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Porto Alegre, sexta-feira, 11 de janeiro de 2019.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

artes cênicas

Edição impressa de 11/01/2019. Alterada em 11/01 às 01h00min

O castelo de Hamlet em Oresund

No castelo de Kronborg, em tempos de guerra, canhões guarneciam Dinamarca contra Suécia

No castelo de Kronborg, em tempos de guerra, canhões guarneciam Dinamarca contra Suécia


/THOMAS RANBEK/DIVULGAÇÃO/JC
Antonio Hohlfeldt
Hamlet -  Para onde me conduzes? Não darei mais um passo.
Fantasma - Ouve-me!
Hamlet - Isso é o que desejo.
Parafraseando Hamlet, na peça do mesmo nome, um dos maiores desejos de todo aquele que vai a Dinamarca e, especialmente, a Copenhagen, é visitar o castelo de Elsinor, ou castelo de Kronborg, como é conhecido. A localizada está situada à beira de um estreito que liga o Mar do Norte com o Mar Báltico e que, na altura desta localidade, o estreito de Oresund, não tem mais de quatro quilômetros de distância. Em dias de boa visibilidade, o que não ocorre no inverno, naturalmente, pode-se ver uma cidade desde a outra.
Saindo de Copenhagen, deve-se viajar cerca de uma hora. Pode-se ir sempre por pequenas estradas à beira-mar ou tomar uma rodovia de alta velocidade. Elsinor é uma localidade pequena, mas ali, em 1420, foi construída uma fortaleza, pelo rei Eric da Pomerânia, que passou a cobrar impostos pela passagem dos navios, o que gerou muitos problemas com a Suécia.
O forte já sofreu incêndio, que o destruiu quase completamente, salvando-se apenas a capela. Também foi tomado pelos suecos, em 1658, evidenciando que o mesmo não era tão inexpugnável quanto os dinamarqueses gostavam de pensar. Seja como for, mantido como prisão para assassinos e para escravos, a partir de 30 de novembro de 2000 o conjunto todo foi considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. E para comemorar a passagem dos dois primeiros séculos da morte de William Shakespeare, passou-se a realizar, ali, encenações da peça que tornaram o lugar mundialmente famoso, primeiro, pelos próprios soldados que ali estacionavam, enquanto atores amadores. Hoje em dia, entre primavera e outono, uma companhia profissional não apenas representa a peça quanto contracena com os visitantes, jogando xadrez ou passeando pelas muralhas do castelo.
Olhando-se um mapa da cidade, verifica-se que o castelo está construído numa espécie de promontório, ao lado da cidade, ligado a ela e ao mesmo tempo independente dela, que avança sobre a estreita passagem aquática. Pode-se ir ao castelo sem se passar pela cidade, mas certamente não se vai à cidade sem se visitar o castelo.
O estacionamento de carros fica à distância. Avança-se a pé em direção às muralhas. A primeira delas nos leva a um espaço intermediário, a que se segue outra série de muralhas. Entre uma e outra, à medida em que avançamos, caixas de som estrategicamente dispostas no terreno reproduzem sons de batalha, tropel de cavalaria, gritos de batalha dos soldados se entrechocando e clarins dando sinais de ataque ou retirada. Começamos a encontrar os fantasmas de Elsinor.
Quando chegamos ao pátio interno, vislumbramos o grande quadrado da construção, com cerca de cinco andares, em medidas de hoje, fora as torres que marcam as dobras dos quadriláteros ou indicam os espaços reservados à família real, no segundo piso do edifício. Logo à esquerda do acesso a este espaço, temos a bilheteria e, em seguida, a entrada para os subterrâneos.
Descemos longas escadarias alumiadas por escassa luz de lamparinas elétricas. Imagina-se o que era no século XV e seguintes. Nas áreas subterrâneas, encontramos labirintos. Não nos perdemos porque placas antigas nos indicam o caminho a seguir. O chão é de terra. Os espaços são absolutamente vazios, aparentemente secos, mas com passagens abertas para o exterior, certamente castigam o soldado que ali dormisse ou o escravo a que ali estivesse condenado, a sofrer frios e umidades intensos.
