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Porto Alegre, sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021.
Notícia da edição impressa de 12/02/2021.
Alterada em 12/02 às 03h00min

Crítica cosmopolita

Um diretor nascido nos Estados Unidos e descendente de iranianos, um filme financiado por empresas de vários países, ação desenrolada e filmada na Índia com intérpretes daquele país, equipe técnica de diversas precedências: eis a globalização exercendo sua força no cinema. O tigre branco é mais um exemplo - e são tantos ultimamente - de que no mundo atual é cada vez mais difícil o isolamento, mesmo que ainda haja vozes discordantes, que ressaltam que nesta aldeia universal nem tudo é harmonia e universalidade e que a aproximação e o entrelaçamento ampliaram não apenas a economia, pois também ressaltaram o abismo a separar beneficiados e marginalizados pelo processo.
Um diretor nascido nos Estados Unidos e descendente de iranianos, um filme financiado por empresas de vários países, ação desenrolada e filmada na Índia com intérpretes daquele país, equipe técnica de diversas precedências: eis a globalização exercendo sua força no cinema. O tigre branco é mais um exemplo - e são tantos ultimamente - de que no mundo atual é cada vez mais difícil o isolamento, mesmo que ainda haja vozes discordantes, que ressaltam que nesta aldeia universal nem tudo é harmonia e universalidade e que a aproximação e o entrelaçamento ampliaram não apenas a economia, pois também ressaltaram o abismo a separar beneficiados e marginalizados pelo processo.
O curioso é que, no caso do filme dirigido por Ramin Bahrani, cuja competência se revela em toda a narrativa, a obra parece criticar ela mesma, pois o filme não deixa de ser a reunião de artistas e técnicos de várias nações. É uma contradição, mas também a constatação de que igualmente é universal a praga da corrupção, para citar apenas este exemplo negativo. O espectador terá a oportunidade de constatar tal afirmação ao acompanhar aquela pasta portadora de fortunas e destinadas a partidos políticos de esquerda e de direita e também destinadas a fazer a alegria de autoridades da assim chamada "maior democracia do mundo". O filme de Bahrani é duro na crítica, mesmo que por vezes ceda espaço aos recursos da caricatura, sem perder, no entanto, o equilíbrio e a força.
A Índia exerceu fascínio e poder de atração a muitos cineastas importantes. Jean Renoir, por exemplo lá realizou O rio, em 1950, trabalho no qual teve como assistente Satyajit Ray, o que certamente contribuiu para o interesse pelo cinema do futuro diretor da extraordinária Trilogia de Apu. David Lean lá realizou, em 1984, seu último filme, Passagem para a Índia. E foi também na Índia que Danny Boyle realizou Quem quer ser um milionário?, em 2008, trabalho que foi laureado pela Academia de Hollywood.
O filme de Bahrani se distancia dos citados por acentuar temas como a cobiça, os espaços entre as classes sociais, a miséria que se espalha, o poder exercido sem qualquer pudor, a farsa que chama de progressistas partidos comprometidos com a imobilidade, a violência e a indiferença diante da vida humana. A sequência do atropelamento, por exemplo, reúne todos esses elementos e termina com aquela encenação que promove o protagonista e narrador a novo integrante da família. Quem antes era tratado como um serviçal merecedor de agressões passa a ser visto como um membro da família que representa o autoritarismo. Mas O tigre branco não se deixa seduzir pelas simplificações e mensagens dominadas pela ingenuidade. Haverá uma vingança, não de um herói justiceiro, mas de quem assimilou as lições dos dominantes, algo antecipado pela cena na qual a inteligência do personagem é percebida pelo professor.
O gênero a qual pertence o filme de Bahrani tem predecessores ilustres, como Consciências mortas, de William Wellman, realizado em 1944; O preço de uma vida, de Edward Dmytryk, em 1949; e Aquele que deve morrer, de Jules Dassin, em 1957. São filmes que falam da desumanidade e que costumam discorrer sobre os aspectos mais deploráveis das sociedades humanas, aqueles que reduzem a vida a apenas um detalhe. São filmes que enobrecem a luta e colocam em cena resistentes.
Mas o tigre de Bahrani não pertence a mesma família. Ele ressalta que as distorções e as tiranias podem, além de dar origem a elementos contrários, erguer figuras que passam a fazer parte de um sistema. Na essência, O tigre branco é a constatação de que nem sempre o revide parte de setores interessados em corrigir injustiças. Tal combate também pode ser marcado pelo desejo de vingança e sede de poder, algo que o filme ressalta, com ironia e insolência em sua sequência final.
O filme não idealiza o protagonista e procura ressaltar com toques de pessimismo que a engrenagem permanece intacta, só que agora dirigida por outras mãos. Ettore Scola fez mais ou menos a mesma coisa em algumas cenas de Feios, sujos e malvados, realizado em 1975, ao constatar que a miséria não dá origem a gestos nobres e sim a ações tão nefastas quanto às do processo que lhe deu origem. O que não deixa de ser uma advertência.
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Hélio Nascimento
Hélio Nascimento
Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade, Hélio Nascimento analisa os melhores filmes em cartaz todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.