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Porto Alegre, sexta-feira, 29 de novembro de 2019.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 29/11/2019.
Alterada em 29/11 às 03h00min
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Explorando contradições

Estreou, na última semana, o espetáculo Sambaracotu, uma criação triplamente assinada por Carlota Albuquerque (coreografia), Álvaro Rosacosta (trilha sonora) e Simone Rasslan (direção musical). Com uma hora de duração, o espetáculo pretende ser um trabalho de dança urbana, mas a partir de raízes múltiplas da cultura brasileira, do mesmo modo que se preocupa em explorar e potencializar diferentes linguagens artísticas.
Estreou, na última semana, o espetáculo Sambaracotu, uma criação triplamente assinada por Carlota Albuquerque (coreografia), Álvaro Rosacosta (trilha sonora) e Simone Rasslan (direção musical). Com uma hora de duração, o espetáculo pretende ser um trabalho de dança urbana, mas a partir de raízes múltiplas da cultura brasileira, do mesmo modo que se preocupa em explorar e potencializar diferentes linguagens artísticas.
Assim, de certo modo, a partir dos três responsáveis autorais, digamos, da concepção original da obra, também devem ser valorizadas as contribuições de Gustavo Dienstmann (figurinos), Rodrigo Shalako (cenarização), Joana Willadino (identificada apenas como colaboradora, mas que imagino tenha contribuído sobretudo quanto às projeções visuais que acompanham boa parte do trabalho), além dos bailarinos, claro, que por isso mesmo são identificados enquanto intérpretes criadores.
A performance toda tem a duração de uma hora, felizmente para os intérpretes, porque o ritmo é quase alucinante e o esforço físico é radical. Neste sentido, ganham significação os elementos cênicos mais ou menos inusitados, trazidos por Rodrigo Shalako, como as câmaras de ar de pneus de tratores ou caminhões, dentro das quais ou sobre as quais os bailarinos atravessam e/ou se jogam. Carlota Albuquerque explora quase impiedosamente as virtualidades e as potencialidades físicas dos bailarinos, levando-os a situações de extremo empenho de força física e resistência, o que cria este ritmo constante ao longo de todo o espetáculo, prendendo a atenção da plateia e desafiando todos os seus sentidos, no esforço de acompanhar tudo o que está ocorrendo, não apenas no espaço do palco, mas nos corredores que circundam as poltronas e mesmo nas paredes laterais e no teto, onde imagens e sombras são projetadas.
A cultura brasileira é eminentemente mestiça. E é isso que, laboriosamente, pretende mostrar, e consegue, este Sambaracotu: somos sempre demasiados, prolixos (resquícios do barroco?), complicados, não alcançamos ir direto ao ponto, mas precisamos rodear e viajar pelos espaços e tempos antes de chegarmos a nossos objetivos. De modo geral, ficamos perdidos. O espetáculo soube captar isso muito bem. No programa, afirma-se que, a partir da dança urbana, buscou-se colocar o corpo brasileiro em cena. Não sei se o corpo brasileiro ali é encontrado em todas as suas tão infinitas variações, mas encontramos no palco mais que o corpo: encontramos o som, as visagens, as respirações, as frustrações e as realizações da cultura brasileira. De samba, em sentido estrito, apenas a abertura, quando os atores-bailarinos vão buscar o público na sala de espera. Mas de música brasileira, mais que isso, da vivacidade e da promiscuidade que a cultura brasileira expressa e por isso mesmo é tão vibrante e dinâmica, temos tudo.
Os bailarinos são de uma dedicação exemplar. Cumprem à risca as orientações de Carlota Albuquerque. Na trilha sonora, Álvaro Rosacosta tornou-se um DJ de referência, mesclando ritmos, gêneros e sons absolutamente incompatíveis, numa primeira observação, mas que depois vão se amalgamando de tal modo que parece sempre terem se relacionado deste modo. O que sobressai, principalmente, é o ritmo. É difícil o espectador ficar quieto na sua poltrona, tal a provocação destes sons-ruídos que nos invadem e nos rodeiam, perturbando-nos.
O colorido dos figurinos, o cuidado nos equipamentos técnicos capazes de propiciar luzes e tonalidades necessárias, destaques e concentrações que compõem a múltipla narrativa, tudo evidencia o resultado de uma longa gestação. Espetáculo perfeito? De modo algum. Sambaracotu não se quer um clássico, não quer documentar o passado, quer provocar o presente. Portanto, há demasias, há excessos, há coisas que podem e devem ser melhoradas, talvez numa concentração maior do que ali está selecionado. Mas é justamente por causa destas contradições que Sambaracotu está vivo e se realiza.
 
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