Anda-se com cuidado, até se chegar, adiante, às casamatas guarnecidas de canhão. Vistos do exterior, desde cima, parte destes subterrâneos parecem caminhos de animais que correm até a superfície. Ali, nos anos de conflagração entre Suécia e Dinamarca, soldados zelavam noite e dia, vinte e quatro horas por dia. E os tiros não eram de saudação, como nos aniversários dos integrantes da família real, mas mortais, visando admoestar os capitães que ousassem cruzar o estreito sem pagar impostos ou tentassem atacar a fortaleza.
A mitologia dinamarquesa
Na atualidade, Elsinor parece ser famosa por causa da peça de Shakespeare. Pode-se, contudo, imaginar o contrário. Shakespeare teria localizado sua tragédia nesta corte e neste castelo justamente pela fama de que ele já gozava então. Teria o dramaturgo de Stratford-on-Avon conhecido o lugar? Não se tem qualquer evidência disso, ainda que nas cenas dramáticas multipliquem-se detalhes de cerimoniais e alusões a espaços do castelo que um bom leitor de Shakespeare pode reconhecer facilmente.
Havia muito dinheiro nesta corte, veem-se distribuídos, nas várias peças que se visita, ao longo do segundo piso, móveis fortes, pesados, de madeiras certamente trazidas de longe (da Groenlândia, - talvez? - ainda hoje território vinculado à Dinamarca, ainda que com estatuto de relativa autonomia). As paredes são forradas de tapeçarias simplesmente inimagináveis, como as gigantescas obras que adornam a sala dos reis, mas não se pode dizer que os monarcas dinamarqueses fossem dados à ostentação.
O que encontramos é de qualidade, mas com certa austeridade; de utilidade, sem esbanjamentos (por exemplo, ao contrário do conhecido castelo de Schönnenburg, em Viena): talvez das maiores comodidades é que as peças mais íntimas, como o quarto de dormir e as salas de despacho do rei ou de convivência da ranha dispõem de peças à parte onde se encontram os toiletes, sendo que os dejetos caem diretamente no andar inferior. O salão de audiências por exemplo, é enorme - sugere a distância que os embaixadores deveriam deixar entre si e o rei, quando de seus encontros - e o salão de bailes é extraordinariamente amplo: tudo conta com lareiras suficientemente amplas para garantirem o aquecimento das peças.
A capela, que escapou incólume ao incêndio, também é vetusta, mas conta com um órgão de bom tamanho. E as janelas externas de todo o edifício permitem ampla vista para o estreito, com o movimento de barcos, o que certamente deveria servir de distração às damas de então.
As representações de Hamlet se desenvolvem em diferentes espaços da construção, desde a parte externa às casamatas e às prisões subterrâneas, passando pelos longos corredores e o salão de baile. Isso significa que o espectador deve-se dispor a acompanhar a equipe, deslocando-se permanentemente de um espaço para o outro.
Certamente a visita de sonhos de todo o turista é num dia de sol esplendoroso e com um céu muito azul, contra o qual se elevariam as torres do prédio. No meu caso, visitei-o num dia de teto baixo, céu escuro, rajadas de vento e uma temperatura nada amigável: confesso, porém, que achei o cenário mais fiel àquele imaginado pela leitura da tragédia shakespereana. Em algum momentos, quando subi às muralhas, se já fosse o final do dia - quer dizer, em torno das 16 horas - poder-se-ia esperar uma antecipação da visita do fantasma do rei assassinado, a clamar por vingança e a instar os visitantes a percorrerem as dores por que passou depois de ingerir o veneno que lhe foi colocado na bebida.
Este é um passeio obrigatório para quem chegue a Copenhagen, valorizado pelo fato de nas dependências do castelo também encontrar-se uma grande Olge Danske - O Grande Dinamarquês - segundo a lenda, eternizada no texto de Hans Christian Andersen, aí descansa até o dia em que o país eventualmente for atacado e ele deva se mobilizar para defender a pátria.
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