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crítica

- Publicada em 03h00min, 25/06/2021.

Avó e neta que somos todos nós

Antonio Hohlfeldt

O Ponto de Teatro do Instituto Ling, ao retomar suas atividades, apresentou, ao longo do mês de junho, os quatro espetáculos que haviam sido selecionados, por edital público, no ano passado, para financiamento de suas montagens. Já comentei Paraíso afogado e hoje quero me referir a um trabalho que está diretamente vinculado à pandemia de Covid-19. Certamente o roteiro que havia lido no ano passado (fiz parte da comissão de seleção) sofreu sobretudo atualizações, o que é muito bom. A avó da menina, de Ligia Souza, Pedro Bertoldi e Liane Venturella, é uma história simples e imediatamente ligada à nossa realidade: uma avó (Sandra Dani) que teima em viver na velha casa em que sempre viveu, agora viúva, gera preocupações na filha e na neta (Laura Hickmann) que sempre a visita, levando mantimentos e procurando interagir com ela o mais possível.

O Ponto de Teatro do Instituto Ling, ao retomar suas atividades, apresentou, ao longo do mês de junho, os quatro espetáculos que haviam sido selecionados, por edital público, no ano passado, para financiamento de suas montagens. Já comentei Paraíso afogado e hoje quero me referir a um trabalho que está diretamente vinculado à pandemia de Covid-19. Certamente o roteiro que havia lido no ano passado (fiz parte da comissão de seleção) sofreu sobretudo atualizações, o que é muito bom. A avó da menina, de Ligia Souza, Pedro Bertoldi e Liane Venturella, é uma história simples e imediatamente ligada à nossa realidade: uma avó (Sandra Dani) que teima em viver na velha casa em que sempre viveu, agora viúva, gera preocupações na filha e na neta (Laura Hickmann) que sempre a visita, levando mantimentos e procurando interagir com ela o mais possível.

Há uma multiplicidade de temas abordados por este texto que toma, também ele, a pandemia como o deflagrador de uma espécie de levantar de cortinas que passam a revelar realidades até então escondidas: a solidão dos mais velhos, a dificuldade de dialogicidade entre duas lógicas diferentes (a do idoso e a do jovem) e os desafios que a sociedade contemporânea nos coloca, na medida em que as novas casas não guardam espaços para a permanência de idosos e nem as atividades cotidianas, sobretudo com a pandemia, permitem que os familiares possam deles se ocupar devidamente. Os diálogos apresentam naturalidade, com a linguagem cotidiana, trazendo sotaques bem gaúchos, porto-alegrenses, sobretudo. A música de Álvaro RosaCosta sublinha os climas emocionais com competência, enquanto a iluminação de Ricardo Vivian, sobretudo nas sequências finais, noturnas, permitem boa visualização de um espetáculo que tem 53 minutos de duração.

Pensado inicialmente como um espetáculo de teatro, o roteiro original transformou-se num trabalho apresentado em redes sociais. Felizmente, Camila Bauer e Bruno Gularte Barreto, que assinam a direção da encenação, ao lado de Pedro Valadão, que responde pela montagem, foram sensíveis o suficiente para não fazerem "teatro filmado" ou algo parecido. A alternativa foi inteligente: boa parte das cenas se passa através das telas de notebooks e celulares, já que a neta ensina à avó como usar o aparelho celular e através de chamadas de WhatsApp com câmara, conversar com a neta. Aliás, estas são as primeiras cenas que explicam e contextualizam, dando naturalidade, ao que se vai assistir em seguida. Por outro lado, boa parte do espetáculo usa uma câmara fixa, e os diálogos são registrados em plano americano ou primeiro plano, centrando a atenção do espectador no diálogo, na palavra, no texto, naquilo que é dito. Há cenas como a dos pés no chão de Sandra Dani, que só poderiam ser cinematograficamente registrados; mas há outras passagens, como as telas multiplicadas dos aparelhos eletrônicos, que se tornam um processo dramático teatral muito bem achado e resolvido. Por fim, a imagem dos origamis, em especial o pássaro que significa a longevidade, garante a unidade temática do texto e do enfoque proposto, que se completa com a seqüência final.

Sandra Dani está emocionante; Laura Hickmann é pura vitalidade. A vioz em off de Liane Venturella, a rápida passagem de Lurdes Eloy como a vizinha e amiga da avó, e a cena em que Luiz Paulo Vasconcellos contracena com Sandra são muito bem resolvidas, estão cinematograficamente construídas, mas permitem imaginar como ocorreriam em um palco, assim como as falas em "off" que a neta troca com a avó, com as telas vazias a evidenciar o deslocamento da personagem de um aposento para o outro. A ambientação na Casa da Chácara foi perfeita. As ambientações internas também estão condizentes e evidenciam que o texto não perderá eficiência quando apresentado em um palco. Houve alguns deslizes tipo o rótulo do vinho ou os tamanhos diferentes das taças e, que o mesmo é bebido...mas não chegam a comprometer o trabalho como um todo.

A fotografia de Lucas Tergolina, enfim, é eficiente, porque permite a naturalidade das interpretações, dando espaço para cada intérprete. Datado entre 18 de abril de 2020 e 15 de março de 2021 (quase um ano), este espetáculo certamente torna-se um marco e um documento do que estamos vivendo e sobre o quê, nas artes cênicas, soubemos fazer, para registrar tais momentos e a descoberta dessas novas linguagens tão necessárias. Obrigatório de se assistir.

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