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Porto Alegre, sexta-feira, 24 de janeiro de 2020.
Dia Nacional do Aposentado.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 24/01/2020.
Alterada em 24/01 às 03h00min
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O conflito

O painel proposto pelo malinês Ladj Li em Os miseráveis é tão rico como surpreendente. Numa época em que as tensões sociais, produto das distorções e das imperfeições de estruturas que colocam o humano em plano inferior e ainda são reflexos de um passado cujas mazelas não foram solucionadas ou propositadamente ocultas, têm sido vistas de forma panfletária, a narrativa se afasta das simplificações, se aproxima de personagens reais e não aceita o maniqueísmo. Esta produção francesa dirigida por um cineasta nascido na África não é apenas o encontro de culturas, mais do que isso o filme se impõe como uma obra que coloca o espectador diante de uma realidade difícil de ser contemplada, mas reveladora de um mundo tumultuado, no qual as estruturas que o sustentam são abaladas por uma revolta que, mesmo se manifestando de forma caótica, é a dura revelação de um processo ainda não concluído e que se encontra em um momento que sinaliza para um cenário onde predominará o choque e a sociedade será colocada diante de um impasse. A cena final do filme, um epílogo magistral, coloca os personagens e o próprio espectador diante de uma escolha de extrema dificuldade. Trata-se de um momento raro em intensidade dramática, até por resumir a complexidade do tema abordado pelo filme. Li, que escreveu o roteiro com Alex Manenti, este também em cena vivendo o policial truculento, e também com Giordano Gederini, empunha a bandeira da revolta, mas ao mesmo tempo flagra uma hesitação gerada por um sentimento ainda não inteiramente sufocado e gerado pelo que ainda resta de humanismo em uma época em que o ódio parece predominar.
O painel proposto pelo malinês Ladj Li em Os miseráveis é tão rico como surpreendente. Numa época em que as tensões sociais, produto das distorções e das imperfeições de estruturas que colocam o humano em plano inferior e ainda são reflexos de um passado cujas mazelas não foram solucionadas ou propositadamente ocultas, têm sido vistas de forma panfletária, a narrativa se afasta das simplificações, se aproxima de personagens reais e não aceita o maniqueísmo. Esta produção francesa dirigida por um cineasta nascido na África não é apenas o encontro de culturas, mais do que isso o filme se impõe como uma obra que coloca o espectador diante de uma realidade difícil de ser contemplada, mas reveladora de um mundo tumultuado, no qual as estruturas que o sustentam são abaladas por uma revolta que, mesmo se manifestando de forma caótica, é a dura revelação de um processo ainda não concluído e que se encontra em um momento que sinaliza para um cenário onde predominará o choque e a sociedade será colocada diante de um impasse. A cena final do filme, um epílogo magistral, coloca os personagens e o próprio espectador diante de uma escolha de extrema dificuldade. Trata-se de um momento raro em intensidade dramática, até por resumir a complexidade do tema abordado pelo filme. Li, que escreveu o roteiro com Alex Manenti, este também em cena vivendo o policial truculento, e também com Giordano Gederini, empunha a bandeira da revolta, mas ao mesmo tempo flagra uma hesitação gerada por um sentimento ainda não inteiramente sufocado e gerado pelo que ainda resta de humanismo em uma época em que o ódio parece predominar.
Os temas sociais, principalmente aqueles originados pelas distorções da distribuição de renda, mais precisamente pela ampliação da pobreza, são matéria fácil para o panfleto e as palavras de ordem, mas o filme procura um caminho diferente. Li olha para um mundo marcado pela injustiça de forma a ressaltar um dos aspectos mais dolorosos de tal processo: a transformação de crianças em protagonistas de um espetáculo revelador e difícil de ser acompanhado. Numa fase na qual grande parte da produção cinematográfica se volta para a superficialidade, eis um filme empenhado em focalizar a realidade. Quando é feita a citação ao romance do qual o filme se apropria do título, o cineasta assume outra vez a fonte de inspiração, não apenas no fato de a ação transcorrer num dos cenários da obra de Victor Hugo. O texto citado, escrito em 1862, permanece atual, mas o filme certamente amplia o sentido de forma a se aproximar de outra constatação: a de que "os maus cultivadores" tem sua origem na maneira encontrada pela civilização para impor suas normas. Li se aproxima, no século XXI, da agressividade e da violência controladas de forma a não impedir sua ação e em alguns casos delas se utilizando. Este é o mau cultivo, ressaltado no romance e neste filme admirável.
O filme se aproxima pela forma como são apresentados e desenvolvidos os personagens e também pela maneira como os intérpretes são dirigidos. É como se a realidade fosse focalizada por uma câmera invisível. O filme não é o primeiro a empregar tal método, cujas raízes podem encontradas nos documentários de Flaherty e no neorrealismo italiano. Porém, tal opção não impede que uma forte alegoria seja erguida a partir do real. O percurso da agressividade humana é habilmente percorrido através da função exercida na trama pelo roubo de um filhote de leão. Quando a ação chega ao circo, a fera e também a brutalidade se revelam inteiramente. E há também, na cena de abertura, uma nação superficialmente unida por uma festividade que dura pouco e logo é substituída pela rudeza. E a utilização de um drone coloca em cena uma modernidade que registra ações humanas e assim revela aquilo que se procura manter oculto. Os três policiais encarregados da vigilância do cenário do romance mencionado são os que servem de guia ao espectador neste inferno atual. E também eles evidenciam pelo cotidiano em que vivem e pela maneira como agem as fragilidades e as contradições de uma sociedade. E não se trata apenas da França. Eis um filme que, falando de um bairro, atinge a universalidade.
 
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