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Notícia da edição impressa de 04/10/2019.
Alterada em 03/10 às 21h18min

O melhor romance de Georges Bernanos

Edição de Senhor Ouine, pela É Realizações Editora, tem apresentação do crítico Álvaro Lins

Edição de Senhor Ouine, pela É Realizações Editora, tem apresentação do crítico Álvaro Lins


REPRODUÇÃO/JC
Não há dúvida de que o melhor romance do aclamado escritor francês George Bernanos (Paris, 1888 - Neuilly-sur-Seine, 1948), que viveu no Brasil de 1938 a 1945, é Senhor Ouine, ora relançado no Brasil pela É Realizações Editora (286 páginas, tradução de Pablo Simpson). A cuidadosa edição tem apresentação do célebre crítico Álvaro Lins e o prefácio da edição francesa, de autoria de Pierre-Robert Leclercq.
Não há dúvida de que o melhor romance do aclamado escritor francês George Bernanos (Paris, 1888 - Neuilly-sur-Seine, 1948), que viveu no Brasil de 1938 a 1945, é Senhor Ouine, ora relançado no Brasil pela É Realizações Editora (286 páginas, tradução de Pablo Simpson). A cuidadosa edição tem apresentação do célebre crítico Álvaro Lins e o prefácio da edição francesa, de autoria de Pierre-Robert Leclercq.
A É Realizações já publicou, na Coleção Georges Bernanos, no Brasil, os títulos Sob o sol de satã; Nova história de Mouchette; Diário de um pároco de aldeia; Um sonho ruim; Juliana, relapsa e santa; Diálogos das carmelitas; Os grandes cemitérios sob a lua e A França contra os robôs. Bernanos foi um grande jornalista e escritor, participou intensamente da vida política da França, foi soldado de trincheira na Primeira Guerra Mundial e repórter na Guerra Civil Espanhola. Em Barbacena, na fazenda Cruz das Almas, em uma casa onde viveu, existe o Museu Georges Bernanos.
Senhor Ouine começa com o aparecimento de um cadáver nu de um jovem criado junto ao lago, na pequena cidade de Fenouille, no Norte da França. A inércia do vilarejo é rompida com a notícia do assassinato, que coloca os habitantes em cena e suscita suspeitas e denúncias, mais motivadas, diga-se de passagem, pelo rancor do que pela preocupação com a justiça. O culpado não seria a própria cidadezinha, presa em seu novelo de curiosidade e ódio?
Do enredo, muito ao gosto da arte de Bernanos, brotam a profundidade e a complexidade da natureza humana, temas que o autor trabalhou com talento e dedicação.
Escreveu Álvaro Lins: "Na sua literatura, o que esplende, acima de tudo, é a sua natureza humana. Natureza que revela orgulho, humildade, violência, ternura, gritos, confidências, ódios, paixões, justiça, clarividência, inocência, realidade e poesia: toda a tragédia católica dos elementos humanos em oposição".
Pierre-Robert Leclercq escreveu no prefácio: "Senhor Ouine denuncia a tibieza de 'cristãos que não querem confessar a falência da cristandade'".
Bernanos disse: "Senhor Ouine é o que fiz de melhor, de mais completo. Posso ser condenado a trabalhos forçados, mas deixem-me sonhar em paz com este livro".

Lançamentos

  • Contos de Pégaso (Editora Movimento, 176 páginas), do médico, professor universitário e escritor pelotense Rogério Xavier, traz 48 contos com linguagem ágil e meio épica, entremeados a muitas perguntas e reflexões. Imagens, memórias, livros, lugares e óperas lá estão. Apresentação da professora e escritora Hilda Simões Lopes.
  • Lord Baccarat (AGE Editora, 160 páginas) apresenta a quarta edição revista do romance do consagrado professor, conferencista e premiado escritor Alcy Cheuíche, trazendo a bela e cinematográfica narrativa que envolve amor, esperança, recomeço e afeto. Apresentações de Fernando Lucchese e Lucas Zamberlan.
  • Fractais no café (Libretos, 156 páginas), volume de poemas que marca a estreia literária de Mara Reichert, apresenta versos sobre amor, vida, arte, viagens, Nova Iorque, Chicago e muitos temas atuais. Por exemplo: "Fazer amigos/ É arte séria/ Exige preliminares/ Empatia e a tutela/ De um toque etéreo. Apresentação de Maria do Carmo Campos".

