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Tecnologia

11/06/2020 - 13h10min. Alterada em 25/06 às 01h02min

Mercado gaúcho reage à liquidação da Ceitec

Projeto da fábrica de chips situada em Porto Alegre teve doação de equipamentos da Motorola

Projeto da fábrica de chips situada em Porto Alegre teve doação de equipamentos da Motorola


CEITEC/DIVULGAÇÃO/JC
"Uma punhalada na estratégia da indústria 4.0 do Brasil." É desta forma que o engenheiro e professor Adão Villaverde encara a decisão do governo federal de liquidar a Ceitec, confirmada nessa quarta-feira (10). 
"Uma punhalada na estratégia da indústria 4.0 do Brasil." É desta forma que o engenheiro e professor Adão Villaverde encara a decisão do governo federal de liquidar a Ceitec, confirmada nessa quarta-feira (10). 
Villaverde foi um dos principais articuladores da vinda da empresa para o Rio Grande do Sul e era secretário da Ciência e Tecnologia quando, em 1999, a Motorola bateu martelo e fez a doação dos equipamentos que deram o início à fábrica situada em Porto Alegre.
“Tivemos uma disputa grande com São Paulo, mas lá o projeto seria uma espécie de laboratório dentro da Universidade de São Paulo (USP). A proposta gaúcha agradou mais por ser mais ampla e envolver diversos atores. Queríamos e fizemos uma fábrica de chips que durante muito tempo foi à única abaixo da Linha do Equador”, relembra.
As expectativas em torno da Ceitec eram grandes. Chip do boi, chip para o passaporte ou de identificação veicular estão no portfólio, mas nunca chegaram a alcançar de forma representativa o mercado. E a verdade é que já faz algum tempo que a empresa pública de semicondutores vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), instalada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, está na berlinda.
Sempre questionada por parte da sociedade por ainda ser dependente de recursos do Tesouro, enfrentou no início de 2019 rumores de que seria fechada e os funcionários demitidos. Na época, a informação foi negada pelo MCTIC.
Ontem, em coletiva de imprensa com representantes do Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos, a secretária especial de PPI, Martha Sellier, admitiu que será mesmo feita a recomendação ao presidente da República, Jair Bolsonaro, da liquidação da Ceitec.
O secretário executivo do MCTIC, Julio Semeghini, afirma que a decisão foi por tentar qualificar a Ceitec como uma Organização Social (OS) e, assim, preservar parte dos talentos e dos ativos, especialmente os intangíveis, como as patentes geradas nos últimos anos. A ideia é transferir isso para o ministério. “A liquidação não será feita de qualquer forma. Não queremos ter uma interrupção nos projetos da Ceitec e se houver interessados em absorver a parte que não fará parte da OS, queremos que essa empresa mantenha essa produção industrial no País”, relata.
Semeghini destacou o quadro técnico da Ceitec, com mestres, doutores e especialistas, e grande quantidade grande de patentes e designs de circuitos desenvolvidos, e que, segundo, ele precisam ser preservados. Mas, disse que estão claras as dificuldades enfrentadas pela empresa.
“O investimento na Ceitec é de mais de R$ 800 milhões ao longo dos anos, e os resultados não têm sido atingidos. A empresa fatura cerca de R$ 15 milhões, e tem um orçamento por ano de R$ 86 milhões”, comentou.
De fato, por inúmeras vezes, o fato de a Ceitec não ser lucrativa endossou o discurso de quem defende a sua extinção. Mas, para muitos especialistas, a capacidade de gerar lucro não deveria ser o fator primordial a considerado em uma companhia com esse perfil.
“Não dá para confundir os limites da Ceitec com o seu potencial estratégico. Nunca foi o propósito ser uma gigante global de semicondutores, e sim uma indutora da política microeletrônica do País, o que de fato aconteceu”, observa Villaverde.
O engenheiro, acionista da HT Micron e CEO da Ayga, Luiz Gerbase, diz que a Ceitec colocou o Brasil no cenário da microeletrônica global. “Muita coisa se aprendeu neste tempo e muita gente qualificada foi formada. O próprio surgimento da HT Micron é uma consequência disso, já que tudo começou com o interesse dos coreanos no Ceitec e no ambiente que estava sendo criado no Brasil. Fica esse legado”, diz. A HT Micron fatura hoje mais de US$ 100 milhões, tem 200 funcionários e tem se destacado pelo desenvolvimento de projetos globais.
Mas, o que deu errado? Para Gerbase, uma das falhas foi não tornar o governo brasileiro o maior cliente da Ceitec. A expectativa era grande, por exemplo, por compras substanciais do chip do passaporte, desenvolvido em Porto Alegre e considerado de alto padrão por especialistas. Mas isso não aconteceu.
Além disso, o mercado de microeletrônica é altamente competitivo e exige investimentos pesados. “Sempre se comentou muito do uso do dinheiro público para a Ceitec, mas esse mercado é a base da economia moderna. O potencial está no fornecimento para celulares, televisores, carros e centenas de dispositivos, e isso exige muitos recursos, na casa dos bilhões. O que se colocou é ínfimo”, aponta Gerbase, profundo conhecedor deste mercado.

