decoração da época. Nas paredes, não há fotos da família Nicola, mas uma infinidade de quadros que remetem à vida de Getúlio na Itu.
Na biblioteca, o quadro presidencial e a caixa de charutos, presente do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, em 1943, são as relíquias que Nicola guarda a sete chaves.
O último ponto da visitação guiada por Nicola é a famosa varanda em que Vargas costumava sentar em uma rede branca para matear em frente ao arvoredo. Troncos de pau brasil, paineiras, louro, angicos e outras espécies devidamente catalogadas emergem sobre a paisagem hoje tomada pela soja. No local, há um busto do ex-presidente que descansa sobre os arcos da casa.

Museus para Getúlio e Jango

O ponto de partida dos turistas que chegam a São Borja é o Museu Getúlio Vargas. A antiga residência do "dr. Getúlio", como ainda hoje é referida pelos conterrâneos, é datada de 1910. No mesmo local em que o ex-presidente viveu ao lado da esposa Darcy e dos cinco filhos do casal hoje existe um extenso acervo, com objetos, documentos históricos, peças de vestuário, relíquias presidenciais e a biblioteca pessoal.
Reinaugurada em 2015, após um ano de reformas, a arquitetura típica do século XIX foi mantida nos assoalhos e paredes da casa. Em menos de três anos, o museu atraiu mais de 12.650 visitantes. Metade deles de outras cidades e estados do Brasil. Há ainda os visitantes internacionais.
Responsável pelos relatórios de visitação do local, a servidora municipal Clenir Vieira de Carvalho não se surpreende com a origem ou o perfil dos turistas. "O Getúlio teve uma personalidade agregadora que perdurou após a morte. Ele permanece despertando o interesse de idosos e crianças, de pessoas das mais diversas classes sociais e realidades econômicas", comenta.
No museu estão relíquias como uma edição, de maio de 1943, do Diário Oficial da Consolidação com a publicação das Leis de Trabalho (CLT). A urna de prata, em que cada governador de estado teve de depositar um punhado de terra no ato simbólico de unidade nacional e aceitação ao Estado Novo, realizado em 1940, no Palácio Tiradentes, então sede do Congresso, também chama a atenção - assim como a máscara mortuária e o lençol retirado da cama onde o corpo de Vargas foi encontrado minutos depois do suicídio em 24 de agosto de 1954.
O passeio pelo museu segue pelos seculares cômodos da casa. Em uma estante com materiais de campanha, encontra-se uma bolsa feminina nas cores do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Existe um modelo semelhante, nas cores do PSD (Partido Social Democrático), no Palácio do Catete.
O objeto revela a tentativa de angariar o voto feminino, instituído no País por decreto do próprio Vargas, em 1932, e abre os caminhos para que as curiosidades a respeito da vida partidária de Getúlio no PSD e no PTB sejam reveladas.
Funcionária do museu desde 2005, Dalvanir Alves Lago relata que a velha casa de Vargas ainda é capaz de produzir as reações mais diversas. Segundo ela, é bastante comum que as pessoas se emocionem. "Alguns chegam às lágrimas e dizem nunca terem imaginado estar no ambiente em que viveu dr. Getúlio. É algo muito forte, surpreendente, mesmo", revela.
Separada por apenas duas quadras do Museu Getúlio Vargas está a Casa Memorial João Goulart. Localizada no Centro da cidade, na avenida Presidente Vargas, a residência onde viveu o ex-presidente João Goulart foi construída em 1927 e restaurada em 2009.
Transformada em museu, o local relembra a trajetória política de Jango e também abriga a Secretaria Municipal da Cultura. Lá estão a coleção de armas, os livros e os objetos pessoais da família.
Entre 2015 e 2017, o Memorial recebeu 13.806 visitantes. O número supera as visitações do museu Getúlio Vargas, pois ali acontecem programações paralelas como recitais de música e atividades com escolas públicas.
A professora e coordenadora do Curso de Gestão em Turismo do Instituto Federal Farroupilha (IFF), Eliane Coelho, relata que os museus dos ex-presidentes são os primeiros destinos procurados pelos turistas. De lá, são encaminhados aos mausoléus, monumentos e também aos roteiros que colocam em evidência outros aspectos da história da cidade, como a "São Borja Missioneira" (no Museu Apparício Silva Rillo) e a "São Borja Campeira", encontrada no acervo mobiliário do Museu Ergológico da Estância.
 

