Porto Alegre, terça-feira, 23 de novembro de 2021.
Porto Alegre,
terça-feira, 23 de novembro de 2021.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Pensar a Cidade

- Publicada em 02/03/2021 às 21h13min.

Urbanismo voltado à mulher garante cidade mais inclusiva

Projeto

Projeto "parada segura" para o transporte, de um coletivo feminino de Porto Alegre, foi destacado pelo BID


Divulgação/Turba
Quando a cidade é pensada para mulheres, é pensada para todas as pessoas. Esse conceito é o mote de um movimento que se manifesta com diferentes denominações: urbanismo a partir da perspectiva de gênero, urbanismo feminista ou cidades inclusivas para as mulheres - todas com o objetivo em comum de mudar a forma de pensar a cidade considerando a perspectiva feminina.
Quando a cidade é pensada para mulheres, é pensada para todas as pessoas. Esse conceito é o mote de um movimento que se manifesta com diferentes denominações: urbanismo a partir da perspectiva de gênero, urbanismo feminista ou cidades inclusivas para as mulheres - todas com o objetivo em comum de mudar a forma de pensar a cidade considerando a perspectiva feminina.
Paula Motta, vice-presidenta do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), explica que o movimento "nasce da ruptura, de entender que o ensino do urbanismo veio de uma lógica neutra, feito majoritariamente por homens, e que não é inclusivo, ainda menos para as mulheres". Isso porque, continua, o urbanismo pensado com base nas necessidades das mulheres parte da experiência, uma diferença para o planejamento tradicional.
Exemplo disso é a mobilidade atrelada à função de cuidado que elas incorporam no cotidiano e que não é atendida pela lógica linear do transporte coletivo, elaborada para a demanda casa-trabalho-casa. Para mulheres, a rotina inclui passar na escola para deixar ou buscar as crianças, visitar familiares idosos, ir ao supermercado, e a lista segue.
Mas, seja por falta de recurso para pagar mais uma passagem ou pela ausência de linhas que atendam esses trajetos, muitas vezes o caminho a pé é o único possível, feito à noite e em lugares pouco iluminados, o que expõe a mulher a situações de risco em que ela "se sente insegura, mas não consegue perceber porque", alerta Paula.
Dados mostram que a insegurança que atinge majoritariamente o gênero feminino não é apenas sensação. No Rio Grande do Sul, em 2020, das mais de 42 mil ocorrências de lesão corporal registradas (leve, culposa, seguida de morte e outras, considerando casos consumados), 28 mil, ou dois terços, foram contra mulheres. Dos estupros, 3.119 dos 3.612 foram contra mulheres ou meninas, o que representa 85% do total.
Os dados são da Secretaria Estadual de Segurança Pública e, embora não especifiquem se ocorreu em espaço público ou privado, expõem a situação de violência a que mulheres estão mais sujeitas. A falta de dados cruzados - como tipo de violência atrelado ao local e ao gênero da vítima - leva governos a ignorar a relação entre as políticas de segurança e outras áreas do planejamento urbano.
Roberta Edelweiss, que coordenou a Comissão de Equidade de Gênero do Conselho de Arquitetura e Urbanismo no Estado (CAU/RS), aponta a relação entre segurança e mobilidade na iniciativa que, à noite, permite a passageiros de ônibus descer em qualquer parte do trajeto, e não apenas na parada. Em Porto Alegre, a medida vale das 21h às 5h de segunda a sábado, e a partir das 20h nos domingos e feriados. "Embora não trate diretamente (de uma política) de gênero, garante maior segurança para a mulher, que é mais assediada", sustenta Roberta.
Paula acredita que essa deve ser a "virada de chave" para o planejamento: "que o marcador de gênero seja incluído transversalmente em todas as políticas". O caminho para isso é a representatividade feminina, sustenta a arquiteta e urbanista Cecília Esteve: ter mais mulheres em posição de comando e representadas no espaço público, além de garantir que o planejamento urbano se dê a partir de fóruns com acesso público e diverso.

Projeto busca segurança na parada

Como voltar à rua e reativar espaços públicos na cidade pós-pandemia? A provocação foi o ponto de partida do concurso de ideias "Volver a la calle", realizado, em 2020, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em busca de soluções sustentáveis, inclusivas e resilientes na América Latina e Caribe. Dentre as menções honrosas, está o projeto "parada segura", de Porto Alegre, apresentado pela Turba - coletivo formado só por mulheres que estimula a igualdade de gênero na construção de cidades através de ações colaborativas no espaço urbano.
Paula Motta, co-fundadora da Turba, conta que a proposta é incluir elementos de segurança - iluminação, informações de trajeto ou telefones úteis. Pinturas na própria calçada indicariam rotas seguras, como um ponto comercial ou o espaço público mais próximo. O projeto sugere a intervenção no bairro Sarandi onde, além da alta demanda por transporte, foram identificadas muitas paradas sem cobertura e calçadas irregulares.
O modelo desenhado por elas é classificado como urbanismo tático - intervenção urbana de baixo custo e rápida aplicação, que tem como objetivo servir como "teste", para saber se o modelo faz sentido para quem usa. É a partir do sucesso da experiência que a iniciativa é replicada no espaço urbano. Caso não dê certo, foi somente uma experiência localizada, e não um processo maior.
Para ser implementado, o projeto "parada segura" depende de apoio financeiro. Caso saia do papel, passaria por mais uma fase: a validação comunitária, com contribuições do público.
Conteúdo Publicitário
Comentários CORRIGIR TEXTO