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Porto Alegre, sábado, 25 de julho de 2020.
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Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sábado, 25 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 18/10/2019.
Alterada em 18/10 às 03h00min

O atentado

Em seu filme de 2015, Brooklyn, o irlandês John Crowley adquiriu o prestígio gerado pela colocação de tal trabalho entre os concorrentes ao Oscar. Naquela obra, que abordava o tema da emigração em direção aos Estados Unidos, a trajetória da personagem principal permitia ao cineasta uma série de variações sobre o tema da perda e do abandono do cenário original trocado pelas possibilidades abertas por um mundo novo. Porém, ao mesmo tempo em que diante da protagonista cortinas se abriam para revelar uma nova paisagem, o passado se impunha como força considerável, na medida em que a passagem do tempo apaga traços, mas não expulsa da memória e da sensibilidade vivências e perfis marcantes no desenvolvimento da personalidade. Na medida em que ela avança para uma nova vida, paisagens, costumes e figuras humanas passam a atuar como imãs que forçam a protagonista a um processo de retorno que expõe dúvidas e indecisões. No plano final, o abraço simboliza a aceitação de um novo caminho. Agora, com este O pintassilgo, Crowley volta aos mesmos temas, a eles acrescentando novos elementos, candidatando-se assim a ser visto como um autor e não apenas como um narrador.
Em seu filme de 2015, Brooklyn, o irlandês John Crowley adquiriu o prestígio gerado pela colocação de tal trabalho entre os concorrentes ao Oscar. Naquela obra, que abordava o tema da emigração em direção aos Estados Unidos, a trajetória da personagem principal permitia ao cineasta uma série de variações sobre o tema da perda e do abandono do cenário original trocado pelas possibilidades abertas por um mundo novo. Porém, ao mesmo tempo em que diante da protagonista cortinas se abriam para revelar uma nova paisagem, o passado se impunha como força considerável, na medida em que a passagem do tempo apaga traços, mas não expulsa da memória e da sensibilidade vivências e perfis marcantes no desenvolvimento da personalidade. Na medida em que ela avança para uma nova vida, paisagens, costumes e figuras humanas passam a atuar como imãs que forçam a protagonista a um processo de retorno que expõe dúvidas e indecisões. No plano final, o abraço simboliza a aceitação de um novo caminho. Agora, com este O pintassilgo, Crowley volta aos mesmos temas, a eles acrescentando novos elementos, candidatando-se assim a ser visto como um autor e não apenas como um narrador.
O cineasta é mais um, numa época de artifícios e concessões à vulgaridade, algo bem evidente neste lamentável Projeto Gemini, que abala e talvez destrua a carreira de Ang Lee, a adotar uma posição de resistência diante da mediocridade que se espalha e procura se impor pelo empenho em transformar o cinema em atividade destinada a deslumbrar por efeitos especiais, cada vez mais ridículos. O realizador de O pintassilgo, ao contrário, não despreza inovações narrativas, mas permanece fiel a um realismo de cena que é o essencial para a nossa arte. A necessidade de personagens verdadeiros e não de marionetes que discursam pelo diretor é a opção correta, desde Murnau até Bergman. O cinema dispensa informações sobre o destino de personagens. Basta acompanhá-los para que o essencial se revele. A cena final de Memórias do cárcere, por exemplo, quando Nelson Pereira dos Santos mostra o prisioneiro alcançando a liberdade e ainda caminhando com dificuldade e sofrendo as dores causadas pela repressão, ao som das variações de Gottschalk sobre o hino nacional, se distancia de discursos que procuram esconder a falta de imaginação e só revelam afinidades com sectarismos e superficialidades. Baseado num romance de Donna Tartt, premiado com o Pulitzer, o filme de Crowley parte de um atentado a um museu, no qual o tema da perda não se limita à destruição de obras de arte. E a partir de tal ato de violência que a narrativa se constrói, transformando tal acontecimento em episódio que marcará uma vida pela perda que causa.
A violência contra seres humanos e obras de arte revelam muito sobre o mundo atual. Em duas cenas, o realizador acentua que tal brutalidade pode também se revelar de outra forma, algo que evidencia que o ataque ao museu não é um ato isolado. Em dois momentos o filme focaliza agressões de pais contra filhos. As duas linhas narrativas se encontram no final, que habilmente é um prólogo, como se nada tivesse acontecido. O que vemos no plano derradeiro é a arte intacta, contemplada pelos personagens que representam uma sociedade. O cenário ainda não sofre o impacto da brutalidade. A vida e a cultura estão preservadas. Habilmente, o filme coloca em cena as figuras da mãe e do pai, tudo como num sonho concretizado e regido pela harmonia. Crowley deve admirar cineastas como Lean e Wyler, mestres em concretizar em imagens situações que sintetizam a essência de fatos, ao revelarem sinais que podem passar despercebidos a um olhar apressado. O cineasta cultua uma arte na qual a figura humana é o ponto essencial. O filme, que começa e termina com uma visita a um museu, procura mostrar que os danos causados à cultura na verdade se constituem em atentados ao ser humano. Entre um ponto e outro a narrativa se aproxima de outros temas que ao serem desenvolvidos revelam distorções e imperfeições das quais é necessário que o cinema não se afaste, a fim de que continue sendo uma tela na qual apareçam os tumultos de uma época e as formas de resistência.
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