Herança de sangue

Aos 81 anos, Viriato Vargas tem orgulho do tio-avô
Aos 81 anos, Viriato Vargas tem orgulho do tio-avô
PATRIC ARANDA/DIVULGAÇÃO/JC
Sentado em frente ao fogo da lareira, Viriato Vargas, aos 81 anos, relembra os dias de convívio com o "Tio Getúlio".
Da relação com tio-avô, Viriato resgata uma visita de 1949 e o último Natal de Vargas na Fazenda do Itu em 1953. "Orgulho-me de ter tido um tio assim. Era uma figura simples. Gostava dos empregados e de conviver com o povo. Ele era muito questionador. Falava pouco e quando tinha que jogar conversa fora, preferia ouvir. Gostava de charutos e de cavalos", resume.
Dos feitos de Getúlio, ele admira um tripé formado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a industrialização do Brasil e o salário-mínimo. "Há um Brasil anterior ao tio Getúlio e outro totalmente diferente depois. Ele foi um mestre na política e sabia mexer com as peças de xadrez. Foi capaz de feitos extraordinários que só me trazem orgulho", comenta.
Hoje, Viriato Vargas preside a Associação dos Amigos do Museu Getúlio Vargas. Ao lado de Luthero Vargas, filho do ex-presidente, participou do processo de instalação do museu e da doação de algumas peças do acervo atual. É um dos guardiões do sangue Vargas em São Borja, e sua semelhança física com o tio-avô ainda impressiona muita gente.
Christopher Goulart, neto de Jango, mantém uma relação bastante próxima com a cidade. Segundo ele, mais do que o acervo físico disponível no município, é preciso cuidar do legado das lideranças são-borjenses. "Há de se preservar a memória, essencialmente, em um período como o que vivemos hoje, da pós-verdade. Lamentavelmente, estamos na contramão da história. Eu nasci no exílio e percebo o quanto é difícil que se valorize a luta travada no passado, da qual meu avô foi um dos expoentes. Quem dá as costas pra história acaba caindo em um vazio. Portanto, essa é uma questão de preservação da história, mas também de educação", comenta.
Neta de Leonel Brizola, a deputada estadual Juliana Brizola também mantém laços estreitos com o município do Oeste gaúcho. "É impossível passar por essa cidade sem se contaminar com o espírito que paira no ar. A história da cidade em si, do dr. Getúlio, do Jango e de meu avô, de alguma forma se confundem com a própria história política do País", resume.
Juliana lembra que, em 2004, prometeu ao pé do túmulo do avô seguir a tradição de levar, sempre que pode e nos aniversários de vida e morte, uma rosa vermelha para Jango e outra para Getúlio. Desde então, mantém a palavra.