Expectativa era ser a nova Embraer, relembra especialista

Projeto não saiu como previsto, mas não fracassou, frisa Edelweis
Mesmo que não tenha saído como planejado, não quer dizer que houve fracasso, diz gestora
PATRÍCIA KNEBEL/ESPECIAL/JC
As altas expectativas sempre acompanharam a Ceitec, desde quando a empresa surgiu com a missão de colocar o Brasil no mapa global da microeletrônica, área fundamental para praticamente tudo que envolve a vida moderna e o uso de dispositivos tecnológicos.
Uma das primeiras funcionárias da Ceitec e com experiência em companhias como Semikron Brasil, Atacama Ventures e Unitec Semicondutores, a atual CIO da HT Micron, Edelweis Ritt, recorda que havia uma expectativa na época de que a Ceitec fosse ser como a Embraer, que começou estatal, foi privatizada e se tornou referência global.
Mas, isso não aconteceu. “As coisas não saíram como o planejado, mas isso não quer dizer que o projeto foi fracassado. Muitas pessoas formadas pela Ceitec foram seguir carreiras no exterior, outras resolverem usar a base adquirida e empreenderam, criando startups nessa área”, analisa.
E se tivesse mais recursos? E se tivesse melhor gestão? E se não fosse ligada ao governo e, assim, pudesse ser mais ágil? Para a gestora, o mercado de semicondutores é global e conseguir se inserir nesta cadeia global exige muitas coisas. “Não dá para reduzir um negócio complexo como esse, que tem apenas 100 players no mundo, a um único fator de sucesso ou não”, diz Edelweis.
O diretor do Zenit e diretor de Programas Especiais da Sociedade Brasileira de Microeletrônica (SBMicro), Marcelo Lubaszewski, comenta que, durante muito tempo, as críticas à Ceitec recaíram no produto. Mas, na verdade, o foco deveria ser na solução e na criação de um ambiente para fazer a empresa prosperar.
“Faltou investimento para fortalecer a empresa, mas na verdade o que mais faltou foi autorização e agilidade do acionista principal, que é o governo federal. Não podíamos, por exemplo, fazer joint venture para acessar outros mercados”, recorda ele, que foi presidente da Ceitec de 2013 a 2016.
Para Lubaszewski, o grande valor da Ceitec sempre foi poder contribuir para o desenvolvimento de um ecossistema da indústria eletrônica. “Esse mercado é de alto valor agregado, com cadeias globais e altamente especializadas. É estratégico e isso explica porque as grandes nações tem uma linha de ação robusta para essa indústria. A Ceitec foi e continuará sendo importante na nossa curva de aprendizado”, aponta.

Clima entre funcionários da Ceitec é de frustração

CADERNO DIA DA INDÚSTRIA 2014 – MATÉRIA TECNOLOGIA – PROCUÇÃO DE CHIPS CEITEC S.A. - CREDITO NABOR GOULART DIVULGAÇÃO CEITEC S.A.
O clima entre os colaboradores da Ceitec é de muita apreensão nos últimos dias
CEITEC S.A/DIVULGAÇÃO/JC
O clima entre os colaboradores da Ceitec é de muita apreensão nos últimos dias, em função do medo dos empregos que poderão ser perdidos, especialmente nas áreas administrativas. E de frustração entre o corpo técnico, algo que, aliás, já vem se estendendo há mais tempo, conforme conta um engenheiro da empresa, que prefere não se identificar.
“É triste desenvolver produtos extremamente qualificados, às vezes com poucos similares no mercado global, e depois ver que produto nunca chegou ao mercado”, diz. Ele conta que das 15 pessoas do corpo técnico que desenvolveu o projeto do chip do passaporte, só resta uma. As demais foram contratadas por players globais, como Qualcomm e ARM, NXP, ou estão fazendo doutorado no exterior.
Para o funcionário da Ceitec, que está na operação há muitos anos, o problema nunca foi capacidade técnica das pessoas que atuam diretamente no desenvolvimento dos produtos. “A grande questão sempre foi a gestão. Ou estivemos sob a liderança de políticos ou de profissionais da área acadêmica que, apesar de altamente qualificados, não são gestores de negócios”, comenta.

Especialistas opinam sobre o fim da estatal de tecnologia

Expointer 2019 - Debate Inovação no Agronegócio, realizado na casa do JC, mediado pela jornalista Patrícia Knebel. Luis Lamb, Secretário de Inovação Tecnológica e Ciência
A Ceitec reuniu competências e capital intelectual, diz Luis Lamb
JACKSON CICERI/ESPECIAL/JC
“A Ceitec reuniu competências e capital intelectual, produziu conhecimento em áreas de uma indústria que ainda tem muito a crescer e a contribuir no Brasil. Esperamos que as competências e as atividades-fim da Ceitec, mesmo que num modelo privado, sejam muito bem avaliados e preservados no Estado”. Luis Lamb, secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul
“Acredito que o modelo OS permitirá manter o patrimônio físico e intangível, know how técnico e comercial da empresa. É uma opção à gestão de ativos que preserva a visão estratégica de nação. O governo deveria adotar uma estratégia adequada para a alta tecnologia aqui instalada. Mas, vale destacar que existe muita desinformação à sociedade quanto ao valor investido na empresa. O investimento real desde o início da construção da fábrica, em 2005, foi mínimo, o que comprometeu a estratégia de colocar a sala limpa em produção frontend. O backend de encapsulamento opera há dez anos e tem garantido em combinação com o design próprio de chips, o faturamento da estatal”. Sergio Bampi, professor de microeletrônica do Instituto de Informática da Ufrgs
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