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Porto Alegre, domingo, 19 de agosto de 2018.
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Jornal do Comércio

Cultura

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festival de gramado

19/08/2018 - 13h59min. Alterada em 19/08 às 18h42min

Olhares femininos marcam presença nas mostras competitivas de Gramado

Longa 'Benzinho', um tratado de amor familiar tipicamente brasileiro, foi tema de debate no sábado

Longa 'Benzinho', um tratado de amor familiar tipicamente brasileiro, foi tema de debate no sábado


Fabio Winter/Pressphoto/JC
Caroline da Silva, de Gramado
Reforçando a discussão da edição passada, o sábado (18) - segundo dia de competições em Gramado, na Serra - foi definitivamente dedicado ao universo feminino. As sessões do 46º Festival de Cinema de Gramado começaram à tarde, no Palácio dos Festivais. Um corpo feminino, de Thais Fernandes, abriu a Mostra Gaúcha de Curtas - Prêmio Assembleia Legislativa. Perguntando "Quando nomeamos uma coisa, ela perde ou ganha sentido?", o documentário das produtoras Cena Expandida e Besouro Filmes, muito bem realizado, lembra o longa nacional lançado recentemente Chega de Fiu-Fiu, sobre a temática de gênero e assédio.
À noite, chegou a vez da coprodução Paraguai-Brasil Las herederas (As herdeiras), de Marcelo Martinessi, ser exibido na Mostra de Longas Estrangeiros. Celebradíssimo no exterior, já com 19 prêmios no currículo (sendo três do Festival de Berlim 2018: Melhor Filme pela crítica FIPRESCI; Urso de Prata - Prêmio Alfred Bauer e Urso de Prata de Melhor Atriz para Ana Brun), dificilmente o longa sairá de Gramado sem outros troféus.
Rodada na Grande Assunção (capital e arredores), a obra aborda um casal de senhoras em dificuldades financeiras. Retrato da decadência de uma pequena burguesia no Paraguai, bem como contrapondo uma onda conservadora, a carreira internacional do filme tem sido exemplar. A protagonista Ana Braun se diz assustada com o sucesso do filme. “Faço uma mulher com muita tristeza, muita solidão, que vive uma relação dominada pela companheira. É um tema universal. Nós, mulheres, sempre estamos sofrendo”, diz a atriz, que não tem carreira artística profissional, é advogada.
A coadjuvante Ana Ivanova, atriz bastante conhecida na América Latina, concorda com a mensagem da produção: “Ela mostra o papel tão forte e também tão frágil da mulher. Vivemos essa perfeição maldita, que nos proíbe de envelhecer. Este filme foi a viagem mais linda da minha vida”.
Na trama, Chela (Ana Braun) e Chiquita (Margarita Irún - igualmente esplendorosa), ambas herdeiras de famílias ricas no Paraguai, vivem juntas e confortavelmente há 30 anos. Porém, ao chegar na terceira idade, percebem que o dinheiro não é mais suficiente e começam a vender seus bens. Quando suas dívidas chegam ao ponto de Chiquita ser presa por cobranças fraudulentas, Chela começa a providenciar um serviço local de táxi para um grupo de senhoras ricas. Enquanto Chela se acostuma com a nova realidade, ela conhece a jovem Angy (Ana Ivanova), e juntas embarcam em uma jornada de transformação pessoal.
O trio de atrizes está sendo sensação no evento na Serra gaúcha, sempre procurado para fotos e conversas. No debate sobre o longa no festival, a crítica de cinema Maria do Rosário Caetano arrancou gargalhadas da plateia e da equipe presenta ao afirmar: “Para nós, espectadoras mulheres, é ótimo assistir um filme em que o homem só serve para carregar piano”. A fala da jornalista é literal, uma vez que personagens masculinos só aparecem na cena para levar embora o pesado instrumento vendido para arrecadar algum dinheiro (outras figuras masculinas no enredo são um vendedor de cachorro-quente e um possível comprador para o carro das senhoras). Já a mesa de jantar para repôr a também comercializada, mais leve, é levada para dentro da sala por Chela e a empregada.
Na sequência, na noite de sábado, foi projetado Benzinho, de Gustavo Pizzi (que coassina o roteiro com a atriz protagonista e sua ex-mulher, Karine Teles), na Mostra de Longas Brasileiros. Igualmente premiado em festivais fora do País, a coprodução Brasil e Uruguai teve sua primeira exibição no País em Gramado.
Benzinho é um tratado de amor familiar tipicamente brasileiro. Um filme sensível, que arrebata crítica e público (por cenas cômicas com as quais é fácil se identificar. O longa é contado sobre o ponto de vista de uma clássica personagem feminina que desempenha diversos papéis em sua vida cotidiana. Irene (Karine) mora com o marido Klaus (Otávio Müller) e seus quatro filhos. Ela está terminando os estudos enquanto se desdobra para complementar a renda da casa e ajudar a irmã Sônia (Adriana Esteves), que também tem um filho pequeno e sofreu violência doméstica (marido, Alan, é interpretado pelo uruguaio Cesar Troncoso).
O primogênito Fernando (Konstantinos Sarris) é goleiro do time de handebol, herói no seu time. Ele é convidado para jogar na Alemanha, fica exultante e precisa ser emancipado. Irene leva um choque com a nova situação, e tem 20 dias para lidar com o iminente "abandono" e os antigos problemas financeiros da família.
Uma curiosidade sobre o título é que Benzinho é, em todos os sentidos, um filme de família. Os filhos do casal realizador roubaram a cena durante a coletiva. Os gêmeos nascidos em 2011 (quando o primeiro filme do então casal, Riscado, foi aclamado no Festival de Gramado) participam do novo longa como atores. O roteiro começou em 2012, quando eles eram bebês, e o projeto jamais os incluiu. Porém, fazer cinema no Brasil é demorado, conta Karine. A pré-produção começou em 2013, e nesse meio-tempo, a atriz e o diretor se separaram, mas seguiram trabalhando juntos.
Certo dia, um dos meninos, Francisco, ficou doente e não foi à escola. Ele acabou acompanhando os pais em um teste e se destacou na dinâmica de atores mirins da qual quis participar. Assim, o terceiro filho do casal vivido por Karine e Otávio Müller em Benzinho foi adaptado para uma dupla de meninos gêmeos. E o filho do meio (Rodrigo) ainda é interpretado por Luan Teles, sobrinho da atriz na realidade, ou seja, primo dos carismáticos Arthur e Francisco Telles Pizzi.
Além de mostrar a engenharia e o malabarismo de uma mãe cuidando de todos os aspectos familiares e ainda levando adiante os seus objetivos, outra contribuição da obra é jogar luz sobre o impacto da agressão e briga conjugal no dia a dia do núcleo. O diretor afirmou que o tema precisava ser incluído no roteiro para mostrar a importância do apoio das pessoas próximas às vítimas e para ajudar a ampliar a rede de proteção. Adriana Esteves, por sua vez, observou que hoje em dia se fala muito mais da questão da violência doméstica e isso é um ponto positivo. Ela agradeceu a oportunidade de fazer a Sônia e diz que acha o filme muito bonito: “Acho que fiz a função do meu personagem”.
Ambos os longas têm estreias próximas nos cinemas: Benzinho, em 23 de agosto, e As herdeiras, na quinta-feira seguinte, 30 de agosto.
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