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Porto Alegre, quarta-feira, 01 de agosto de 2018.

Jornal do Comércio

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Opinião Econômica: Alexandre Schwartsman
Alexandre Schwartsman

Opinião Econômica

Edição impressa de 01/08/2018. Alterada em 31/07 às 22h36min

Elogio da virtude

O Copom (Comitê de Política Monetária) se reúne, nesta semana, em situação menos tensa do que em meados de junho, quando havia apostas no mercado de renda fixa acerca de uma iminente elevação da Selic.
O encarecimento do dólar, que chegou próximo a R$ 4,00, e os problemas de abastecimento ocasionados pela crise dos transportes, agravados pela elevação das tarifas de energia, sugeriam a possibilidade de aceleração da inflação, motivando operadores - nem tanto os economistas - a acreditar na necessidade de reação imediata do Banco Central (BC).
Houve, é claro, efeitos bastante negativos sobre a inflação de curto prazo. Os números relativos a junho foram feios, para dizer o mínimo.
O IPCA, índice oficial de inflação, chegou a 1,26% - não só o mais alto desde janeiro de 2016, mas também o maior para o mês em todo o período do regime de metas -, levando a inflação, em 12 meses, para 4,4%, bem próxima ao objetivo deste ano (4,5%).
Apesar disso, o virtual consenso, ao menos entre os economistas, aponta para a manutenção da taxa Selic agora, bem como nas próximas reuniões. Essa relativa tranquilidade resulta, em parte, de indicações que sugerem que o choque de junho vem se dissipando rapidamente.
De acordo com o Boletim Focus, por exemplo, a inflação deve ficar próxima a 0,3% em julho e a 0,1% em agosto. Da mesma forma, medidas de inflação menos sujeitas aos humores de preços voláteis ("núcleos" de inflação, segundo o jargão) mostraram números bastante inferiores aos registrados pelo IPCA propriamente dito, sugerindo que a maior parte da feiura de junho esteve relacionada a fenômenos que não devem contaminar a inflação de maneira persistente nos próximos meses.
No entanto, a calma vem não apenas do comportamento da inflação no curto prazo, mas crucialmente do desempenho das expectativas para prazos mais longos.
É claro que o número de junho pesou na previsão da inflação para 2018, que veio de 3,5%, em maio, para 4,1% em julho. Todavia, as projeções para 2019, 2020 e 2021 se mantiveram praticamente inalteradas (houve leve aumento da expectativa para 2019, de 4,0% para 4,1%) e muito próximas às metas para aqueles anos.
Para usar a expressão consagrada pelo Copom, as expectativas de inflação se mantiveram "ancoradas", isto é, estáveis e ao redor das metas, fenômeno que, auxiliado pela considerável ociosidade na economia, limita muito o potencial de repasse dos efeitos inflacionários do dólar mais alto e dos demais choques que se materializaram em junho.
Expectativas ancoradas marcam a diferença do ocorrido agora e do observado em 2015 e 2016, quando, apesar da queda abrupta de atividade, houve repasse tanto da desvalorização da moeda como da correção de preços administrados. Naquele momento, as expectativas para os anos posteriores se afastaram ainda mais das metas, apontando para a percepção de perda de controle por parte do BC, estimulando, dessa forma, o contágio da inflação.
Conseguir, porém, que as expectativas permaneçam estáveis e próximas à meta não depende de sorte, mas de um conjunto de decisões anteriores que revelaram o compromisso do BC com a meta.
A atual diretoria o fez, assim como a diretoria que antecedeu a desastrosa gestão de Alexandre Pombini. Não por acaso, ambas conseguiram reduzir a taxa de juros diante de crises severas, enquanto Pombini teve que fazer o oposto.
A virtude se paga, mas é necessário exercê-la.
Consultor, ex-diretor do Banco Central (2003-2006), doutor pela Universidade da Califórnia
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