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Porto Alegre, sexta-feira, 09 de agosto de 2019.
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Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 09/08/2019. Alterada em 08/08 às 21h44min

Superficialidades

Os entusiastas da nouvelle-vague, principalmente os admiradores de Truffaut, Chabrol e Godard, os que contemplaram na época de seu surgimento as inovações e a coragem de Alain Resnais, os que acompanharam as ousadias temáticas de Louis Malle, isso sem falar naqueles que, em sessões especiais e por ocasião de algumas reprises, constataram a grandeza de Jean Renoir - para citar apenas os que nos parecem os mais importantes e correndo o risco de desagradar os que colecionam outras preferências, algo plenamente justificável pois a cinematografia francesa foi, durante certo tempo, dotada de riqueza extraordinária -, todos eles estão podendo agora verificar que, com algumas exceções, o cinema francês que aqui tem chegado não tem se mostrado à altura de um passado tão glorioso. Algumas características permanecem, como a preferência por um cinema sempre próximo da literatura, vale dizer: uma arte exercida através do visual, mas conquistada pela força da palavra. Seria até interessante ressaltar que, para mostrar um personagem culto, o cinema francês o faz recitar trechos de algum autor. No cinema norte-americano, basta enquadrá-lo com um livro na mão. Há o caso de Mankiewicz, mas isso seria assunto a pedir espaço maior.
Os entusiastas da nouvelle-vague, principalmente os admiradores de Truffaut, Chabrol e Godard, os que contemplaram na época de seu surgimento as inovações e a coragem de Alain Resnais, os que acompanharam as ousadias temáticas de Louis Malle, isso sem falar naqueles que, em sessões especiais e por ocasião de algumas reprises, constataram a grandeza de Jean Renoir - para citar apenas os que nos parecem os mais importantes e correndo o risco de desagradar os que colecionam outras preferências, algo plenamente justificável pois a cinematografia francesa foi, durante certo tempo, dotada de riqueza extraordinária -, todos eles estão podendo agora verificar que, com algumas exceções, o cinema francês que aqui tem chegado não tem se mostrado à altura de um passado tão glorioso. Algumas características permanecem, como a preferência por um cinema sempre próximo da literatura, vale dizer: uma arte exercida através do visual, mas conquistada pela força da palavra. Seria até interessante ressaltar que, para mostrar um personagem culto, o cinema francês o faz recitar trechos de algum autor. No cinema norte-americano, basta enquadrá-lo com um livro na mão. Há o caso de Mankiewicz, mas isso seria assunto a pedir espaço maior.
Há alguns anos, uma revista norte-americana especializada em economia e em assuntos internacionais fez um inquérito entre economistas de todo o mundo para que fosse escolhida uma lista de obras sobre tais temas que fossem importantes para que o leitor tivesse um auxílio em seu empenho de compreender o mundo atual. Curiosamente, apareceu na lista um romance, Os Thibault, de Roger Martin du Gard. Mais interessante ainda, na relação surgiram dois filmes: Tempos modernos, de Charles Chaplin, e A grande ilusão, de Jean Renoir. Aqueles que sempre colocaram esses dois filmes entre os maiores de todos os tempos tiveram a satisfação de constatar que o interesse pelo cinema, pelo menos em alguns casos, não estava restrito à cinefilia, algo que, sem dúvida, ressalta a importância de nossa arte. A pergunta a ser feita, depois de tal lembrança, é a seguinte: qual filme francês de produção atual que mereceria destaque como o obtido pela grande obra de Renoir? Três produções recentes tornam claro que tal não tem as mínimas condições de ser repetido. Mesmo que filmes como O professor substituto, O mistério de Henri Pick e Cézanne e eu abordem temas relevantes, eles o fazem de forma a tornar inconsequentes suas propostas.
O primeiro deles, dirigido por Sébastien Marier, tenta colocar em cena o tema da devastação e os perigos promovidos pela sociedade em sua ânsia do chamado progresso. Mas o faz de forma a transformar os defensores da natureza em descendentes daqueles garotos de A aldeia dos amaldiçoados, capaz mesmo de incentivar o suicídio de um professor. Isso para não falar em falhas no roteiro e no ridículo da paixão de uma professora pelo personagem principal. O segundo, assinado por Remi Besançon, perde oportunidade de falar com mais profundidade sobre talentos não reconhecidos é só postumamente aclamados. O terceiro, Cézanne e eu, chega aqui com algum atraso, pois foi realizado em 2016 por Danièle Thompson. É o mais interessante deles, mas também peca por simplificações e superficialidades. Já que o personagem narrador é Émile Zola, a questão da condenação injusta de Alfred Dreyfus mereceria maior destaque do que uma simples menção no epílogo. A célebre carta aberta ao presidente francês, um documento que passou à história com o título de Eu acuso, conforme foi publicado no jornal L'Aurore, bem que merecia uma aproximação com outra injustiça: o não reconhecimento, depois corrigido, da arte do amigo Paul Cézanne. Quanto ao pintor, o filme está longe de trabalhos de Minnelli, Huston, Clouzot, Pialat e Resnais. Zola, como se sabe, morreu em circunstâncias até hoje não devidamente esclarecidas, e mesmo Dreyfus, depois de libertado, sofreu um atentado que o deixou ferido, quando acompanhava a cerimônia da transferência das cinzas do escritor, que teve papel decisivo em sua libertação, para o Panthéon. Certamente, a característica principal de um filme menor é o de não desenvolver de forma criativa temas relevantes. Ou então deixar de trazer ao espectador revelações novas e significativas.
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