Histórias de exumação e os ex-presidentes

Por razões distintas, os restos mortais dos presidentes são-borjenses foram exumados. Há quem diga que os enigmas que cercam as duas personalidades permanecem tão vivos que a curiosidade que os cerca é a mesma que não os deixa descansar.
De fato, em 1977, com o objetivo de abrir espaço no mausoléu da família Vargas para o enterro do general Serafim Dornelles Vargas - sobrinho de Getúlio falecido naquele ano - os coveiros de plantão retiraram a ossada do ex-presidente do caixão de chumbo em que ele fora enterrado em 1954.
Devido ao processo de calcificação, os ossos de Vargas tiveram de ser quebrados à altura da tíbia. Em seguida, foram colocados em dois sacos de adubo e atirados no fundo da cova, onde permaneceram por 14 anos.
Em 1991, após a denúncia de um dos coveiros, o município instalou uma comissão conjunta para averiguar os fatos. O advogado e jornalista Iberê Teixeira era um dos integrantes.
Teixeira, que mais tarde escreveria um livro sobre o episódio (intitulado Os ossos do presidente), relembra que os restos mortais estiveram por mais de uma década cobertos por uma "espessa lama de água putrefata", até que fossem retirados, reconhecidos por familiares e sepultados no jazigo da família em melhores condições.
Assim como havia acontecido com Vargas, os restos mortais de João Goulart também foram desenterrados. Desta vez, a premissa era investigar a tese de assassinato do ex-presidente, ainda hoje defendida pela família.
Christopher Goulart, neto de Jango, foi um dos integrantes dos autos do processo civil do Ministério Público Federal que gerou a exumação de Jango em 2013. Segundo ele, os laudos internacionais foram inconclusivos, em razão do longo tempo transcorrido entre a morte e a investigação.
Por outro lado, o desgastante processo que envolveu o traslado da ossada até Brasília serviu para corrigir um erro histórico. João Goulart faleceu em 1976, na Argentina, durante o exílio. Inimigo do regime militar, foi sepultado em São Borja, mas sem as honrarias presidenciais.
Passados exatos 37 anos, no dia 6 de dezembro de 2013, os restos mortais do ex-presidente deposto pela ditadura retornaram a São Borja, após 23 dias de análises em Brasília. Na terra natal do presidente deposto, aquela sexta-feira teve clima de feriado.
As ruas por onde o caixão se deslocou em carro de bombeiro estavam lotadas. O cerimonial, realizado na Igreja da Matriz, desta vez, incluiu os devidos ritos de um chefe de estado. Para a família, a tese de assassinato - em contraposição à versão oficial que indica a morte por problemas cardíacos - permanece em aberto.

Roteiro dos presidentes em São Borja

Getúlio Vargas

Restos mortais: em mausoléu, obra de Oscar Niemeyer, localizado na Praça XV de Novembro (Centro).
Bustos: na prefeitura municipal (Centro) e na praça Assis Brasil (bairro do Passo).
Museu: casa em que Getúlio residiu até 1923 e guarda grande acervo dele. Na avenida Presidente Vargas, 1.772 (Centro). Telefone: (55) 3430-2953.
Fazenda do Itu: RS-176, KM 22 - Itaqui.

João Goulart

Restos mortais: sepultado no Cemitério Jardim da Paz (rua Eng. Manuel Luís Fagundes, 3.065).
Busto: na prefeitura municipal (Centro).
Museu: funciona na residência em que Jango viveu na juventude. Na avenida Presidente Vargas, 2.033 (Centro). Telefone (55) 3430-1425.
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Comentários
Felipe 26/08/2018 22h23min
Belo texto, belo resgate histórico. Que a história nunca se esqueça! E que a vida me dê oportunidade de algum dia visitar esta cidade
Marco Aurélio 24/08/2018 22h10min
Parabéns, excelente matéria!! nAlgo deve ter de especial nesta pequena cidade para tanta bagagem de homens honrados politicamente.
Miro Bacin 24/08/2018 19h55min
Uma matéria que traduz o que somos. Nossa história, nosso legado, nosso presente. Parabéns ao repórter Rafael pela rememoração e por nos presentear com esse belo texto.
GENESIO PEDRO BONDAN 24/08/2018 12h23min
PARABENS PELA EXELENTE REPORTAGEM SOBRE SAO BORJA,BERÇO DE VARIOS POLITICOS DO BRASIL, PENA QUE HOJE NÃO EXISTA MAIS AQUELE PATRIOTISMO COMO FIZERAM OS TRES PARABÉNS TIREI COPIA PARA MOSTRAR AOS MEUS AMIGOS.