Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quinta-feira, 31 de dezembro de 2020.
Dia de São Silvestre.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020.
Notícia da edição impressa de 31/12/2020.
Alterada em 31/12 às 03h00min

A hora final

O gênero da ficção-científica ou o cinema de antecipação tem, com este O céu da meia-noite, mais um título que merece ser conhecido. Uma das marcas do gênero tem sido uma visão sombria sobre o futuro que nos aguarda, tendo como ponto de partida erros cometidos pela civilização, desde equívocos no relacionamento com a natureza até a criação de conflitos que, criados pela ambição e a sede de poder, terminam numa violência incontrolável e apocalíptica. A lista é grande e por vezes conta com trabalhos que merecem estar entre os grandes momentos do cinema. Mas as previsões contidas nas imagens e situações dos filmes dedicados a tal forma de expressão não se limitam a exercer uma imaginação que nos transporta para o futuro. Essencialmente, tais filmes nos falam do tempo presente e usam as alegorias futuristas para nos colocar diante de problemas contemporâneos. A estátua abatida vista no epílogo do primeiro Planeta dos macacos, de Franklin J. Schaffner, é uma clara referência a erros e descaminhos contemporâneos. As ruinas do futuro atuam como poderosas advertências ou símbolos de um grande fracasso. Por vezes, como em 2001: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, e Gravidade, de Alfonso Cuaron, se concretiza a abertura de um novo caminho, seja aquele do filme-ensaio, que expõe a trajetória humana, seja o do relato que se apoia no drama de uma personagem que tenta voltar ao seu mundo, em busca do recomeço depois de perdas e erros. O novo filme dirigido por George Clooney, certamente que não por acaso, se aproxima daquele realizado por Cuaron. Clooney atuou em Gravidade como ator e a influência do filme do cineasta mexicano é evidente no que agora pode ser visto nos cinemas, onde as salas estão funcionando, e na tela reduzida, em cidades em que as restrições atingiram os locais onde as imagens podem ser vistas na forma original.
O gênero da ficção-científica ou o cinema de antecipação tem, com este O céu da meia-noite, mais um título que merece ser conhecido. Uma das marcas do gênero tem sido uma visão sombria sobre o futuro que nos aguarda, tendo como ponto de partida erros cometidos pela civilização, desde equívocos no relacionamento com a natureza até a criação de conflitos que, criados pela ambição e a sede de poder, terminam numa violência incontrolável e apocalíptica. A lista é grande e por vezes conta com trabalhos que merecem estar entre os grandes momentos do cinema. Mas as previsões contidas nas imagens e situações dos filmes dedicados a tal forma de expressão não se limitam a exercer uma imaginação que nos transporta para o futuro. Essencialmente, tais filmes nos falam do tempo presente e usam as alegorias futuristas para nos colocar diante de problemas contemporâneos. A estátua abatida vista no epílogo do primeiro Planeta dos macacos, de Franklin J. Schaffner, é uma clara referência a erros e descaminhos contemporâneos. As ruinas do futuro atuam como poderosas advertências ou símbolos de um grande fracasso. Por vezes, como em 2001: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, e Gravidade, de Alfonso Cuaron, se concretiza a abertura de um novo caminho, seja aquele do filme-ensaio, que expõe a trajetória humana, seja o do relato que se apoia no drama de uma personagem que tenta voltar ao seu mundo, em busca do recomeço depois de perdas e erros. O novo filme dirigido por George Clooney, certamente que não por acaso, se aproxima daquele realizado por Cuaron. Clooney atuou em Gravidade como ator e a influência do filme do cineasta mexicano é evidente no que agora pode ser visto nos cinemas, onde as salas estão funcionando, e na tela reduzida, em cidades em que as restrições atingiram os locais onde as imagens podem ser vistas na forma original.
Desde seus dois primeiros filmes como realizador, Confissões de uma mente perigosa e Boa noite e boa sorte, o primeiro sobre o mundo da espionagem e o segundo sobre o papel da imprensa em momentos de crise, com aquelas belas palavras no epílogo sobre o papel dos meios e comunicação, Clooney revelou evidentes afinidades com a narrativa cinematográfica. Se os seus filmes seguintes não alcançaram o mesmo nível dos primeiros nunca deixaram de ser trabalhos construídos com inegável competência. O mesmo se pode dizer agora, numa obra que além de referências ao já citado filme de Cuaron, também tem como inspiração outro filme no qual o cineasta foi ator principal, Solaris, realizado em 2002 por Steven Soderbergh, baseado num livro do polonês Stanislaw Lem, que já havia sido filmado em 1972 pelo russo Andrei Tarkowski. É curiosa essa aproximação de um diretor a dois filmes nos quais ele atuou como ator. Mas não se trata de uma correção e sim de um acréscimo, que coloca em cena de forma bem clara temas sugeridos pelas obras anteriores. O céu da meia-noite não é apenas um filme de antecipação. Uma leitura fixada no exterior do que é visto na tela, certamente permitirá tal leitura. Porém, há algo mais importante e revelador na história que é narrada.
O tema da solidão abre a narrativa, quando vemos o cientista sozinho na base abandonada por todos, menos por ele, que procura um contato com os tripulantes de uma nave espacial, que procura voltar à Terra. Numa tela ampla essa solidão e este cenário que a revelam certamente causariam maior impacto. É possível, no entanto, constatar a força de tal solidão. A causa foi um acidente que praticamente tornou o planeta inabitável, algo que não impediu a esperança dos que partem em busca de um cenário que permita a sobrevivência. Tal fato permite uma clara analogia com a realidade atualmente vivida pela humanidade. Mas o filme, involuntariamente profético, foi concluído antes da pandemia. No entanto, mesmo percebendo sua atualidade, é possível notar que o conteúdo latente nos fala de uma crise ainda maior. O olhar de censura da menina é uma clara condenação à ausência de afeto e humanismo. Convém não ir adiante, a fim de não retirar a emoção de um epílogo revelador de carências que encaminham o ser humano para um plano final, que junto aos créditos, expõe o tema que já estava visível na cena inicial.
 
Comentários CORRIGIR TEXTO
Hélio Nascimento
Hélio Nascimento
Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade, Hélio Nascimento analisa os melhores filmes em cartaz todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.