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Porto Alegre, sexta-feira, 16 de agosto de 2019.
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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 16/08/2019. Alterada em 16/08 às 03h00min

Para quem não soubesse o que é teatro

A única performance de Andrea Beltrão para Antígona, de Sófocles, uma das mais conhecidas e mais referenciadas tragédias da antiguidade grega, ocorrida há 15 dias no Teatro da Pucrs, foi um momento absolutamente ímpar na agenda das artes cênicas em nossa cidade.
A única performance de Andrea Beltrão para Antígona, de Sófocles, uma das mais conhecidas e mais referenciadas tragédias da antiguidade grega, ocorrida há 15 dias no Teatro da Pucrs, foi um momento absolutamente ímpar na agenda das artes cênicas em nossa cidade.
Andrea Beltrão é uma figura muito especial e, mais recentemente, vem enfrentando corajosamente, ao lado de Marieta Severo, o desafio de manter um pequeno teatro aberto na cidade do Rio de Janeiro, o Poeira. Em meio a toda esta dificuldade, ou talvez até por causa dela, a atriz encontra tempo para manter-se ativa no palco e isso possibilitou esta oportunidade absolutamente enriquecedora e emocionante de a assistirmos em Porto Alegre. Os que tiveram a sorte de acompanhar a este espetáculo certamente viveram um dos momentos mais simbólicos que se pode experimentar, hoje em dia, em nosso País, para refletirmos sobre nossa condição humana e nossas contingências sociais.
Antígona, todos conhecemos, foi aquela jovem que, desafiando a ordem do poder político, preferiu ser fiel à tradição. Isso a levou a enfrentar o rei, na medida em que o desobedeceu e promoveu as abluções pós-morte de seu irmão mais moço, morto em combate com o irmão mais velho, ambos gêmeos, mas sendo um deles primogênito, evidentemente, com maior direito ao trono. Há séculos esta peça vem sendo encenada e, especialmente, em alguns momentos de crise. Assisti-la, nos idos de 1970, na Alemanha. O governo democrata-cristão enfrentava a sedição da guerrilha urbana e determinara que os cidadãos deveriam denunciar aqueles de quem desconfiassem fizessem parte de algum movimento semelhante. O mesmo que se praticava nas ditaduras latino-americanas, diga-se de passagem. Um diretor alemão, inconformado com esta indução ao dedo-durismo, montou Antígona em plena televisão estatal, para escândalo da sociedade germânica, mas servindo-lhe de aviso para que a sociedade não se deixasse levar pelo canto de sereia do governo. O mesmo ocorre hoje entre nós. Pretende-se condenar artistas, professores, filósofos, enfim, todos os que não estiverem de acordo com o status quo, à marginalidade. Mas resistimos. Afinal, um governo pode ser forte, mas não é necessariamente, o dono da verdade. Outros podem pensar diferente e talvez até melhor, como aliás, já alertou o filósofo Wright Mills, no século XIX. A esta primeira e mais ampla leitura, pode-se trazer uma outra, mais simples, mas igualmente eficiente: a coragem que uma pessoa, mesmo isolada, pode encontrar em si mesma quando é capaz de ser fiel a seus próprios princípios. Mas a esta questão, de fundo, soma-se a outra perspectiva, a da forma, ainda que não se possa, em sentido estrito, separá-las: a concepção do espetáculo, devido à própria atriz, ao diretor Amir Haddad e ao tradutor Millôr Fernandes.
Tenho algumas restrições às traduções de Millôr Fernandes, porque me parecem livres demais. Mas, neste caso, a junção entre esta liberdade, a profunda experiência dramática de Haddad e a competência interpretativa da atriz alcançaram um resultado extraordinário.
O espetáculo é uma lição sobre a mitologia grega, com a apresentação de toda a gênese humana até Édipo que, no palco, aparece numa espécie de organograma muito bem condensado e organizado. No entanto, se esta apresentação é "séria", os comentários que a atriz vai apresentando, ao longo do espetáculo, entremeando com a narrativa dramática e mais angus apartes pessoais, transforma a peça numa experiência profundamente interessante, do ponto de vista do conteúdo - porque nos permite uma visão de conjunto de todo o enredo que subjaz à peça propriamente dita - e, ao mesmo tempo, a uma leitura atualizada, muitas vezes cômica, daquela narrativa. E Andrea Beltrão, convenhamos, é uma atriz de múltiplas facetas: dramática, é também cômica. Portando um figurino muito simples, sobre ele acrescenta e retira adereços que imediatamente mudam o clima e a transportam para outros espaços: tivemos uma experiência soberba do mistério do teatro, em sua essência, de modo objetivo e eloquente. Quem não soubesse o que é teatro, ficou sabendo naquela noite.
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