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Porto Alegre, sexta-feira, 11 de setembro de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 11 de setembro de 2020.
Notícia da edição impressa de 11/09/2020.
Alterada em 11/09 às 03h00min

Série em prol da cidadania

Uma produção dramática de extrema importância, para o contexto atual, está estreando nas redes sociais. Trata-se de uma série chamada Confessionário - Relatos de casa, em que, a partir de processos jurídicos acompanhados pela advogada para mulheres Gabriela Souza, a atriz Deborah Finnochiaro e o diretor Luiz Alberto Cassol idealizaram dramatizações de depoimentos de mulheres que vem denunciando ações de violência de seus companheiros à Justiça.
Uma produção dramática de extrema importância, para o contexto atual, está estreando nas redes sociais. Trata-se de uma série chamada Confessionário - Relatos de casa, em que, a partir de processos jurídicos acompanhados pela advogada para mulheres Gabriela Souza, a atriz Deborah Finnochiaro e o diretor Luiz Alberto Cassol idealizaram dramatizações de depoimentos de mulheres que vem denunciando ações de violência de seus companheiros à Justiça.
A série, em sua anunciada primeira temporada, está constituída de nove episódios, estreando cada um de sete em sete dias. Já estão na rede os três primeiros episódios, a dois dos quais tive a oportunidade de assistir. Não conheço, ainda, o terceiro, porque as postagens ocorrem a cada segunda-feira e eu precisava redigir a coluna para a entrega à editoria do jornal. Mas deverei acompanhar o conjunto todo e fazer outros registros, nesta coluna.
Tematicamente, a iniciativa é importante porque os dados indicam que, durante este período de pandemia, até por causa da convivência forçada e da proximidade entre os casais, os casos de agressões e de violência em geral contra as mulheres (muitas vezes psicológica) aumentaram significativamente no Brasil. Consequentemente, é fundamental que haja uma denúncia permanente da situação, buscando a sensibilização, não apenas das mulheres mas, sobretudo, dos homens, e muito especialmente, das autoridades, aí incluídos policiais e magistrados, em grande parte ainda homens e com enormes preconceitos quanto às responsabilidades dos sujeitos envolvidos em tais situações.
A série tem episódios batizados com os nomes das personagens (nomes fictícios, evidentemente, mas casos verídicos) selecionados pela advogada e pelos realizadores do projeto. Assim, já assistimos a Ana Paula e Marília, a que se seguem Maria Regina, Maria Auxiliadora, Cláudia, Jordana, Juliene, Júlia e Beatriz, encerrando-se esta primeira temporada em 19 de outubro.
A produção é caracterizada pela encenação do depoimento da personagem-título, com uma câmera fixa. O distanciamento se dá quando a imagem que chega ao espectador é, de certo modo, multiplicada através da imagem de um laptop em cuja tela a mesma figura aparece. É quando fica evidenciado o aspecto "ficcional", da realização. O impacto de cada depoimento depende da personificação adotada pela atriz. Deborah Finnochiaro viveu a primeira depoente, Ana Paula. Desde logo, evidencia-se a dor que a personagem mostra, entre amedrontada e envergonhada, de certo modo evidenciando sutil culpabilidade que, obviamente, não deveria sentir. O relato é entrecortado e a personagem interrompe as falas. Fica claro o enorme esforço que ela faz para se expressar e revelar seu drama, envergonhada. Mas avança, e esta contradição de sentimentos certamente é o mais emocionante da encenação, de pouco mais de vinte minutos de duração, numa introjetada e poderosa interpretação de Deborah Finnochiaro.
O segundo vídeo, Marília, traz uma clara variação em relação ao primeiro, até pela personalidade de intérprete, a atriz Arlete Cunha. Muda o figurino, que em cada episódio caracteriza de imediato a psicologia da personagem. Marília é uma mulher mais velha e experimentada, sofreu o diabo nas mãos do marido e, não obstante, quando este precisa dela, ela acorre para ajudar o ex-companheiro, o que constitui o erro que busca agora, com a ajuda da advogada, remediar, pois a situação de violência voltou a ocorrer, uma vez o homem recuperado. Se Ana Paula é titubeante, Marília é taxativa. Ela insiste em proclamar seus direitos e pretende resolver a situação. O final é contundente: se o abusador quer sair da casa apenas mediante a coerção policial, é assim que as coisas vão ocorrer.
A fotografia é de Freddy Paz, com trilha sonora opressiva de Laura Finnochiaro. A série tem recursos de acessibilidade com audiodescrição e linguagem de Libras. A cada episódio, se sucede uma reflexão da própria advogada. A série pode ser conhecida, gratuitamente, no YouTube, e se constitui num desses surpreendentes e significativos produtos que a pandemia acabou propiciando, com o apoio, dentre outros, de instituições como a Sintrajufe e várias emissoras de rádio da Capital, numa produção da Companhia de Solos & Bem Acompanhados, mais a Filmes de Junho. Imperdível, para todos os que pretendem melhor discutir os valores de cidadania.
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