Brasilino teve um sonho

Brasilino está com 120 anos, mas lúcido e vivendo isolado numa praia deserta. Diz que se movimenta, com sua cadeira de balanço azul, para frente, para trás, para a direita e para a esquerda, e "tem épocas que fico no centro. Sou tipo assim como o Brasil", diz ele, olhando para o eterno movimento das ondas do mar e lembrando que já foi pobre, rico, pobre de novo, rico de novo, rural, urbano, fazendeiro, industrial, político e administrador público e, agora, gosta de ouvir o silêncio e pensar que, no fundo, prefere amar a Pátria do que tentar entendê-la. "Já fui tudo e nada, mas tenho esperança, ainda, de algumas novidades boas para meus tataranetos", diz ele, enquanto bebe uma água de coco e brinca falando que Deus se esqueceu de levá-lo, que vai, hora dessas, chamar um Uber para ir para o andar de cima. "O Sarney e a rainha Elizabeth, para mim, são jovens, tipo imortais, como eu", ele diz, sorrindo.
Brasilino era piá quando nasceu a República, tinha 10 anos. Suas centenárias retinas viram militares, civis, movimentos, revoluções, aberturas e fechamentos, "groceries e delicatessen", dinheiro faltando e sobrando nas capitais velha e nova. Ele viu e viveu tudo, participando ativamente, quase sempre ao lado dos governos, pois, como diz ele: "sempre fui ligeiro da cabeça", "boi lerdo bebe água suja", "dinheiro público é como água benta, todo mundo põe a mão", "é dando que se recebe" e "negócio com o governo é bom até quando é de graça". Brasilino, justiça seja feita, fez até coisas boas para seu país, estado e eleitorado. Algumas escolas, hospitais, estradas, ele não ficou com tudo para ele. Agora, prefere ficar quieto na casa da beira da praia e apenas acompanhar o rolar dos acontecimentos.
Brasilino tem alguns momentos de "ausência", de devaneios, e, na noite passada, diz que teve um sonho esquisito. Sonhou que vieram de um planeta desconhecido e distante líderes, grandes grupos em enormes naves, com muitos equipamentos, e que pousaram perto do que parecia a capital. Logo, incrível e pacificamente, os extraterrestres foram envolvendo o poder, traçando novos rumos. Os alienígenas diziam coisas estranhas, como "é proibido gastar o que não se tem", "não podemos nos dispersar", "vamos ver o que é melhor para os brasileiros e para o Brasil" e "vamos buscar caminhos e ideias novas, sem nos aferrar a experiências e regras dos outros".
No sonho, Brasilino tinha idade indefinida e vivia num tempo e local meio indefinidos, tudo muito onírico. Passado, presente e futuro, tudo bem misturado, com pessoas, acontecimentos e cenários embolados. Um sonho muito mais doido do que uma tela de Salvador Dali. Freud levaria uns 20 anos para tentar explicar ou entender direito o tal mega-sonho, e Brasilino acha que nem conseguiria. No final, Freud perguntaria: "Afinal, o que querem os brasileiros?". Sonho tropical, intergaláctico e universal. Sonho sem nome e sem limites. 

a propósito...

A vida é sonho, e os sonhos, sonhos são, escreveu Calderón de la Barca. O que um homem sonha, outro, às vezes, realiza. Sonhos de criança, os tesouros maiores da vida, realizados ou não. Sonhos de adolescente, adulto e idoso. Velho não sonha. A vida está mais para quadro surrealista do que para teorema matemático. A imaginação é mais importante que o saber. Sonho, ciência, fé, educação, cultura, informação fake ou não, vida e tempo infinitos... Brasilino devaneia, delira, pensa que nosso caminho é longo, mas que não estamos parados, pensa que já fomos pobres, ricos, um monte de coisas, milhões buscando desenvolver numa verdadeira Nação num território-continente abençoado. Um dia o sonho acorda.  
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