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Porto Alegre, sexta-feira, 06 de novembro de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 06 de novembro de 2020.
Notícia da edição impressa de 06/11/2020.
Alterada em 05/11 às 21h28min

Confusão planejada

Depois do notável Dunkirk, esperava-se do diretor Christopher Nolan o mesmo nível alcançado por aquele épico ou então que o cineasta mantivesse, já que agora se trata de uma aventura de ficção, a qualidade de sua trilogia sobre Batman, que, principalmente em sua segunda parte, era um belo ensaio sobre o tema da corrupção e o lado sombrio da natureza humana, uma antecipação do impressionante Coringa, de Todd Philips. Mas o que se vê em Tenet é uma recaída do cineasta, que agora volta a se expressar através de situações artificiais e por vezes tornadas ridículas por diálogos que nada esclarecem e que propositadamente servem apenas para tornar ainda mais obscuras certas passagens. O realizador, sem qualquer dúvida, é um mestre em seu ofício de narrador. Quem não está interessado em decifrar as ligações entre cada sequência certamente terá o que ver na maioria das cenas. Só que estas, muito bem realizadas, não trazem novidade e apenas repetem o que tem sido visto em filmes que nada mais fazem do que prestar vassalagem aos recursos agora permitidos e que estão encaminhando o cinema para a pobreza temática e a submissão ao fácil entretenimento. E como Nolan é um diretor pretensioso, o jogo eletrônico vem acompanhado por citações e referências que apenas revelam exibicionismo e se apequenam diante da superficialidade dos diálogos, mesmo que estes façam citações a clássicos do cinema, como ao final de Casablanca.
Depois do notável Dunkirk, esperava-se do diretor Christopher Nolan o mesmo nível alcançado por aquele épico ou então que o cineasta mantivesse, já que agora se trata de uma aventura de ficção, a qualidade de sua trilogia sobre Batman, que, principalmente em sua segunda parte, era um belo ensaio sobre o tema da corrupção e o lado sombrio da natureza humana, uma antecipação do impressionante Coringa, de Todd Philips. Mas o que se vê em Tenet é uma recaída do cineasta, que agora volta a se expressar através de situações artificiais e por vezes tornadas ridículas por diálogos que nada esclarecem e que propositadamente servem apenas para tornar ainda mais obscuras certas passagens. O realizador, sem qualquer dúvida, é um mestre em seu ofício de narrador. Quem não está interessado em decifrar as ligações entre cada sequência certamente terá o que ver na maioria das cenas. Só que estas, muito bem realizadas, não trazem novidade e apenas repetem o que tem sido visto em filmes que nada mais fazem do que prestar vassalagem aos recursos agora permitidos e que estão encaminhando o cinema para a pobreza temática e a submissão ao fácil entretenimento. E como Nolan é um diretor pretensioso, o jogo eletrônico vem acompanhado por citações e referências que apenas revelam exibicionismo e se apequenam diante da superficialidade dos diálogos, mesmo que estes façam citações a clássicos do cinema, como ao final de Casablanca.
A cena de abertura de Tenet promete algo que o filme depois não cumpre. Num amplo auditório lotado, um maestro se prepara para dar início a um espetáculo, quando terroristas invadem local atirando nos músicos. Esse ataque a uma manifestação cultural, que pode ser uma ópera ou um concerto, não deixa de ser um fragmento a refletir uma época em que a cultura é vítima de agressões ou objeto de desprezo. E esta cena, muito bem encenada e que lembra os prólogos da série 007, também revela antecipadamente a estrutura do filme, que parece ser feita de fragmentos que poderiam ser melhor utilizados, para que o espectador fosse mais esclarecido sobre o que se passa na tela. É que Nolan utiliza cenas em que diversos temas aparecem. Assim, sem que a passagem normal do tempo seja seguida, vemos cenas de uma crise conjugal, narrativas sobre falsificação de obras de arte, violência contra a mulher e uma luta contra a organização chefiada por um vilão que se arrependeu de trazer a um mundo em decadência uma nova vida. Tudo isso vem acompanhada por digressões sobre o tempo e a ameaça de destruição completa de nosso mundo. Nolan parece ter esquecido a lição milenar de que narrar bem e de forma clara é essencial e fala sobre tudo isso de forma apressada e superficial. O filme também vem acompanhado por várias referências à física e especulações sobre a passagem do tempo, mas que pouco esclarecem sobre o que está sendo narrado.
Na sequência final, o vilão cita os célebres versos do T.S. Eliot no final de Os homens ocos: "Assim expira o mundo / não com uma explosão, mas com um gemido". Mas certamente o que Nolan também leu e nunca esqueceu é o início de Quatro quartetos: "O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado". Mas como Nolan não é um Alain Resnais e nem um Orson Welles o que se vê durante quase a totalidade da narrativa é uma confusão planejada, impedindo que a racionalidade impere e que a clareza, depois do interesse sempre exigido pela proposta, seja a conclusão natural. E há uma cena curiosa e premonitória, aquela na qual os personagens são obrigados a usar máscaras. Espectadores e protagonistas do filme parecem estar no mesmo cenário, como num dos melhores filmes de Woody Allen. E vale desejar que o novo filme de Nolan, mesmo com seus problemas e sua superficialidade, encontre um número expressivo de interessados em vê-lo. Numa época em que o cinema enfrenta um grande desafio, será certamente importante que o público seja outra vez atraído pela tela verdadeira e insubstituível.
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Hélio Nascimento
Hélio Nascimento
Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade, Hélio Nascimento analisa os melhores filmes em cartaz todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.