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Porto Alegre, sexta-feira, 29 de junho de 2018.
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Cultura

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Literatura

Notícia da edição impressa de 18/06/2018. Alterada em 18/06 às 10h54min

'A infelicidade é um grande tema', afirma Cristovão Tezza

Em livro de ensaios, autor discute temas relacionados à literatura

Em livro de ensaios, autor discute temas relacionados à literatura


CLAITON DORNELLES /JC
Ricardo Gruner
Com trajetória tanto na área ficcional quanto na academia, o escritor Cristovão Tezza tem dois livros novos no mercado: em abril, o autor do premiado O filho eterno lançou A tirania do amor (Todavia, 176 páginas, R$ 49,00), romance sobre um economista que, em crise, resolve abdicar do sexo. Na semana passada, esteve em Porto Alegre autografando a compilação de ensaios Literatura à margem (Dublinense, 160 páginas, R$ 39,00). O volume reúne textos apresentados pelo catarinense em conferências ao longo dos últimos dez anos. O escritor conversou com o Jornal do Comércio a respeito das novidades.
JC Panorama - Em Literatura à margem, o senhor brinca que a origem do escritor é a infelicidade. Foi uma percepção que teve ao longo da carreira ou desde cedo?
Cristovão Tezza - Você só começa a perceber depois de que está estabelecido como escritor e passa a olhar para trás. Eu uso como uma brincadeira. O que leva alguém a escrever? A infelicidade. Eu sempre digo assim: pessoas felizes não escrevem, vão ao cinema, namoram, se dão bem com a família (risos). É o infeliz que se tranca para escrever e tentar resolver alguma fissura na vida dele. Claro, é um pouco brincadeira, um pouco verdade. Se você pegar a biografia dos escritores, vai ver que tem muito mais infelizes do que felizes. É um tipo de trabalho que exaure muito.
Panorama - O senhor também diz que o bom leitor não gosta de final feliz, 'água com açúcar'. Como chegou a essa conclusão?
Tezza - A grande literatura começa lá nos gregos, com as tragédias. O tipo da aventura com final feliz é uma criação romântica - o modelo, o formato moderno do final feliz. Em outros momentos da história, o final feliz podia ser ideologicamente condicionado: por exemplo, a literatura cristã dominou toda a Idade Média. De certa forma, ela tem um princípio ideologicamente moralizante: você lê um poema ou uma obra literária e aquilo precisa ser de alguma forma edificante. A maneira moderna é uma maneira laica. Significa que, por uma sucessão de acasos, as coisas dão certo. É típico do cinema, a arte do século 20 por excelência. Modernamente, a literatura, como uma arte laica desvinculada de uma metafísica ou de um projeto religioso ou ideológico, é o homem e sua solidão. A infelicidade é um grande tema.
Panorama - Existe "bom leitor" ou é outra brincadeira?
Tezza -  A literatura virou quase um nicho de mercado. Todo leitor é bom porque é uma coisa tão rara hoje em dia (risos). Mas o "bom leitor" que digo é alguém que vê a literatura como um tipo de linguagem que não se encontra em nenhuma outra linguagem social à disposição. Lendo Kafka, Thomas Mann, lendo escritores que marcaram a literatura do século XX, você vai criando um tipo de mundo, de especulação sobre a realidade, uma hipótese de existência que você não acha em outro lugar. O papel da literatura é esse.
Panorama - Em uma das conferências selecionadas no livro, o senhor cita três autores que o marcaram, Júlio Verne, Monteiro Lobato e Conan Doyle, e o preconceito nas obras deles. Como é sua relação com estes trabalhos hoje?
Tezza - Primeiro você precisa historicizar. A história faz parte da literatura. Não se pode pensar em um autor do século XIX com o olhar de hoje - tem de ver o significado que ele teve naquele tempo. O que eu cito nesses exemplos é que são três amostras de um tipo de visão de mundo iluminista, racionalizante. Uma literatura de busca de nitidez, de reconhecimento do mundo racional. Mas cada um deles era marcado por preconceitos. Monteiro Lobato e a questão racista: era o racismo brasileiro. Não que ele fosse um racista de carteirinha. Ele deixa transparecer, em vários momentos, o olhar que era típico do brasileiro sobre a questão racial. Mas isso não invalida a importância que ele teve: foi o maior formador de leitores da história da literatura do Brasil.
