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Porto Alegre, sexta-feira, 24 de maio de 2019.
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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Edição impressa de 24/05/2019. Alterada em 24/05 às 03h00min

Entre discursos e verdadeiras criações

Musical 'Elza' lotou apresentações e merece voltar a Porto Alegre

Musical 'Elza' lotou apresentações e merece voltar a Porto Alegre


DANIEL BARBOZA/DIVULGAÇÃO/JC
Uma diversidade muito grande de espetáculos marcou a segunda semana do 14º Palco Giratório, promovido pelo Sesc. Destaco aqui algumas atrações.
Começo, naturalmente, por Elza, musical a respeito da vida e da obra da cantora Elza Soares, com texto original de Vinicius Calderoni e direção de Duda Maia. Na equipe técnica, deve-se destacar, ainda, a direção musical absolutamente perfeita de Pedro Luís, Larissa Luza e Antônia Adnet, com arranjos de Letieres Leite, cenografia de André Cortez e figurinos de Kika Lopes e Rocio Moure, além da iluminação de Renato Machado. Por que mencionar a todos? Porque este é um espetáculo eminentemente coletivo, uma experiência absolutamente inédita, sobretudo em se tratando de musicais. De modo geral, o espetáculo centra-se na personagem e destaca um intérprete. Neste caso, há uma personagem, Elza Soares, mas são sete as atrizes-cantoras que a personificam, uma melhor que a outra, como Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz, atriz convidada, que é a figura referencial, quase sósia de Elza, tal a afinidade de tonalidade, de rouquidão, de trejeitos nas interpretações etc. Este elenco exclusivamente feminino, muito acima da média de um elenco, se completa com uma banca também inteiramente feminina, com o quê, desde logo, se define a performance deste espetáculo: não se trata de simples divertimento, de memória ou de homenagem, mas, como diz a principal personagem, ao final do espetáculo, é militância mesmo, é denúncia, é discussão, é, sobretudo, a chegada ao reino do musical de todas as suas potencialidades conscientizadoras de uma condição social específica, experimentada ao longo dos anos, praticamente de toda a sua vida, pela artista: negra, tendo alcançado o sucesso, tornando-se companheira de um grande jogador de futebol, sofreu todos os preconceitos possíveis, violências sociais e discriminações, sem jamais abrir mão de sua personalidade e de sua identidade. Elza fala tudo isso, com veemência, inclusive, mas encontrou o tom certo, a linha mais precisa, porque jamais se distancia do horizonte do que deve ser uma obra de arte. Este é um espetáculo que precisa voltar urgentemente. Ficamos todos com gostinho de "quero mais" - foram apenas três apresentações.
Em contrapartida, Se eu fosse Iracema, que toca em outra problemática importante e contemporânea, a questão indígena no Brasil, apesar dos esforços de Adassa Martins, sua única intérprete, não consegue ir além do discurso panfletário. A dramaturgia de Fernando Marques repete o óbvio, que a direção de Fernando Nicolau (também responsável pela iluminação e pela cenografia) não consegue transformar num verdadeiro espetáculo, apesar do visível e admirável esforço (por exemplo, a perfeita caracterização e figurino de Luíza Fardin, a trilha sonora original de João Schmid, a cenografia de Fernando Nicolau). Assim, o grupo 1 Comum Coletivo, do Rio de Janeiro, perde a oportunidade de aprofundar o tema, não pela racionalidade, mas sobretudo pela emoção, o que teria lhe rendido, com toda a certeza, muito mais.
Meu Seridó, do grupo Casa de Zoé, de Natal (RN), também correu este risco, mas conseguiu se afastar a tempo e resolver seu desafio. O texto de Filipe Miguez se constitui numa espécie de crônica ou memória histórica da região do Seridó. Lido o texto, identifica-se o excesso de prosaísmo, mas o espetáculo de César Ferrario introduziu um espaço circense (cenografia de Rogério Ferraz), mais a música ao vivo, já que a maioria dos atores também domina algum instrumento musical e, reconstituindo uma espécie de circo mambembe, a história ganha outra perspectiva. Por outro lado, comparando a versão apresentada, identificam-se os vários cortes sofridos pelo texto primitivo, o que mostra senso de crítica e medida, transformando o trabalho num belo e divertido espetáculo e que, por isso mesmo, mais crítico se torna, inclusive pelas interpretações hilariantes de Titina Medeiros e Nara Kelly (elas melhores que eles), Caio Padilha, Marcílio Amorim e Igor Fortunato.
O melhor de toda a semana, contudo, foi um espetáculo experimental, o grupo Coletivo de Criação, de Porto Alegre, com seu Fábrica de calcinha, uma espécie de metáfora da opressão feminina. Mescla absoluta de linguagens: artes plásticas, música, dança, teatro, não sei o que mais admirar, se a interpretação extraordinária de Marina Mendo, que também assina a direção geral, se as intervenções e criações sonoras de Ricardo Pavão - inusitadas e extremamente criativas - ou a criação de luz de Marta Felizardo, sem o quê o espetáculo inexistia. O figurino de Marina Anderle Giongo e os micro espaços criados no pequeno ambiente da Sala Carlos Carvalho permitiram uma experiência única para aqueles que foram conhecer o trabalho. Fiquei imaginando o processo de criação e o tempo necessário para o resultado, que não digo final, mas ao menos aquele a que assistimos, naquela noite. Perturbador e admirável.
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