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Porto Alegre, terça-feira, 21 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
terça-feira, 21 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 21/07/2020.
Alterada em 20/07 às 21h16min

A recuperação da China e o Brasil

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Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance, é doutor em economia pela USP
Na quinta-feira (16), foi divulgada a taxa de crescimento da economia chinesa no 2º trimestre, ante o mesmo trimestre do ano passado. Foi de 3,2%, um pouco acima dos 2,7% que esperávamos no Ibre. Para o ano, estimamos que a economia chinesa cresça 1,2%.
Dado que a economia chinesa havia recuado 6,8% no 1º trimestre de 2020 ante o 1º de 2019, a recuperação foi muito forte. A China já roda a um nível ligeiramente acima daquele do 4º trimestre de 2019, logo antes do início da epidemia por lá.
Segundo nossa previsão, no 4º trimestre a China estará um ponto percentual abaixo do ponto em que estaria se não houvesse a pandemia, dada a tendência de crescimento da economia, de 5,6% ao ano.
Para o Brasil, o Ibre-FGV revisou o crescimento para 2020 de queda de 6,5% para recuo de 5,5%. No 2º trimestre, o PIB deve cair 10,8% em relação ao mesmo trimestre de 2019.
Tudo sugere que o crescimento norte-americano será muito parecido com o brasileiro: queda de 5%, com mergulho de 10%, ou pouco menos, no 2º trimestre ante o 2º tri do ano passado.
O desempenho da China tem sido bem melhor do que o brasileiro ou o americano. A comparação é difícil, pois a tendência de crescimento da China é muito maior do que a do Brasil ou a dos EUA.
Mas um exercício simples mostra que a China vai bem, mesmo levando em conta essa diferença.
Se a tendência de crescimento da China fosse de 1,5% ao ano, próxima da brasileira e da americana, e tudo o mais constante, a economia chinesa iria sofrer uma queda de 2,5% neste ano (comparado à nossa projeção de crescimento de 1,2%, dada a tendência real). Ainda assim, portanto, o recuo da China seria menor do que projetado para o Brasil e os EUA, na faixa de 5% a 5,5%.
A China tem se saído melhor do que o Brasil ou do que os EUA porque a participação dos serviços no PIB, o setor que mais sofre com a pandemia, é bem menor no país asiático, além de estar lidando melhor com a pandemia.
Para 2021, nossos números - muito especulativos - sugerem forte crescimento chinês, de 9%, que joga o país de volta à trajetória de expansão que teria ocorrido sem pandemia. Muito provavelmente no segundo semestre de 2021 a população chinesa, ou parte expressiva dela, estará vacinada.
Voltando ao nosso exercício anterior, se a tendência de crescimento da China fosse de 1,5%, a alta do PIB em 2021, depois do recuo (hipotético) de 2,5% em 2020, seria de 6%. Forte devolução também.
Qual será o comportamento de Brasil e EUA? Se a China irá devolver toda a perda econômica com a pandemia praticamente até o fim de 2021, por que motivo não devolveríamos toda a nossa perda em um pouco mais de tempo?
Muitos analistas enxergam grandes dificuldades com a atividade econômica no Brasil em 2021, pois haveria forte contração fiscal.
Minha interpretação, que já expressei neste espaço em 16 de maio, é que a elevação do gasto público na crise não pode ser entendida como uma expansão fiscal estimulativa. Não estamos gastando mais para estimular a atividade produtiva, mas sim para permitir que as pessoas fiquem em casa.
Se houver retirada de estímulo fiscal coordenada com o retorno da atividade produtiva, pode haver troca do impulso público pelo privado, sem impedir a retomada da economia.
O impedimento hoje é a forma pouco eficiente como temos lidado com a crise sanitária.
Algumas notícias positivas, baseadas na redução do limite de imunizados em uma população - em razão de heterogeneidades dessa mesma população - para que haja imunização natural, indicam que talvez tenhamos uma solução mais definitiva antes da vacina.
De qualquer forma, após a devolução da perda da crise, voltaremos à nossa mediocridade de sempre.
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