Panorama - Seu novo romance, A tirania do amor, se passa no Brasil de hoje. É mais fácil escrever sobre o presente?
Tezza - Romance histórico eu acho mais muito difícil, tem um trabalho para não cometer anacronismos. É preciso pensar o tempo passado com a medida do tempo passado. Minha literatura sempre foi muito contemporânea. A partir do Trapo, de 1988, meus romances sempre falam do presente. Mais recentemente comecei a colocar de uma forma muito forte o entorno político e econômico, coisa que só indiretamente aparecia nos anteriores. Em A tirania do amor, o Brasil de 2017 é um pano de fundo, não o tema. Escrevo sobre um economista em um dia de crise neste Brasil, mas o que interessa é o personagem.
Panorama - Um economista de direita, um personagem não tão comum na nossa literatura.
Tezza - Ele é de direita no sentido de pertencer a esse mundo financeiro, pensar com a cabeça daquele mundo financeiro. Tem uma relação bastante crítica com o Brasil. E alguém pode carimbar: é de direita. Mas ele não é um ativista político, está simplesmente reagindo em função da vida dele e do extrato social em que vive.
Panorama - As provocações políticas têm repercutido de alguma forma?
Tezza - Os leitores estão gostando. Resenhas saíram relativamente poucas. Algumas bem boas, outras marcando como uma literatura de direita ou de um escritor de direita, o que eu acho um absurdo. Nos leitores, a repercussão está boa, e eles são de vários espectros ideológicos. Muita gente de esquerda leu e gostou muito.
Panorama - Por que achou interessante contar a história desse personagem?
Tezza - Não sei. Era para ser um livro sobre um cara que escreveu um livro de autoajuda sob um pseudônimo. Nem tinha a profissão dele. Na hora de escrever a primeira página, queria colocar uma profissão que não coincidisse com a minha área de atividade, e economia era algo que eu estava lendo muito. No Brasil é fundamental você ter informação econômica, da história do dinheiro. Era para ser um funcionário do Banco Central, na primeira ideia. Depois virou um sujeito da iniciativa privada, e o livro tomou o rumo que tomou.
Panorama - O senhor disse que literatura está quase virando um nicho no Brasil. Por que escrever ficção em 2018?
Tezza - É uma boa pergunta. Talvez boa para fazer a um jovem: por que começar a escrever agora? Eu já não sei fazer outra coisa. É meu modo de me situar no mundo. Já é até meu modo de sobrevivência. Vivo só disso. Não consigo conceber minha vida sem escrever ficção. Ficção para mim é um modo de reconhecimento do mundo - e isso me interessa.
Panorama - Em Literatura à margem, o senhor também afirma que a literatura é a prima pobre do sistema de renúncia fiscal.
Tezza - Ah, sim (risos). Dá para viver de literatura? É uma pergunta que me fazem sempre. Até o ano 2000, não dava. Você praticamente não tinha evento literário nenhum. Tinha nas universidades, que era de graça, entre os professores. Entre os anos 1970 e final dos anos 1990, a universidade dominou o panorama literário brasileiro. Foi o refúgio do escritor, onde se moveu toda a discussão estética, literária. Isso mudou bem na era pós-internet. Até o ano 2000, você não tinha como viver de literatura, tinha que ter um emprego e escrever. Depois, pela Lei Rouanet e a multiplicação dos eventos literários no Brasil, passou a ser viável você viver não exatamente do direito autoral, mas do livro e seus derivados, como palestras, conferências. Eu digo “primo pobre” porque é um custo infinitamente menor: um evento literário custa menos do que financiar um festival de teatro, de música clássica ou um museu (trazer um quadro é uma coisa caríssima). Você só precisa de um escritor, de uma mesa: um mediador e alguém falando. E pode fazer mil invenções disso.
Panorama - E quais são os próximos planos? Já está escrevendo de novo?
Tezza - Não, esse ano estou só publicando. Saiu um livro de poemas (Eu, prosador, me confesso; pela Quelônio), artesanal, com apenas 300 exemplares. E também A tirania do amor, romance, e o Literatura à margem. Em agosto vai sair uma edição comemorativa do Trapo pela Record. São os 30 anos da primeira edição do Trapo. Foi o livro que me lançou nacionalmente, levei seis anos para publicar: escrevi em 1982 e saiu em 1988.
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