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Porto Alegre, sexta-feira, 19 de março de 2021.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 19 de março de 2021.
Notícia da edição impressa de 19/03/2021.
Alterada em 19/03 às 03h00min

Precisamos de melhor tragédia do que esta?

Quando procuro objetivar o desafio que um dramaturgo tem a sua frente, quando vai desenvolver uma cena dramática, chamo a atenção, de um lado, para os aspectos externos que ele deve levar em conta - inventar, ou criar - no seu caso, imaginar - como o vestuário do personagem, seus eventuais trejeitos, o ambiente em que a cena ocorrerá, as próprias palavras que usará. O leitor pode me retorquir que isso também ocorrerá com um romancista ou um contista, e está correto.
Quando procuro objetivar o desafio que um dramaturgo tem a sua frente, quando vai desenvolver uma cena dramática, chamo a atenção, de um lado, para os aspectos externos que ele deve levar em conta - inventar, ou criar - no seu caso, imaginar - como o vestuário do personagem, seus eventuais trejeitos, o ambiente em que a cena ocorrerá, as próprias palavras que usará. O leitor pode me retorquir que isso também ocorrerá com um romancista ou um contista, e está correto.
Mas... a peça de teatro, ao menos a peça de teatro no seu conceito clássico e tradicional, é o desenvolvimento de uma situação problemática que deverá evoluir no sentido de se resolver. Se, no início, não parece haver problemas, eles logo aparecerão. E o espectador, graças à habilidade do dramaturgo (ou do narrador - ainda aqui o romance ou o conto não se diferenciam muito da peça de teatro) - precisa encontrar os movimentos propícios para chegar a este objetivo.
Como se resolve uma trama? Simploriamente, de duas maneiras: ou o personagem enfrenta e vence seus desafios, ou é por eles derrotado e desaparece. No primeiro caso, temos a figura do herói. No segundo, a do anti-herói. No primeiro, o drama, no segundo, a tragédia.
Quero insistir, contudo, num ponto que todos os teóricos, sobretudo aqueles que têm a prática de escrever para o teatro, defendem: ao começar a redação de uma peça dramática, o autor deve saber onde pretende chegar. De certo modo, deve-se agir como quem vai a um supermercado, com perdão da imagem: fazer uma lista de personagens, identificando-os claramente e as funções que cada um exercerá na obra: aquelas que se contrapõem à ação principal, do herói, ou aquelas que ajudam o herói a avançar em seus objetivos. Pode ocorrer o contrário: as ações que levam o bandido a avançar em seus malefícios e aquelas, praticadas pelo herói (o mocinho, fica bem claro assim?) que permitem desmontar ou desvelar as intenções do bandido...
Agora, olhemos nossa realidade em volta, observemos apenas esta última semana e em tudo o que está acontecendo. O cinema dos Estados Unidos especializou-se nos chamados filmes-catástrofe, em que quase sempre estamos à beira do fim do mundo: ataque de alienígenas ou uma pandemia...
Perceberam? Qual o dramaturgo que poderia imaginar uma trama tão complexa? A rapidez da pandemia. Sua universalidade. As várias mutações que tem sofrido. A mortalidade provocada: dos idosos aos jovens e crianças; dos doentes aos sãos... As desconfianças dos Estados Unidos de Trump de que tratar-se-ia de uma bem urdida trama da China Comunista para liquidar com a democracia ocidental, com que a Organização Mundial da Saúde seria conivente...
Em alguns países, governos e oposição racionalizaram a situação e juntaram esforços. As populações entenderam as interdições e lockdowns e gradualmente houve controle da situação. Em outros, pelo contrário, parte das populações se coloca com incredulidade e combate quaisquer medidas que cientificamente seja recomendadas, fazem manifestações públicas e passeatas contra tais iniciativas, atacando inclusive profissionais da saúde.
Peter Burke, num livro cada vez mais clássico, A fabricação do rei (Zahar, 1994) mostra a importância simbólica de rituais, gestos, vestuários, comportamentos e por aí afora. Burke entende que tais atos visam fortalecer o poder já existente ou enfraquecer àquele ao qual se opõem. Observemos: enquanto a estas alturas centenas de milhares de pessoas morrem no País, grupos ocupam avenidas, fazem buzinaços e impedem a locomoção dos que querem se vacinar, desrespeitando leis e, sobretudo, sem qualquer empatia e respeito humanos. Sem quaisquer cuidados. Ou se reúnem em cassinos clandestinos (outro crime previsto nas legislações nacionais), transmitem propositalmente o vírus e depois, quando atingidos eles mesmos, correm aos hospitais, pedindo ajuda aos que desqualificaram.
Precisamos de melhores enredos para nossas próximas tragédias, já que não sabemos quando a história terá fim? E que fim será este?
 
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