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Porto Alegre, sexta-feira, 10 de maio de 2019.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 10/05/2019. Alterada em 09/05 às 21h58min

Cenas

Tudo que tivemos - Fritz Lang costumava dizer que o tempo que passamos dentro de um cinema nunca é perdido. E acrescentava que, quando filme nos desagrada ou nos parece imperfeito, é uma boa solução imaginar como ele poderia ser feito de outra maneira. Ela falava, claro, como realizador. Ao espectador aparece outro caminho. Procurar no passado semelhanças que, além de estabelecer parâmetros e reafirmar critérios, podem atuar como forças auxiliares para que novas realizações sejam avaliadas a partir de modelos que o tempo solidificou e, portanto, atuam como juízes do que é feito no presente. A atriz e diretora de televisão Elisabeth Chomko revela em Tudo que tivemos que tinha como referência adaptações de peças de Tennessee Williams e Eugene O'Neill feitas por Sidney Lumet, embora seu filme seja baseado em roteiro original por ela mesmo escrito. Mas é óbvio que a ênfase dada às palavras e o recurso de utilizar o núcleo familiar como base permitem a comparação. O filme procura personagens verdadeiros, mas está muito longe da harmonia entre palavra e imagem que um mestre como Mankiewicz conseguiu em toda a sua obra. Infelizmente, a cineasta não consegue evitar trechos constrangedores, entre eles todo o episódio do qual participa um técnico em fechaduras. E alguns diálogos poderiam ser evitados, até porque nada acrescentam e também por representarem concessões à vulgaridade.
A sombra do pai - Gabriela Amaral Almeida, a realizadora de A sombra do pai, seu segundo longa-metragem, arrisca uma aproximação com o cinema fantástico. Seu objetivo é falar de carências, tanto as afetivas como as materiais, ao colocar como protagonistas um operário viúvo e sua filha, esta uma menina que não se conforma com a morte da mãe e utiliza a imaginação para tentar trazê-la de volta, algo que a cena inicial do filme deixa evidente. O trecho final fortalece a impressão de que o modelo escolhido pela cineasta foi George Romero e seus mortos vivos. Ao invés de adotar o modelo bergmaniano, aquele encontro entre Bach e Michelangelo em Gritos e sussurros, a cineasta preferiu também uma aproximação com as propostas de Zé do Caixão. Quanto ao drama do pai operário, talvez a diretora não tenha visto O preço de uma vida, aquele ensaio de Edward Dmytrik, uma das vítimas da histeria anticomunista da época macarthista, sobre a desumanidade e as distorções nas relações entre o homem e o trabalho. Porém, o filme procura se afastar das detestáveis palavras de ordem e do primarismo político que tanto têm prejudicado o cinema brasileiro.
Digitalização - A nova Sala Eduardo Hirtz se inclui entre os bons espaços cinematográficos da cidade. Resta agora ao Banrisul, que dá nome ao complexo que também inclui as salas Paulo Amorim e Norberto Lubisco, participar do processo de recuperação dos outros dois cinemas, que assim como as salas recuperadas tiveram e ainda tem papel importante na história cultural de Porto Alegre. A digitalização é essencial para valorização da imagem. Numa época em que meios de reprodução de imagem se ampliam o cinema deve permanecer na vanguarda e não empregar meios deficientes de projeção. Que a Eduardo Hirtz sirva de modelo.
Torres - O Rio Grande do Sul tem uma bela tradição em matéria de cineclubismo, tanto pelo Clube de Cinema de Porto Alegre, que completou 70 anos em 2018, quanto pelo Pro Deo, que deixou de funcionar. Nos últimos tempos tem chamado a atenção o Cineclube Torres, cuja programação é das mais criteriosas e organizada a partir de ciclos temáticos, algo que lembra a fase do pequeno Bristol, outro marco de nossa história cultural. Os organizadores não interrompem a programação nos meses de verão, algo apropriado devido ás características da cidade, e durante todo o ano os ciclos são exibidos regularmente. Eis uma forma de manter o cinema vivo e revelar que as atividades culturais não devem ficar restritas aos chamados grandes centros.
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