Porto Alegre, quinta-feira, 03 de setembro de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quinta-feira, 03 de setembro de 2020.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

- Publicada em 21h37min, 25/08/2020. Atualizada em 13h41min, 03/09/2020.

Reduzir poluição deve vir de planejamento, diz organização

Queda de movimentação nas ruas em todo o planeta ajudou a reduzir os índices de poluição no ano

Queda de movimentação nas ruas em todo o planeta ajudou a reduzir os índices de poluição no ano


/NÍCOLAS CHIDEM/JC
Há cinco décadas, o ser humano consome mais do planeta em um ano que a sua capacidade de regenerar os recursos naturais nesse mesmo período. Como alerta foi criado o "Dia da Sobrecarga da Terra", que define quando entramos em déficit com a natureza - o cálculo considera nossos hábitos de consumo e de exploração do ambiente em busca de recursos como alimentação, madeira, fibras, sequestro de carbono e infraestrutura. Em 2020 o dia chegou em 22 de agosto.
Há cinco décadas, o ser humano consome mais do planeta em um ano que a sua capacidade de regenerar os recursos naturais nesse mesmo período. Como alerta foi criado o "Dia da Sobrecarga da Terra", que define quando entramos em déficit com a natureza - o cálculo considera nossos hábitos de consumo e de exploração do ambiente em busca de recursos como alimentação, madeira, fibras, sequestro de carbono e infraestrutura. Em 2020 o dia chegou em 22 de agosto.
Para explicar o que é essa capacidade de suporte da Terra, Francisco Milanez, presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), compara os recursos naturais com o salário. Nessa metáfora, o dinheiro dura só até dia 19, mas até o dia 30 a pessoa segue gastando o que ainda não ganhou. Assim, o salário do mês seguinte já chega comprometido - e com juros. "Mas uma hora não tem mais dinheiro e a dívida é gigante. Com o planeta é assim, a partir de agora estamos gastando os bens, a energia que seriam dos nossos filhos e netos", lamenta.
Nesse ano, contudo, o Dia de Sobrecarga da Terra chega três semanas depois da data em 2019, mudando a tendência histórica de acontecer mais cedo a cada ano e retornando ao patamar do início do milênio. O motivo para isso é a pandemia de Covid-19, que restringiu a circulação de pessoas e mercadorias em todo o mundo, explica a Global Footprint Network - rede que calcula essa nossa "pegada ecológica" a nível global".
Porém, mesmo com melhora nos índices de poluição nesse ano, não há motivo para comemorar. Seguindo a analogia aos recursos financeiros, a organização sustenta em seu comunicado que "é preciso alcançar um mundo em que a humanidade viva dentro do orçamento ecológico do nosso planeta por planejamento e não por catástrofe".
Para Milanez, que é biólogo e arquiteto e urbanista, o caminho tem mão dupla: por um lado, educação ambiental constante; do outro, proibir por lei práticas nocivas ao meio ambiente. "A educação pode levar 30 anos para gerar resultados e não temos esse prazo para muitas espécies", alerta.
Outra resposta é o movimento "mude a data", capitaneado pela Global Footprint Network. A ideia é postergar a sobrecarga da Terra em pelo menos cinco dias a cada ano, buscando uma situação de equilíbrio até 2050. Atingir isso passa por atitudes individuais e coletivas, com destaque especialmente para os governos locais.

Mudança passa pelo jornalismo com pauta ambiental

Reverter o déficit da humanidade com o planeta passa por mudanças de atitudes de empresas e governos para reduzir significativamente a emissão de gases poluentes e a extração de recursos naturais. A Global Footprint Network estima que nos dias de hoje é preciso 1,6 planetas para dar conta do nosso consumo de recursos naturais.

Contudo, o debate ambiental ainda é visto como uma preocupação de nicho e estigmatizado mesmo entre gestores públicos, avalia Débora Gallas, doutoranda em Comunicação na Ufrgs. "A pauta ambiental é tida como supérfluo e que a preocupação primeiro tem que ser com a sustentabilidade econômica. Mas o meio ambiente está ligado com as variáveis política e econômica, não é nicho", alerta.

Gallas integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental Ufrgs/CNPQ, que avalia a cobertura jornalística dessa temática. Sob essa ótica, o Dia da Sobrecarga da Terra é uma ferramenta didática para entender qual é o nosso impacto no planeta e uma oportunidade de trazer a pauta ambiental para o debate público.

Porém, a falta de abordagem crítica do tema pela imprensa gera a sensação de que não há alternativa para o rumo que a humanidade vem tomando nos últimos anos, alerta a vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa, Eloisa Beling Loose, em artigo sobre o tema.

Nessa linha, Gallas sustenta que mesmo as pequenas ações individuais fazem diferença na nossa relação com a natureza. Contudo, para extrapolarem o "nicho", é preciso um sistema que incentive as pessoas a tomar essas atitudes. "É papel do jornalismo publicizar as possibilidades", conclui.

Solução para emissão de poluentes está nas cidades

Em 2012 o então secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, disse que "nossa luta pela sustentabilidade global será vencida ou perdida nas cidades". No contexto desta declaração estava um dado de relatório da ONU sobre cidades e mudanças climáticas: os centros urbanos geram 70% dos gases que causam o aquecimento global.

"Se nas cidades estão as emissões de dióxido de carbono e se já atingimos a sobrecarga do planeta (para o ano), a solução tem que sair das cidades", defende Rodrigo Corradi, gerente de Relações Institucionais e Advocacy do escritório Iclei da América do Sul. E sendo o município a esfera de governo mais próxima das pessoas, Corradi entende este como um dos motivos para municipalizar o debate sobre sustentabilidade.

Um caminho para isso é refletir a pauta na escolha dos gestores. É o caso de uma pessoa preocupada com o consumo consciente, que se importa se a produção é sustentável, consome menos água e é resultado de um trabalho digno, por exemplo. "Ao votar, o cidadão deve estar consciente que essas são pautas para vereadores e prefeitos e exigir ações do município", sustenta.

Google.org aposta no investimento de ações locais

O Google.org, braço filantrópico da empresa de tecnologia, se propõe a ajudar as cidades a reduzir suas emissões de gás carbônico em mais de 1 bilhão de toneladas ao ano até 2025. A meta tem um horizonte mais longo e audacioso: reduzir pela metade as emissões de CO2 até 2030 e atingir a neutralidade de carbono em 2050.

Para isso, criou em 2019 um fundo que apoiará projetos locais para mudanças climáticas. No Brasil, o fundo é gerido com parceria do Iclei e contemplará quatro iniciativas não governamentais com esse foco, duas em Porto Alegre e duas em Curitiba. O edital está aberto até o dia 4 de setembro.

Rodrigo Corradi, do Iclei, explica que a aposta do Google.org é capacitar pessoas das cidades contempladas para esse trabalho. "A solução só tem capacidade de ser verdadeira quando passa pela cidadania", sustenta. Depois de pronto, o resultado será entregue ao governo local para a implementação.

Além do recurso financeiro - cada iniciativa receberá R$ 660 mil - o Google também disponibiliza acesso à plataforma EIE (Environmental Insights Explorer), que agrega dados de emissão de poluentes dos meios de transporte e do potencial de geração de energia solar em coberturas de edifícios. Acesse mais informações sobre o Action Fund no blog Pensar a cidade.

Comentários CORRIGIR TEXTO