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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Edição impressa de 14/12/2018. Alterada em 14/12 às 01h00min

Vida de artista

Hélio Nascimento
A primeira constatação a ser feita diante do documentário Maria Callas - Em suas próprias palavras é aquela que nos permite concluir que o diretor Tom Volf perdeu uma grande oportunidade de realizar um trabalho voltado para temas muito mais interessantes do aquele que domina quase toda a narrativa de seu trabalho. Isso porque o filme está quase que completamente dominado - o que o título original, Maria by Callas, e também aquele com o qual está sendo exibido aqui confirmam - pelos problemas pessoais enfrentados em sua vida pela cantora. Eles fazem parte, sem dúvida, da trajetória da artista e não poderiam estar ausentes de um documentário sobre ela. Mas, ao conferir ênfase aos dramas enfrentados fora dos palcos, o filme se transforma em obra de um documentarista embevecido pela figura da biografada. Esta cinebiografia em sons e imagens, durante a qual são utilizados apenas registros históricos, alguns até hoje inéditos, deverá, por outro lado, interessar - e muito - a todos os admiradores da soprano focalizada e também os melômanos que têm na ópera a sua paixão principal. E também aos que sempre mantiveram seu interesse pela música que faz parte da cultura ocidental, por aqui equivocadamente chamada de erudita, adjetivo corretamente não empregado quando se fala de criadores em outras áreas.
A música sempre foi um elemento extremamente importante para o cinema, e nunca seria demais lembrar aproximações significativas. Desde Alexandre Newski, de Serguei Eisenstein, até óperas transformadas em obras-primas cinematográficas como A flauta mágica, de Ingmar Bergman, e Don Giovanni, de Joseph Losey, as duas formas de expressão nunca se distanciaram. Sem medo de errar é possível afirmar que, se o gênio de Stanley Kubrick fosse afastado da arte dos sons, um filme como 2001 não teria a mesma força. Volf, no seu filme sobre Callas, tangencia o tema e não pode ser perdoado por, mesmo utilizando imagens do diretor, deixar de mencionar o papel importantíssimo que Luchino Visconti teve na carreira da artista. Visconti, que durante muito tempo teve sua participação vetada no Scala de Milão por suas simpatias pelo marxismo, graças à sua amizade com a soprano conseguiu ali dirigir óperas que entraram para a história do teatro, entre elas, uma versão que se transformou em algo lendário de La traviata, de Verdi. Nessas e em outras óperas, Visconti soube explorar e também aprimorou o talento da artista para a interpretação cênica, algo que é facilmente constatável nas imagens que foram preservadas de algumas encenações, algumas delas utilizadas por Volf. São palavras do próprio Visconti: "Com Maria, tive a sensação de ver nascer uma atriz extraordinária. Sua Traviata e sua Anna Bolena permanecem dois imensos exemplos de sua interpretação cênica. Além da vocal". Algumas cenas da versão de Visconti para La traviata foram, segundo testemunhos de admiradores do cineasta, depois desenvolvidos em trechos de Rocco e seus irmãos, um dos maiores momentos da filmografia do mestre e de todo o cinema.
Deixando para especialistas a aferição do talento musical de Maria Callas e também não entrando na polêmica das comparações com Renata Tebaldi, qualquer espectador poderá perceber a extrema sensibilidade da intérprete em algumas árias apresentadas na íntegra, entre elas, a Casta Diva, da Norma, de Bellini, e O mio babbino caro, célebre trecho de Gianni Schicchi, de Puccini, utilizado por John Huston em A honra do poderoso Prizzi, e com o qual Anna Netrebko homenageou Martin Scorsese, quando o diretor recebeu o prêmio do Instituto Americano do Filme. O cinema é ressaltado no final do documentário, quando Volf utiliza cenas das filmagens de Medeia, de Pier Paolo Pasolini, na qual Callas foi a protagonista, com uma presença em cena que um crítico da época chamou de hierática e majestosa. Filmes como este de Volf têm seus modelos, que servem como parâmetros. Muitos superiores são obras como a de João Moreira Salles sobre Nelson Freire e a de François Reichenbach sobre Arthur Rubinstein. Parece que no realizador deste documentário sobre Maria Callas a admiração pela cantora é muito maior do que seu poder de observação e sua capacidade de valorizar a realidade preservada pelas imagens.
 
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